As charges políticas são fontes primárias vívidas que oferecem perspectivas intrigantes e divertidas sobre o humor público, as suposições culturais subjacentes de uma época e as atitudes em relação a eventos ou tendências importantes daquele período. Exatamente por essa riqueza histórica, quase todos os livros didáticos de história incluem charges políticas. No entanto, a aparente simplicidade e a clareza muitas charges podem ser bastante enganosas. As melhores produções expressam uma complexidade conceitual real em um único desenho e poucas palavras.
Estudos revelam que uma porcentagem considerável de adultos não consegue entender plenamente as charges políticas publicadas em seus jornais diários. Diante desse dado, quão mais difícil deve ser para os jovens compreenderem charges vindas de um passado distante, repletas de linguagens e referências visuais que muitas vezes se tornaram obscuras?
Em resumo, as charges políticas empregam estratégias visuais complexas para transmitir uma mensagem rapidamente em um espaço limitado. O papel fundamental do professor é, portanto, ajudar os alunos a dominar essa linguagem gráfica para que eles possam se beneficiar dessas fascinantes fontes de conhecimento sobre o nosso passado.
No entanto, muitos professores enfrentam dificuldades devido à natureza controversa dessas fontes, à falta de formação específica ou mesmo ao receio persistente gerado por tensões globais recentes envolvendo a liberdade de imprensa, como o atentado ao jornal Charlie Hebdo em 2015. Superar essas barreiras é essencial: ler uma caricatura exige uma “alfabetização visual” e um pensamento crítico que precisam ser ativamente desenvolvidos na escola.
O desenho satírico como investigação narrativa
Para que o potencial dessas fontes seja plenamente aproveitado, o estudante deve assumir um papel ativo, e não um mero espectador de imagens. Nas aulas de História, os desenhos satíricos servem para auxiliar os alunos na construção ativa do conhecimento, por meio de uma abordagem metodológica no âmbito da aprendizagem baseada em problemas.
O grande diferencial pedagógico da charge é que ela não é um registro neutro, mas sim uma expressão de opinião profundamente tendenciosa. Ela representa uma narrativa — ou seja, um relato coerente e lógico de eventos estruturado sob a ótica do cartunista.
Como os estudantes costumam aceitar narrativas prontas sem questioná-las, o desafio é ensiná-los a investigarem essas representações como um princípio metodológico. Diante de uma charge, a turma deve ser instigada a resolver duas tarefas fundamentais:
- Qual é a narrativa central que está sendo contada?
- Por que o cartunista escolheu transmitir essa mensagem e de que forma ele busca persuadir o leitor?
Nesse processo, a tarefa principal dos alunos não é julgar se a charge está “certa” ou “errada”, mas sim decifrar e criticar o seu viés, transformando a parcialidade da imagem em uma rica evidência histórica.
O papel do professor: selecionar a fonte
Antes de levar uma imagem para o debate em sala de aula, o professor precisa exercer uma curadoria cuidadosa. O sucesso da atividade depende diretamente da qualidade do documento selecionado. É indispensável que a charge, caricatura ou cartum esteja perfeitamente nítida e completa, preservando o desenho original e o texto integral sem cortes.
Outro elemento vital é a presença clara da data de publicação; sem ela, pode se tornar uma tarefa impossível situar os alunos no tempo e realizar a contextualização histórica correta.
O documento deve ainda, preferencialmente, trazer o nome do autor e o local de publicação. Conhecendo a autoria, é possível fazer uma rápida pesquisa sobre o chargista, em que veículos da mídia trabalhou, sua orientação política e outros detalhes que podem enriquecer a leitura crítica de seu trabalho. Saber a trajetória do artista é compreendê-lo como um intelectual que possui lugar de fala, uma carreira e uma linha editorial com a qual dialogava.
Identificar o veículo (como um jornal específico, uma revista de oposição ou um livreto satírico) é o que permite ao professor referenciar a qual público-alvo aquela mensagem originalmente se destinava, enriquecendo a análise sobre a intencionalidade do traço.
Roteiro de leitura crítica em sala de aula (passo a passo)
Para decifrar a linguagem especial usada pelos cartunistas para sintetizar ideias complexas em um único quadro, o professor pode guiar a classe através de um roteiro prático dividido em cinco etapas fundamentais:
1. Observação inicial e decomposição visual
Oriente os alunos a olharem o conjunto antes de focar nos detalhes. Peça que listem as pessoas, os objetos e os cenários que observam. Faça perguntas como:
- Quem são os personagens?
