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Escolas cívico-militares: demandas populares, história e a ilusão da ordem

3 de julho de 2026

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O avanço das escolas cívico-militares no Brasil é um dos fenômenos mais complexos da educação contemporânea. Este artigo demonstra que, longe de ser um debate puramente ideológico, a expansão do modelo responde a demandas populares genuínas por ordem e segurança diante da falência de políticas civis. Contudo, para compreender as armadilhas pedagógicas desse processo, propõe-se um recuo histórico ao século XIX e às ditaduras do entreguerras, momentos em que a invenção do “aluno-soldado” serviu como ferramenta de controle social. Por fim, o trabalho confronta a propaganda gerencial com os dados estatísticos recentes, revelando que a lógica de caserna impõe uma exclusão excludente que condena a juventude periférica à obsolescência no século XXI.

 SUMÁRIO

  1. Muito além da ideologia: para entender a expansão das escolas cívico-militares
  2. A invenção do aluno-soldado: a militarização escolar no século XIX
  3. Infância fardada: a escola sob os regimes totalitários e autoritários
  4. O preço da obediência: por que a lógica de caserna não cabe na democracia
  5. A farsa da eficiência: o que os dados escondem sobre o modelo cívico-militar
  6. Glossário
  7. Fonte

1. Muito além da ideologia: para entender a expansão das escolas cívico-militares

O cenário educacional brasileiro atravessa uma de suas transformações mais profundas e polêmicas da história recente: a expansão vertiginosa das escolas cívico-militares. A criação do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (PECIM) pelo governo Bolsonaro, em 2019, foi o marco inicial do processo, implementando 216 escolas desse tipo em todos os 26 estados e o Distrito Federal, o que atendeu a cerca de 192 mil estudantes em todo território nacional.

O encerramento do PECIM pelo governo federal, em julho de 2023, por meio do Decreto 11.611/2023, longe de sepultar o modelo, funcionou como um catalisador para uma nova onda de hibridização estadual. Governadores de estados populosos e politicamente estratégicos, como São Paulo, Paraná e Minas Gerais, agiram rapidamente para estruturar legislações próprias. O resultado prático foi uma explosão na militarização da educação básica pública que, em 2026, registrou um salto impressionante de 595% com relação a 2019 no número dessas instituições, conforme dados do DEEP-USP, espalhando-se por centenas de municípios em todas as regiões do país.

Para compreender a força desse fenômeno, é preciso olhar além das disputas ideológicas de superfície e encarar uma realidade complexa: esse modelo desfruta de um amplo e sólido apoio de milhares de famílias da classe trabalhadora. Nas periferias das grandes metrópoles e em regiões marcadas pela vulnerabilidade social, a escola pública civil frequentemente reflete o abandono do Estado, sofrendo com o sucateamento estrutural, a falta de professores e as pressões da violência urbana e do tráfico de drogas. Nesse contexto de desamparo, a chegada da gestão compartilhada com militares — que assumem a administração, a segurança do pátio e o controle disciplinar — é enxergada pelos pais não como uma guinada autoritária, mas como um salva-vidas institucional.

O apoio popular fundamenta-se em demandas sociais genuínas. Famílias acuadas pelo medo buscam a garantia de que seus filhos entrarão e sairão da escola em segurança. Soma-se a isso a crescente desvalorização da figura do professor, cuja perda de autoridade e respeito perante a sociedade — e, por extensão, diante de pais e alunos — minou a capacidade de se estabelecer a disciplina em sala de aula, agravando o clima de caos e insegurança no meio escolar. Há, portanto, um desejo profundo pelo resgate de valores tradicionais de organização e respeito mútuo, vistos como ferramentas de proteção contra os perigos das ruas.

Além disso, a dotação de recursos financeiros diferenciados que costuma acompanhar essas escolas, traduzida em prédios reformados e na entrega de uniformes padronizados completos, gera um forte sentimento de dignidade e orgulho comunitário. Para as famílias, a farda surge como uma promessa de ascensão social e de ordem em meio ao caos.

O paradoxo contemporâneo reside justamente aí: o apelo à lógica militar nas salas de aula brasileiras não nasce do vácuo, mas sim da falência das políticas públicas civis em garantir segurança e qualidade nas franjas mais vulneráveis da sociedade.

