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Caricaturas do Segundo Reinado: crítica com humor e ironia

1 de junho de 2020

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O aumento da circulação de jornais e panfletos a partir de 1808 contribuiu para a difusão das caricaturas e charges. Com o aperfeiçoamento tecnológico das oficinas gráficas, na segunda metade do século XIX, os desenhos humorísticos estiveram ainda mais presentes na imprensa brasileira. Eles ocupavam, em geral, o rodapé ou as margens dos jornais. O aparecimento das revistas humorísticas, a partir de 1860, deram destaque às charges que passaram a ocupar a capa dessas publicações.

O que é caricatura e charge

A palavra caricatura deriva do latim caricature, que significa “carregar com exagero”. Trata-se de uma forma de arte expressa basicamente através do desenho de humor. Por meio de traços físicos exagerados e de cenas cômicas ou ridículas, a caricatura satiriza tipos sociais e situações políticas ou do cotidiano. Assim, o caricaturista é ao mesmo tempo um humorista e um crítico.

O termo confunde-se com charge, do francês, significando “carga”, referência ao exagero dado aos traços fisionômicos de alguém. Segundo alguns especialistas, a charge é uma forma de caricatura que satiriza ou critica um acontecimento ou pessoa pública (um político ou um artista, por exemplo).

Caricaturistas brasileiros, século XIX

No século XIX, dois nomes se destacaram como caricaturistas no Brasil: Agostini e Faria.

O ítalo-brasileiro Ângelo Agostini (1843-1910) é considerado um dos mais importantes chargistas brasileiros. Começou a trabalhar em São Paulo onde fundou as revistas Diabo coxo e Cabrião. Mudou-se depois para o Rio de Janeiro onde fundou e manteve, de 1876 a 1891, a Revista Illustrada.

O sergipano Cândido Aragonez de Faria (1849-1911), que assinava seus trabalhos como Faria, foi outro grande caricaturista. Em 1869, fundou o jornal O Mosquito (1869), no Rio de Janeiro, onde publicou suas charges. Colaborou com diversos jornais satíricos no Brasil e na Argentina, até se mudar definitivamente para Paris, em 1882. Além destes, outros nomes da caricatura da época são: Pinheiro Guimarães, Aurélio de Figueiredo, Antônio Augusto do Vale e Pedro Américo.

Os caricaturistas faziam seus desenhos a lápis e a bico de pena que, mergulhado na tinta nanquim, permitia fazer traços finos e grossos dando volume ao desenho.

Leitura crítica da caricatura

Como toda análise iconográfica, a leitura da caricatura deve começar pela contextualização da imagem: identificar a data, discutir o momento em que foi produzida e para quem foi destinada. O nome do jornal ou da revista onde a caricatura foi publicada indica o tipo de publicação, se estava ligada à oposição ou ao governo.

Em seguida, partir para a interpretação de seus sentidos observando seus detalhes e os textos que a acompanham (título, legendas, diálogos etc.). Alguns elementos serviam para identificar as figuras: cartola e casaca para os ministros, coroa para o rei, barrete frígio para os liberais, figura do índio simbolizando o país etc. Interessante observar, também, elementos típicos da época como a ortografia, expressões e gírias, nomes da moeda (mil-réis, pataca etc).

Alguns cuidados precisam ser tomados na apreciação das charges. Como bem coloca o professor Marcelo da Silva Araújo:

O primeiro cuidado é que, por vezes, ela porta uma ideologia implícita com o objetivo de convencer e influenciar. Cabe ao professor saber estimular a autonomia do aluno, dando-lhe liberdade na realização de seu trabalho, mas orientando a formação de sua opinião. (…)

 

O segundo cuidado é controlar um hábito comum entre os alunos: a tendência prévia de criticar. No exemplo do “Parlamentarismo às avessas”, é preciso que o professor explique que estratégias políticas de alinhamento ou conciliação não resultam unicamente da vontade de quem governa, mas sim do exercício conjuntural da política e do poder, frequentemente envolvendo muito mais agentes do que aqueles que aparecem na cena principal. Assim, o professor chama a atenção para o que está além do representado na charge, potencializando a capacidade analítica do aluno. (Araújo, 2013).