- Onde eles estão e o que estão fazendo?
- Quais são suas expressões faciais e corporais?
Incentive a turma a perceber para onde seus olhos são atraídos primeiro. Analise o tamanho das figuras (muitas vezes distorcidas para enfatizar uma situação), o sombreamento (claro e escuro) e os exageros físicos. Continue com as perguntas:
- As figuras (ou uma delas) são pessoas comuns ou representam uma profissão, classe social, uma religião ou filiação partidária?
- Reconhece nos traços físicos alguém em particular?
2. Decodificação de textos e ironias
Examine os elementos escritos: títulos, legendas, rótulos ou balões de diálogo. Peça para os alunos lerem com atenção. Oriente os estudantes a buscarem duplos sentidos, jogos de linguagem e ironias nessas interações textuais. O humor e a crítica social frequentemente residem no contraste entre o que está escrito e o que está desenhado.
3. Identificação de símbolos e metáforas
Ensine os alunos a identificarem a “retórica visual” do artista. Peça que decodifiquem os sinais, símbolos, exageros ou metáforas que identificam o personagem ou a situação representada. Por exemplo:
- O que determinado animal, vestimenta ou objeto estranho representa naquele contexto? Um país, um conceito político, uma instituição pública?
4. Reconstrução do contexto histórico
A compreensão real de uma charge só ocorre quando ela é inserida em um cenário maior. O professor deve fornecer dados sobre o contexto geopolítico, os debates da época e o clima da opinião pública no momento da publicação. A partir daí, cruze a imagem com os conhecimentos prévios da turma e as lições do conteúdo programático.
5. Comparação de perspectivas e conexão com o presente
Sempre que possível, apresente duas charges sobre o mesmo tema ou de diferentes lados políticos. Essa contraposição ajuda a evidenciar como as imagens eram usadas para influenciar a opinião pública e gerar debates. Estimule reflexões sobre a permanência e a mudança nas estruturas sociais através de perguntas provocativas:
- Quais eram as políticas ou a situação econômica do período retratado?
- Quais são as semelhanças e diferenças do período da charge para os dias atuais no que se refere às políticas sociais?
Estudo de Caso: duas charges brasileiras
Para ilustrar a aplicação prática deste roteiro, analisamos duas das charges mais presentes nos manuais escolares do Brasil, excelentes para trabalhar a Ditadura Militar, as tensões globais e o uso da intertextualidade em sala de aula. Escolhemos uma charge de Ziraldo e uma de Jaguar.
Ziraldo (1932-2024) e Jaguar (1932-2025) são renomados cartunistas brasileiros com uma rica trajetória profissional e forte engajamento político, especialmente contra a ditadura militar. Trabalharam juntos em O Pasquim, semanário satírico que circulou de 1969 a 1991.
Exemplo 1: “Aí, o AI-5”, de Ziraldo
Publicada em 1968, no contexto da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) que marcou o endurecimento do regime militar brasileiro, a célebre charge de Ziraldo utiliza a metáfora visual e a ironia de forma cirúrgica para retratar o arbítrio institucional.

“Aí, o AI-5”, charge de Ziraldo, 1968.
Aplicação no roteiro:
1º PASSO (observação): os alunos notarão a disparidade física: um enorme elefante acuado por duas pequenas cobras.
2º PASSO (elemento textuais): no título da obra – “Aí, o AI-5” – Ziraldo constrói um trocadilho fonético genial e doloroso entre a interjeição “Aí!” — que evoca dor, susto e o lamento de quem foi golpeado — e a sigla do Ato Institucional nº 5. O título funciona como um duplo sentido: ao mesmo tempo em que anuncia o decreto (“Eis aqui o AI-5”), expressa a reação imediata da sociedade civil ao sentir o impacto do golpe dentro do golpe (“Aí! O AI-5 doeu”).
No diálogo dos balões, a ironia continua. Uma cobra alerta: “Te cuida que a barra tá pesando para as cobras”. O elefante responde assustado: “Mas… eu não sou cobra”, ao que a segunda cobra rebate: “PROVA PRA ELES…”.
3º PASSO (símbolos): analisa-se a inversão das forças naturais para representar a opressão: um enorme elefante representando o cidadão impotente diante do poder esmagador do Estado. As cobras, por sua vez, têm um duplo papel: elas fazem alusão ao imaginário popular da fofoca, do boato, da delação sorrateira que alimentavam as denúncias anônimas na ditadura. Por outro lado, carregam a simbologia da iconografia cristã da ameaça permanente, da traição e do veneno rasteiro (a prisão, a censura).