2. A invenção do aluno-soldado: a militarização escolar no século XIX

Para compreender as armadilhas pedagógicas do presente, é fundamental desmistificar a ideia de que a fusão entre o ambiente escolar e a cartilha militar seja uma invenção recente. Essa engrenagem foi forjada no fervilhante século XIX, sob o impacto do imperialismo e do nacionalismo exacerbado que preparavam as potências europeias para o conflito global.

O trauma da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), que culminou com a humilhante derrota da França e a perda do território da Alsácia-Lorena para o recém-unificado Império Alemão, transformou a educação em uma extensão do campo de batalha. Consolidou-se na época a tese de que “o professor prussiano vencera a guerra”, sugerindo que a disciplina cega e a submissão das escolas alemãs haviam garantido a superioridade militar.

Em resposta, a Terceira República Francesa instituiu por decreto, em 1882, os Bataillons Scolaires (Batalhões Escolares), introduzindo fuzis de instrução, marchas e uniformes militares na rotina de meninos a partir dos 12 anos de idade nas escolas públicas primárias.

“La Tache Noire” (A mancha negra) ou “Lição de Geografia”, de Albert Bettannier, óleo sobre tela, 121 x 150 cm. Museu de História Alemã, Berlim. 1887.

O espírito desse revanchismo pedagógico foi representado na pintura La Tache Noire (“A Mancha Negra” ou “A Lição de Geografia”), do artista francês Albert Bettannier, pintada em 1887. A obra captura de forma cirúrgica uma sala de aula civil transformada em posto avançado de propaganda de Estado. Nela, um professor vestido de luto aponta com uma régua para o mapa da França, focando na região anexada da Alsácia-Lorena — a mancha escura que dá título à tela.

Ao seu lado, um estudante de prontidão veste o uniforme completo dos Bataillons Scolaires, enquanto, no canto inferior esquerdo da composição, fuzis de verdade repousam em um suporte de armas integrado ao mobiliário escolar.

Cada detalhe milimetricamente desenhado por Bettannier — do tambor militar no chão aos estudantes condecorados — revela como o medo do inimigo externo e o desejo de vingança foram usados para justificar o adestramento físico e psicológico da infância. Aquelas salas de aula não formavam cidadãos para o livre pensamento, mas sim soldados moldados para carregar um ressentimento geográfico até o inevitável sacrifício que viria a ser a Primeira Guerra Mundial.

Alunos da escola militar britânica Duke of York’s School posam perfilados com fuzis e o uniforme oficial da Infantaria Britânica, na década de 1890. A militarização da juventude e a pedagogia do quartel não eram exclusividades do revanchismo francês, mas sim um fenômeno sistêmico que ganhava força em diferentes potências imperialistas europeias no final do século XIX.

3. Infância fardada: a escola sob os regimes totalitários e autoritários

Se o século XIX gestou a aproximação entre as salas de aula e os campos de instrução, as ditaduras europeias do entreguerras industrializaram e radicalizaram esse processo, elevando a militarização da juventude ao seu auge técnico e institucional.

No totalitarismo expansionista de Benito Mussolini (gov. 1922-1943) na Itália, e de Adolf Hitler (gov. 1933-1945) na Alemanha, o Estado sequestrou integralmente o papel educativo das famílias. Através de organizações de massa oficiais — como a Opera Nazionale Balilla (1926) e a Hitlerjugend (1936) —, as crianças foram rigidamente divididas por faixas etárias e submetidas a uma rotina de marchas, acampamentos e manejo de armas.

O currículo científico e humanista das escolas regulares foi sistematicamente esvaziado em benefício do condicionamento físico agressivo e da propaganda ideológica. O propósito final era a masculinização violenta de meninos e a preparação de meninas para a maternidade patriótica, transformando a infância em uma reserva técnica de fanáticos.

O desfecho dessa engenharia social foi trágico: gerações inteiras de adolescentes doutrinados foram jogadas sem treinamento adulto completo nas frentes mais brutais da Segunda Guerra Mundial, sendo consumidos como bucha de canhão nas estepes russas ou radicalizados em milícias civis durante o colapso final dos regimes.

À esquerda, meninos com o uniforme da Opera Nazionale Balilla, Itália, 1936. À direita, concessão da Cruz de Ferro de 2ª Classe a Willi Hübner, membro da Juventude Hitlerista (Hitlerjugend) de 16 anos, Alemanha, março de 1945.