Charges: análise em áudio

As quatro charges abaixo foram publicadas em jornais da segunda metade do século XIX. Por meio de ironia e humor, elas criticam o parlamentarismo e o sistema partidário e eleitoral do Segundo Reinado.

Elas estão acompanhadas de uma descrição em áudio e texto que auxiliam na sua interpretação e análise.

1. Charge “Bazar eleitoral”, Agostini, 1867

“Bazar eleitoral”, charge de Ângelo Agostini, "O Cabrião", 1867.

“Bazar eleitoral”, charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867.

Clique para ouvir a descrição da charge “Bazar Eleitoral”

TRANSCRIÇÃO

  • Na loja improvisada, vendem-se cédulas eleitorais (votos), porretes, revolveres, espadas e rifles. Para os compradores interessados, o cartaz informa que, neste “bazar eleitoral”, “não se fia”, isto é, não há crédito.
  • As armas à venda na charge, mostram o clima de violência das eleições da época do segundo reinado, confirmada pela frase “não se fia”, isto é, o processo eleitoral não é confiável. Havia roubos de urnas, falsificação de votos e espancamentos de eleitores como ocorreu no célebre episódio das “eleições do cacete”, em 1840.
  • A charge demonstra também a prática da compra de votos comum neste período do segundo reinado. Note as caixas de cédulas com seus respectivos preços e destinatários, inclusive para votos em branco.  De acordo com a Constituição de 1824, as eleições eram indiretas e o voto era censitário e masculino

2. Charge “Carrossel partidário”, Faria, 1878

“O rei se diverte”, charge de Faria, "O Mequetrefe”, 1878.

“O rei se diverte”, charge de Faria, publicada no jornal “O Mequetrefe”, 9/1/1878.

Clique para ouvir a descrição da charge “Carrossel partidário”

TRANSCRIÇÃO

  • O caricaturista desenhou Pedro II como o eixo de um carrossel no qual giram os cavalinhos. Na barra do vestido da dama no cavalinho, lê-se “Partido Liberal”. Em oposição, o homem da charge representa o Partido Conservador. Quem gira o carrossel é uma idosa em cujo vestido está escrito “diplomacia”.
  • Tal como um carrossel, os partidos políticos giravam, isto é, revezavam-se no poder ao redor de D. Pedro II, o eixo central, e de acordo com o ritmo da diplomacia imperial, uma velha conhecida, maliciosa e espertalhona. A diplomacia se limitava a uma troca de favores e de distribuição de títulos, cargos e pensões.

3. Charge “Balcão de negócios”, Agostini, 1867

“Pobre país! A corrupção alimenta a vaidade, para dar vida ao patriotismo!” – é a legenda da charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867.

Clique para ouvir a descrição da charge “Balcão de Negócios”

TRANSCRIÇÃO

  • Carregando sacos de dinheiro, clientes compram medalhas e títulos de nobreza que estão expostas na vitrine atrás do balcão. O vendedor na charge é o primeiro-ministro, observado pelo imperador, atrás dele. Aos pés deste, um indígena, símbolo da nação brasileira, esconde o rosto entre as mãos. A charge possui a seguinte legenda: “Pobre país! A corrupção alimenta a vaidade, para dar vida ao patriotismo!”.
  • A venda de comendas (títulos de nobreza, cargos políticos e pensões para políticos e seus filhos), feita sob anuência do imperador, era uma forma de manipulação política e de aumentar as receitas do governo no segundo reinado. Para isso, não se obedeciam critérios de competência, mas o interesse em se obter vantagens materiais – fato que deixa a nação (representada pelo indígena) prostrada de vergonha.

4. Charge “Manipanso imperial”, Faria, 1878

"Manipanso imperial", charge de Faria, 1878.

“Manipanso imperial”, charge de Faria, publicada no jornal “O Mequetrefe”, 10/1/1878.

