“Terror e misérias no Terceiro Reich”: o nazismo no teatro de Brecht

25 de março de 2021

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Em 1933, Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha. Suprimiu as liberdades e as instituições democráticas e instaurou uma ditadura ainda mais violenta que o fascismo da Itália, instalado havia onze anos. O Estado passou a controlar toda a nação e impôs sua presença policial-militar nos meios de comunicação, na economia, no trabalho, nas artes, na educação. Interferiu até no convívio familiar como mostra uma cena da peça Terror e misérias no III Reich, de Bertolt Brecht, em que um professor de História sente a opressão do nazismo na escola e na vida doméstica.

(No final do artigo, texto da peça para download.)

Bertolt Brecht, o autor

Bertolt Brecht

Bertolt Brecht em entrevista, 1947.

Desde a década de 1920, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) já era conhecido por seu teatro renovador e marxista com peças como O Casamento do Pequeno BurguêsTambores na Noite e A Ópera dos Três Vinténs. Com a eleição de Hitler, Brecht saiu da Alemanha exilando-se primeiro na Áustria, depois Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, Rússia e, finalmente nos Estados Unidos.

No exílio recebia notícias do que acontecia na Alemanha por meio de jornais, rádio ou informações passadas pela resistência alemã. O material coletado inspirou-lhe escrever, entre 1935 e 1938, Terror e Misérias no III Reich, quando Brecht vivia na Dinamarca.

Seus textos e montagens tornaram-no conhecido mundialmente. Brecht é um dos escritores fundamentais deste século: revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia e da encenação, mudou completamente a função e o sentido social do teatro, usando-o como arma de consciencialização e politização.

A intenção de Brecht é simples e direta: provocar o espectador para refletir e transformar a realidade.

Terror e misérias no  III Reich: um painel do nazismo

Terror e misérias no III Reich apresenta um painel da repressão e do terror nazista em 35 cenas curtas que denunciam os efeitos desse regime no cotidiano do povo alemão. São cenas de julgamentos, da vida de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas e da vida escolar da juventude hitlerista onde se percebe, em cada diálogo, o medo de uma sociedade sufocada pelo nazismo de Hitler.

As cenas são aparentemente desconexas e independentes, mas cada uma delas mostra uma faceta do nazismo. Foi encenada pela primeira vez em Paris, em 1938. Em seguida em Londres, Estocolmo e Nova York.

O trecho que selecionamos, “O espião” (cena X) abre-se com o narrador alertando para a inversão de papéis na sociedade nazista: o aluno ensina o professor a se alinhar às normas do regime, o filho denuncia o próprio pai. Cada criança é um espião em potencial.

Ei-los: os Senhores Professores estão aprendendo a marchar. O nazistinha puxa-lhes as orelhas e lhes ensina a posição de sentido. Cada aluno um espião. Não precisam saber nada do mundo ou do universo. Mas é interessante informar: o que, de quem e quando. Aí vêm as criancinhas. Elas buscam o carrasco e o trazem para casa. Delatam o próprio pai, chamam-no de traidor. E ficam olhando, quando levam o velho de mãos e pés algemados. (BRECHT, 1978)

Inicia-se a cena onde estão pai, mãe, filho e a empregada servindo o café. O casal discute sobre política e o marido faz críticas ao regime insinuando que nele existe corrupção. Dão-se conta, então, que o filho não está mais presente na sala e se apavoram com a possibilidade do garoto denunciá-los.

“MULHER – E se ele for contar? Sabe o que ensinam aos garotos na Juventude Hitlerista? Eles são abertamente estimulados a contar tudo o que ouvem em casa. Não deixa de ser estranho ele ter saio daqui tão de mansinho”. (BRECHT, 1978)

A demora do garoto em aparecer faz aumentar o medo do casal. Eles se lembram do Fiscal de Quarteirão, um agente nazista, a quem os vizinhos adulam com presentes para não serem ameaçados. A empregada é filha do Fiscal e ela também pode denunciá-los.

O telefone toca e eles têm medo de atender. Desesperam-se e correm pela casa para buscar objetos que os identifique como seguidores do nazismo: condecorações militares, retrato de Hitler, etc.

Neste momento a mulher pergunta ao marido se não havia nada contra ele no colégio. É quando sabemos que se trata de um professor de História obrigado a ensinar a História Alemã segundo a versão nazista.

O casal escuta passos na escada e batidas na porta. O desespero transforma-se em pavor. É a cena final, cujo clímax nos deixa perplexos e nos incita a refletir sobre os horrores de um regime não democrático que suprime a liberdade de pensamento e expressão, condena a pluralidade de ideias e enquadra a população nos mesmos pensamentos e interesses impostos pelo Estado.

O nazismo no teatro de Brecht

“Terror e miséria no 3º Reich”, por alunos da Escola Yllana de Teatro, Espanha, 2014.

Trabalhando o texto em classe

A cena X – “O espião” – passa-se em um mesmo cenário, uma sala de estar onde circulam 4 personagens: mulher, marido, filho e empregada. A trama central se limita ao casal.

Os diálogos estão repletos de insinuações sobre os horrores do regime nazista para a população. Importante lembrar que a peça foi escrita antes da guerra e, portanto, sem o impacto do que ainda estaria para acontecer. Destaque aos alunos que, nesta cena, os personagens que sofrem o jugo nazista são alemães, e não judeus ou outra categoria perseguida pelo nazismo. (A peça aborda a questão judaica em outras cenas.) Isso permite refletir os efeitos nefastos da ditadura totalitária sobre a população em geral e não somente sobre aqueles considerados inimigos.

Para liberar o download da cena X, preencha os campos abaixo.