Simultaneamente, o modelo de militarização juvenil serviu a propósitos complementares nas ditaduras de matriz autoritária e católica da Península Ibérica. Em Portugal, a Mocidade Portuguesa (1936), instituída pelo regime do Estado Novo de António de Oliveira Salazar, tornou-se obrigatória para estudantes dos ensinos primário e secundário. Na Espanha vizinha, a ditadura do general Francisco Franco operou lógica semelhante através da Frente de Juventudes (1940), controlada pelo partido único.

Diferente do nazifascismo, que visava a expansão territorial agressiva, o salazarismo e o franquismo fundiram a estética militar e a disciplina dos quepes com o tradicionalismo religioso conservador. Nesses países, o fardamento e a submissão à hierarquia não buscavam fabricar soldados para a invasão estrangeira, mas sim produzir o “súdito ideal”: cidadãos politicamente passivos, moralmente vigiados e incapazes de contestar o status quo.

Cartazes de propaganda do fascismo ibérico. À esquerda, pôster da Frente de Juventudes da Falange Espanhola (c. 1940) exalta a saúde física e o fardamento a serviço da pátria franquista sob o lema “Uma juventude forte e sã para a pátria”. À direita, a cartilha escolar portuguesa “A Lição de Salazar” (1938) ilustra o enquadramento moral e tradicionalista do Estado Novo, estruturado sob a trilogia “Deus, Pátria, Família” como pilares da educação nacional.

Essa mesma engenharia de controle atravessou o Atlântico e encontrou eco no Brasil de Getúlio Vargas (1930-1945). Sob o manto do Estado Novo brasileiro (1937-1945), o regime promoveu uma severa centralização educacional, utilizando a padronização dos currículos escolares como ferramenta de propaganda nacionalista. O modelo varguista alinhou a educação física e a disciplina cívica à necessidade de moldar uma força de trabalho técnica e ordeira para a rápida industrialização do país, espelhando o desejo ibérico de conter dissidências políticas por meio do enquadramento moral da juventude.

Cenário semelhante desenhou-se na Argentina sob o primeiro governo de Juan Domingo Perón (1946-1955). O peronismo operou uma profunda estetização militarizada do ambiente escolar, onde a exaltação patriótica, o culto à personalidade dos líderes e a introdução de manuais didáticos oficiais obrigatórios transformaram a infância em base de sustentação política do regime. A rotina escolar portenha foi impregnada de rituais de teor cívico-militar, desfiles e organizações juvenis que visavam homogeneizar a sociedade e incutir nos estudantes uma lealdade incondicional ao projeto de Estado.

Fosse para a guerra externa ou para a pacificação interna, o auge da militarização escolar no século XX provou que a pedagogia de caserna funciona, essencialmente, como uma ferramenta de controle social e eliminação da autonomia individual.

Cartilhas escolares e o uso do afeto como ferramenta de Estado autoritário. À esquerda, manual didático argentino estabelece um paralelo emocional direto entre o amor familiar e a devoção política (“Mamãe e papai me amam. Perón e Evita nos amam”). À direita, retrata Getúlio Vargas em um gesto paternal de afeto com crianças de uniforme cívico. Em ambos os regimes, a afetividade e a figura do líder protetor foram instrumentalizadas para humanizar o adestramento cívico e moldar a lealdade das futuras gerações desde a primeira infância.

4. O preço da obediência: por que a lógica de caserna não cabe na democracia

O recuo histórico aos séculos XIX e XX oferece uma lição cristalina que a pedagogia contemporânea não pode ignorar: a lógica de caserna e o ambiente escolar civil possuem naturezas inconciliáveis.

O desfecho dos regimes autoritários e totalitários do entreguerras evidenciou o terrível choque de realidade do pós-guerra: a gloriosa “pátria imperial” prometida nos manuais escolares e desfiles juvenis deixou nações moral e materialmente em ruínas. Seguiu-se a isso uma dolorosa e lenta ressaca ideológica.