O uso das cobras também acentua a ironia visual de Ziraldo. Na natureza, um elefante esmagaria facilmente duas cobras. No entanto, na charge, o elefante está paralisado pelo medo. O veneno da ameaça (o decreto autoritário) confere às pequenas cobras um poder destrutivo desproporcional, capaz de subjugar o gigante inocente.
4º PASSO (contexto): o professor introduz o que foi o Ato AI-5 de 1968: a suspensão do habeas corpus, o fim das garantias constitucionais e a instauração do terror de Estado. Os alunos compreendem então a genialidade trágica de Millôr: sob um regime de exceção, a lógica é invertida e o cidadão perde o direito de defesa; não importa que você seja um “elefante” inocente, se o poder autoritário decidir que você é o alvo, caberá a você a tarefa impossível de provar o contrário às cegas.
Exemplo 2: “A Pomba da Paz”, de Jaguar
Nesta brilhante charge de 2017, o chargista Jaguar joga com a tradição artística e a intertextualidade para comentar as transformações da geopolítica global contemporânea.

“A pomba da paz”, charge de Jaguar, 2017.
Aplicação no roteiro:
1º – 2º PASSO (observação e textos): na comparação visual, os estudantes identificam duas realidades justapostas. À esquerda, a icônica e suave pomba da paz desenhada por Pablo Picasso em 1949, trazendo no bico o clássico ramo de oliveira, acompanhada da inscrição histórica “(DEPOIS DE HITLER)”.
À direita, Jaguar constrói o choque visual: a mesma ave surge completamente blindada por placas de metal rebitadas, com o bico transformado em um cano metálico que lembra uma arma, sob a inscrição atualizada: “2017. A POMBA BLINDADA (DEPOIS DE TRUMP, EI, PUTIN E KIM JONG-UN)”.
4º PASSO (contexto): o professor utiliza essa obra para trabalhar o conceito de intertextualidade e contexto moderno. Os alunos são instigados a pensar: por que a paz precisou se “blindar”? A discussão abre caminho para debater a fragilidade dos acordos diplomáticos contemporâneos, a ascensão de discursos nacionalistas e a sensação de ameaça constante sob a liderança de potências nucleares e do terrorismo internacional (representado pelo “EI” – Estado Islâmico).
Conclusão: estimulando a criatividade e o pensamento crítico
Uma das maneiras mais engajadoras de encerrar uma sequência didática focada em humor gráfico é incentivar a expressão autoral dos estudantes. Ao propor que criem suas próprias charges ou caricaturas a partir de um tema histórico estudado, o professor estimula a capacidade de síntese e consolida a autonomia intelectual da turma.
As charges são ferramentas de extraordinário valor para iniciar conversas profundas sobre alfabetização midiática, vieses, liberdade de expressão e a complexidade do discurso público. Ao ensinar os jovens a lerem as entrelinhas dessas fontes visuais, transformamos a sala de aula em um ambiente dinâmico, preparando os estudantes para serem consumidores de informação muito mais criteriosos, reflexivos e conscientes das narrativas que moldam o mundo ao seu redor.
Fonte
- SALIBA, Elias Thomé. Experiências e representações sociais: reflexões sobre o uso e o consumo das imagens. In O saber histórico na sala de aula, org. por Circe Bittencourt. São Paulo, Editora Contexto: 1997, pp.117-127. (5ª Edição em 2001).
- SILVA, Daniela Cardoso da. Humor e ensino: J. Carlos e a caricatura no ensino de História. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais, ano I, n. 1, julho 2009.
- LUSTOSA, Isabel. Brasil pelo método confuso: Humor e boemia em Mendes Fradique. Rio de Janeiro, Editora Bertrand Brasil: 1993.
- PINTO, Tales. Charge e história em sala de aula. Brasil Escola UOL.
- GOMES, Lucie. Ao debater a narrativa de um desenho satírico na história, deve-se encontrar uma solução? Recherches en éducation (REE), n.59, 2025.
Saiba mais
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Recursos didáticos de leitura crítica de charges
- Brasil Império: Charges do Segundo Reinado. Estudo de Documentos.
- Charges antiescravistas de Ângelo Agostini. Estudo de Documentos.
- República Oligárquica nas charges da Primeira República. Estudo de Documentos.
- Imperialismo dos Estados Unidos em 10 charges. Estudo de Documentos.
- França, 1789: análise de 6 caricaturas/charges. Estudo de Documentos.