Primeira leitura do texto: identificar e interpretar

Para uma primeira abordagem do texto, especialmente com turmas que ainda não estudaram o nazismo, sugerimos as questões abaixo. Elas permitem verifica se o aluno compreendeu a narrativa e servem de aquecimento para a discussão a seguir.

  1. Por que o pai estava tão irritado?
  2. Por que o casal ficou assustado com a saída do filho?
  3. A qual grupo pertencia o menino?
  4. A que ideologia se refere a frase: “O garoto é muito nacional-socialista”?
  5. Qual a intenção da mãe em dar dinheiro para o filho comprar “alguma coisa”, logo no início da cena?
  6. Por que o casal se preocupou em deixar visível a cruz de ferro e o retrato de Adolf Hitler?
  7. Por que o homem sugere dar mais 10 marcos para a empregada?
  8. Que elementos na peça indicam que havia censura na Alemanha nazista?
  9. O que o título da cena, “O espião”, sugere sobre a vida das famílias alemães sob o regime nazista?
  10. O que você sabe a respeito do nazismo?

RESPOSTAS

  1. Porque não aceitava a situação política do momento, sem liberdade para falar o que pensava.
  2. Ficaram com medo que o filho pudesse denunciá-los como adversários do regime nazista.
  3. Juventude Hitlerista.
  4. Nacional-socialista refere-se ao nazismo. [*O nome completo do partido era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, abreviado como Partido Nazista. Importante destacar que o termo “socialista” não tem, aqui, nenhuma referência ao socialismo, até porque o nazismo era feroz adversário do comunismo e do socialismo. O uso do termo “socialista” pelo nazismo deve ser entendido vinculado do conceito “nacional” que o precede. O nazismo caracteriza-se pelo ultranacionalismo que submete o indivíduo ao Estado, sendo, portanto, antiliberal e antidemocrático.]
  5. Possivelmente para agradar o filho para que ele não ficasse com raiva do pai e o denunciasse.
  6. Caso aparecessem policiais nazistas na casa, veriam os símbolos nazistas expostos o que poderia atenuar uma acusação contra o casal.
  7. Para suborná-la e ela não contar nada do que ouve dentro da casa.
  8. O medo do casal em ser denunciado pelo filho e pela empregada; os jornais que trazem a mesma notícia; a educação dos jovens ensinados a servir ao Estado e a denunciar a família; o ensino escolar que devia seguir as regras ditadas pelo regime.
  9. Sugere que, em cada lar, havia ou poderia haver alguém, jovem ou adulto, treinado para denunciar a família.
  10. Resposta livre para sondar os conhecimentos prévios dos alunos.

Segunda leitura do texto: analisar e contextualizar

  1. A fala do narrador (prefácio do texto) traz uma crítica irônica referindo-se aos estudantes: “Não precisam saber nada do mundo ou do universo. Mas é interessante informar: o que, de quem e quando”. O que isso significa? A quem interessaria um ensino no qual os estudantes pouco aprendessem? O ensino de História deve-se limitar a informar “o que, de quem e quando”? Justifique.
  2. Os jornais trazem o mesmo noticiário – quem fornece as notícias?
  3. O homem diz: “Estou pronto a ensinar tudo o que eles quiserem que eu ensine.”  Quem decide sobre a educação dos alunos?
  4. Explique a última frase do texto: “Será que ele está dizendo a verdade?”. Que sentimentos e emoções o casal estaria sentindo?
  5. Refletindo sobre as respostas às questões acima, por que o nazismo é considerado um totalitarismo?
  6. Essa peça de teatro pode ser considerada uma fonte histórica? Justifique.

RESPOSTAS

  1. O ensino no totalitarismo nazista é voltado para o culto à pátria e ao líder. Para esse regime, não interessa uma educação que estimule o pensamento crítico, livre e reflexivo mas sim um pensamento único e padronizado. O ensino de História objetiva formar cidadãos com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  2. No regime nazista não há liberdade de impressa, os meios de comunicação são censurados e. portanto, o jornal que o garoto lê está submetido à ideologia do regime. [*Na Alemanha nazista (1933-1945) assim como na Itália fascista (1922-1945), os meios de comunicação como a imprensa, o cinema e, especialmente, o rádio foram peça chave para a cooptação das massas em torno de seus líderes (Hitler e Mussolini) e na sua demonização dos adversários como os judeus, os comunistas etc. No caso específico da propaganda nazista, essa foi habilmente controlada por Joseph Goebbels (1897-1945), ministro da propaganda de Hitler. Goebbels ficou conhecido pela frase “uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”, que sintetiza a estratégia da propaganda nazista.]
  3. No totalitarismo, não há liberdade de ensino. A educação das crianças e jovens, o currículo escolar e os livros didáticos devem seguir as normas estabelecidas do regime de exaltar as ideias ultranacionalistas e o culto ao líder político. No caso do nazismo, inclui-se no ensino o antissemitismo, o anticomunismo, o antiliberalismo.
  4. O nazismo penetrou na vida familiar criando um ambiente de medo, desconfiança e delação.
  5. Chama-se totalitarismo os regimes ditatoriais em que o Estado controla todos os aspectos da vida nacional: economia, educação, segurança, meios de comunicação, artes, cultura, as relações sociais e até familiares etc.
  6. Sim, é uma fonte histórica pois foi produzida durante os anos de vigência do nazismo e a partir de notícias coletadas em jornais, rádio ou por meio de informantes sobre o que acontecia na Alemanha naqueles anos.

Para saber mais

Fonte

  • BRECHT, Bertolt. Terror e misérias no III Reich. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 70-83.
  • HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

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