Na Itália, o Estado democrático precisou articular uma complexa desprogramação cultural para remover o culto à violência institucionalizado nas crianças desde os seis anos de idade. Na Alemanha ocupada, os Aliados fecharam temporariamente as escolas, destruíram milhões de livros didáticos contaminados pela propaganda do Terceiro Reich e baniram professores alinhados à pedagogia do quartel. Essa “reeducação” forçada provou que sociedades livres não sobrevivem onde a infância é ensinada a marchar de olhos fechados

Enquanto uma democracia saudável exige uma escola voltada para a autonomia e para o pluralismo de ideias, o modelo militar prioriza a padronização e a submissão estrita.

À esquerda, crianças italianas com o uniforme da Opera Nazionale Balilla, em 1936, manuseiam fuzis de instrução como parte da rotina escolar de adestramento técnico para o combate. À direita, o colapso material do modelo: adolescentes remexem os escombros de cidade alemã bombardeada ao fim da Segunda Guerra Mundial. O trágico paradoxo da pedagogia de caserna: o manuseio precoce de armas em sala de aula culminou na destruição física de suas próprias nações e no sacrifício de suas infâncias.

Essa dinâmica de controle encontra respaldo teórico perfeito na obra do pensador francês Michel Foucault, especificamente em seu clássico Vigiar e Punir. Foucault demonstra como instituições como prisões, hospitais e quartéis utilizam a disciplina minuciosa para fabricar “corpos dóceis” — indivíduos cujos movimentos, tempos e estéticas são rigidamente regulados para anular a individualidade. Nas escolas militarizadas, a obsessão pelo corte de cabelo padronizado, o alinhamento dos uniformes, as punições por “postura inadequada” e as formaturas diárias são a expressão prática desse adestramento biopolítico. Substitui-se o desenvolvimento cognitivo pela obediência estética.

Essa formatação de corpos e mentes atenta diretamente contra o projeto histórico da educação brasileira. O educador Anísio Teixeira já defendia que a escola pública deve funcionar como o laboratório da própria democracia, um espaço onde o aluno aprende a ser cidadão livre através do convívio com a diversidade, com o debate científico e com o livre pensamento. Da mesma forma, Paulo Freire alertava para os perigos da “educação bancária”, modelo em que os estudantes são tratados como recipientes passivos para o depósito de conteúdos e ordens, sem espaço para a contestação ou para o diálogo crítico.

Quando a escola civil abdica de sua função emancipatória para adotar a hierarquia militar, ela comete um erro de diagnóstico severo: confunde ordem externa com aprendizado real. O passado ensina que delegar a disciplina à autoridade do coturno pode resolver sintomas imediatos de indisciplina, mas cobra um preço social inaceitável a longo prazo, sufocando o pensamento crítico e moldando súditos incapazes de exercer a cidadania em uma sociedade livre.

Diante desse cenário, impõe-se a pergunta fundamental: a quem, afinal, serve a escola cívico-militar? O mundo contemporâneo — hiperconectado, heterogêneo e em constante mutação tecnológica — exige indivíduos com habilidades cognitivas e socioemocionais refinadas. O mercado de trabalho do século XXI e as grandes decisões sociais demandam sujeitos capazes de lidar com a complexidade, de cooperar na diversidade, de inovar e de solucionar problemas inéditos por meio da criatividade e do pensamento crítico. [1]

Nesse contexto, qual é a relevância de um estudante treinado para a obediência passiva, moldado por uma disciplina externa e submetido a uma educação padronizada e homogênea?

A resposta histórica e econômica é incômoda: a escola cívico-militar não serve ao desenvolvimento pleno do potencial humano do estudante, mas sim a um projeto de estratificação social. Ao focar no adestramento de corpos e no cumprimento cego de ordens, esse modelo prepara os jovens das periferias para postos de trabalho de baixa qualificação, baseados na subordinação e na execução mecânica de tarefas — funções que, ironicamente, são as primeiras a serem extintas pela automação e pela inteligência artificial.

Enquanto as elites econômicas matriculam seus filhos em escolas civis privadas orientadas para a liderança, o bilinguismo, a autonomia e a inovação tecnológica, reserva-se aos filhos da classe trabalhadora pública o silenciamento do pátio fardado. Perpetua-se, assim, uma divisão de classes colonial: o topo da pirâmide social pensa e cria; a base, disciplinada no quartel escolar, apenas obedece e executa.

5. A farsa da eficiência: o que os dados escondem sobre o modelo cívico-militar

Se a filosofia e a história acendem o alerta sobre os perigos da perda da autonomia pedagógica, os dados estatísticos recentes do cenário brasileiro jogam por terra o mito da eficiência gerencial do modelo cívico-militar. De acordo com uma Nota Técnica divulgada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Direito à Educação, Economia e Políticas Educacionais (DEEP-USP), o Brasil experimentou uma expansão sem precedentes nesse setor: o país saltou de 48 instituições militarizadas em 2014 para impressionantes 1.578 escolas de educação básica operando sob essa lógica. Esse avanço representa um crescimento de 595% e já alcança 862 municípios em todo o território nacional.

O dado mais alarmante desse relatório, contudo, aponta para um grave problema democrático: existem cerca de 60 municípios no país onde 100% das vagas de matrícula da rede pública foram militarizadas. Nessas localidades, o argumento do “direito de escolha das famílias” deixa de existir, forçando pais e alunos da periferia a se submeterem à cartilha de caserna por pura falta de alternativa civil plural.

Para além do gigantismo dos números, as análises microeconômicas sobre o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) desmistificam o suposto milagre da aprendizagem fardada. Estudos econométricos recentes que isolaram as variáveis socioeconômicas demonstraram que a militarização não gera impacto estatisticamente significativo no desempenho escolar dos anos finais do Ensino Fundamental. Pior: em redes estaduais que mantiveram programas próprios, o modelo cívico-militar registrou um impacto negativo médio de até 8% no desempenho do Ensino Médio quando comparado a escolas civis tradicionais com o mesmo perfil de alunos.

Essa disparidade entre a propaganda oficial e a realidade dos índices revela um cruel “efeito de seleção”. Investigações sobre grandes redes estaduais evidenciaram que a aparente elevação das notas de escolas militarizadas ocorre, frequentemente, por meio da exclusão em massa de alunos com distorção idade-série, histórico de reprovação ou problemas disciplinares severos.

Ao transferir ou empurrar os estudantes mais vulneráveis para fora de seus muros, essas instituições realizam uma verdadeira faxina estatística, inflando as médias gerais sem de fato melhorar o aprendizado individual. Financiado por um custo substancialmente mais alto por aluno — direcionado para custear bônus a militares da reserva —, o modelo cívico-militar brasileiro contemporâneo entrega uma falsa sensação de ordem que mascara a exclusão e cobra o preço do futuro democrático do país na ponta do giz.

O paradoxo mais cruel dessa engenharia pedagógica revela-se ao projetarmos o futuro dessa juventude diante da revolução tecnológica em curso. Nos séculos XIX e XX, os Estados industrializavam a obediência nas escolas porque necessitavam de contingentes massivos de corpos padronizados para operar as linhas de montagem das fábricas e preencher as fileiras de infantaria nas trincheiras das guerras totais. Havia uma utilidade econômica e militar para o sujeito engessado.

No século XXI, contudo, essa premissa faliu. A automação, a inteligência artificial e a robótica avançada eliminam em ritmo acelerado os postos de trabalho baseados na repetição e na subordinação mecânica. Até mesmo o tradicional campo bélico-militar passa por uma mutação radical, onde drones autônomos, algoritmos de defesa e inteligência tática descentralizada reduzem drasticamente a dependência de grandes massas de soldados de infantaria no front.

A pergunta que resta, portanto, é aterrorizante: o que será feito dessa base disciplinada para apenas obedecer e executar quando a sua força de trabalho e o seu corpo fardado não forem mais necessários?

Ao formatar estudantes periféricos sob uma lógica de exclusão intelectual e homogeneização comportamental, o modelo cívico-militar brasileiro não os está preparando para o mercado do futuro, mas sim produzindo o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamaria de “refugos humanos” ou o historiador Yuval Noah Harari define como a “classe dos inúteis” — indivíduos que não são apenas explorados pela engrenagem econômica, mas que se tornaram economicamente irrelevantes para ela.

O destino trágico dessa massa de jovens, destituídos do pensamento crítico necessário para se reinventarem em um mundo complexo, não será a caserna ou o emprego industrial estável que seus pais idealizaram. O destino provável será o confinamento nas franjas da informalidade precarizada (como os exércitos de entregadores de aplicativos guiados por algoritmos), o encarceramento em massa ou a contenção violenta por parte do próprio Estado.

Ao final, a história e a estatística revelam que a escola cívico-militar brasileira entrega uma resposta do século XIX para uma crise do século XXI, condenando a juventude mais vulnerável à obsolescência programada e fraturando, de forma consciente, o horizonte democrático do país.

Glossário

  • Desnazificação: Conjunto de políticas e esforços coordenados pelos Aliados no pós-Segunda Guerra Mundial para erradicar a ideologia nacional-socialista da cultura, do judiciário, da política e da educação da Alemanha e da Áustria.
  • Entreguerras: Intervalo de tempo histórico compreendido entre o término da Primeira Guerra Mundial (1918) e o início da Segunda Guerra Mundial (1939), marcado por crises econômicas severas e pela ascensão de regimes autoritários na Europa.
  • Escola cívico-militar: Modelo contemporâneo de instituição pública de ensino em que a gestão pedagógica e curricular permanece sob a responsabilidade de profissionais civis da educação, enquanto a administração interna, a vigilância e a disciplina de pátio são delegadas a militares (geralmente da reserva).
  • Fascismo: Regime político de extrema-direita fundado por Benito Mussolini na Itália, baseado no ultranacionalismo corporativista, na supressão de oposições, no culto ao líder e no controle estatal sobre a vida pública e privada.
  • Franquismo: Ditadura nacionalista, autoritária e católica liderada pelo general Francisco Franco na Espanha entre 1939 e 1975, caracterizada pelo enquadramento social conservador, repressão política violenta e preservação das estruturas econômicas tradicionais.
  • Hitlerjugend (Juventude Hitlerista): Organização paramilitar obrigatória de massa instituída pelo regime nazista na Alemanha para doutrinar e enquadrar fisicamente crianças e adolescentes a partir dos 10 anos de idade, preparando-os para o front e para a submissão total ao Estado.
  • Nazismo (Nacional-Socialismo): Variante radical alemã do fascismo liderada por Adolf Hitler entre 1933 e 1945, estruturada com base no racismo pseudocientífico, no antissemitismo sistemático, no anticomunismo e na busca pela expansão territorial violenta.
  • Opera Nazionale Balilla (ONB): Organização oficial de juventude instituída pelo governo fascista de Mussolini na Itália, encarregada da assistência moral e física e do adestramento militar preliminar de crianças e jovens de ambos os sexos entre os 6 e os 18 anos de idade.
  • PECIM (Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares): Iniciativa instituída pelo governo federal brasileiro em 2019 para apoiar a implementação desse formato híbrido de gestão escolar e formalmente encerrada pelo Ministério da Educação (MEC) em julho de 2023.
  • Salazarismo: Ditadura de caráter corporativista, autoritária e marcadamente católica que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974 sob a liderança de António de Oliveira Salazar, focada na estabilização financeira e no enquadramento passivo da sociedade.
  • Totalitarismo: Forma de governo concentrada onde o Estado não reconhece limites à sua autoridade perante o cidadão e busca regular e controlar todos os aspectos da vida pública e privada por meio da propaganda massiva, do terror de Estado e do esvaziamento das esferas individuais.

Fonte

  • BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
  • CONSTANT, Elaine; MARTINIAK, Vera Lúcia. A “democracia social” de Anísio Teixiera e a educação brasileira. Sant’Ana em Revista, Ponta Grossa, v. 9, p. 156 – 176, 2, 1. Sem. 2025.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
  • GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM DIREITO À EDUCAÇÃO, ECONOMIA E POLÍTICAS EDUCACIONAIS (GEPED/DEEP-USP). Nota Técnica: A expansão das escolas militarizadas no Brasil (2014-2024). Ribeirão Preto: USP, 2024.
  • HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. Trad. Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
  • LOUREIRO, Robson. Educar, elaborar o passado, desnazificar: memória histórica e neonazifascismo no início do século XXI. Educação e Filosofia, v.33, n.69 set/dez2019.
  • SANTOS, Catarina de Almeida; LACÉ, Andréia Mello; NOGUEIRA, Danielle X. Pamplona. Entre escola e o quartel: a  negação do direito à educação. Revista Brasileira de Política e Administração da Educação, v.35, n.3, Goiânia, maio/ago 2019.
  • SANTOS, Catarina de Almeida; ALVES, Míriam Fábia. Militarizar e encarcerar a Educação Básica para um projeto de nação. Educere et Educare. Revista de Educação. V.18, n.47, 2023.

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