Clique para ouvir a descrição da charge “Manipanso imperial”

TRANSCRIÇÃO

  • Manipanso é uma palavra de origem quicongo para designar um ídolo africano que representa o ancestral de um clã. É usada também para chamar um indivíduo muito gordo. Nesta charge, d. Pedro II foi representado como um manipanso, sentado sobre uma almofada em um tablado alto sendo adorado por políticos como uma divindade exótica com vários braços e tendo, no pescoço, crânios como colar. Seu semblante transmite serenidade e imparcialidade que contrasta com os braços musculosos. Suas mãos seguram firmemente as pastas ministeriais. A seus pés, políticos o adoram.
  • A charge faz uma crítica ao governo centralizador e autoritário de D. Pedro II que detinha todos os poderes. Era o imperador quem nomeava os principais cargos políticos, representados pelas pastas que ele segura. O nome da charge, “manipanso imperial” faz  alusão à monarquia como forma de governo antiquada. Na época do segundo reinado, ganhava força a campanha republicana.
  • Trabalhando as charges do Segundo Reinado com os alunos

Trabalhando as charges do Segundo Reinado com os alunos

Elaboramos dois recursos didáticos para levar essas fontes históricas para a sala de aula. Por sua riqueza de detalhes e informações elas condensam contextos históricos complexas e envolvem emocionalmente os alunos com o período estudado. Os materiais apresentados abaixo trazem as charges em alta resolução (essencial para garantir a nitidez do desenho e a legibilidade dos textos) e são acompanhados de questões que direcionam o olhar do estudante para identificar elementos, interpretar a mensagem do chargista e fazer a leitura crítica da imagem.

1. Charges do Segundo Reinado

Charges do Segundo Reinado. Recurso didático disponível no site Stud História.

O recurso didático Charges do Segundo Reinado é destinado aos alunos do 8º ano e do Ensino Médio. Ele traz 8 desenhos de Faria e Ângelo Agostini, publicados entre 1867 a 1887 (incluindo as quatro obras tratadas nesse artigo). São eles:

  • “Bazar Eleitoral”, de Ângelo Agostini, 1867.
  • “Carrossel partidário”, de Faria, 1878.
  • “Balcão de negócios”, de Ângelo Agostini, 1867.
  • “Manipanso imperial”, de Faria, 1878.
  • “Escravidão ou morte”, de Ângelo Agostini, 1880.
  • “Congresso Internacional”, de Ângelo Agostini, 1883.
  • “O sono da indiferença”, de Ângelo Agostini, 1887.
  • “Leilão de escravos”, de Ângelo Agostini, 1885.

2. Charges antiescravistas de Ângelo Agostini

Charges antiescravistas de Ângelo Agostini. Recurso didático disponível no site Stud História.

O recurso didático Charges antiescravistas de Angelo Agostini  aborda a campanha abolicionista no traço enérgico e incisivo desse artista. As imagens permitem trabalhar as questões que contribuiram para o declínio do Império. No currículo escolar, o tema  é tratado no 9º ano e no Ensino Médio. O material traz as seguintes obras de Agostini:

  • “De volta do Paraguai” (1870).
  • “Escravidão ou morte!” (1880).
  • “Congresso Internacional” (1883).
  • “Cenas da escravidão” (1886).

 

Fonte

  • ARAÚJO, Marcelo da Silva. Era uma vez uma imagem. Revista de História.
  • Historia de la caricatura. Portal Clio.
  • FLORES, Onici Claro. A leitura da charge. Canoas: Editora da ULBRA, 2002.
  • LEMOS, Renato (org). Uma história do Brasil através da caricatura. Rio de Janeiro: Bom Texto, Letras e Expressões, 2001.
  • LINARES, Alcy. Vida de artista. Humor, Cartuns, Charges e Ilustrações. São Paulo: Devir Livraria, 2005.
  • SILVA, Daniela Cardoso da. Humor e ensino: J. Carlos e a caricatura no Ensino de História. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais.
  • SODRÉ, Luiz Guilherme Teixeira. Sentidos do humor, trapaças da razão, a charge.  Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2005.
  • VERGUEIRO, Waldomiro. O humor gráfico no Brasil pela obra de três artistas: Ângelo Agostini, J. Carlos e Henfil. Revista USP, São Paulo, n.88, p. 38-49, dez-fev 2010-2011.

Saiba mais

Recursos didáticos com charges

 

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FranCisco DouRado
FranCisco DouRado
9 anos atrás

olá, tou com um blog sobre HQs do século XIX e comecinho do século XX.

gostaria de saber quem é o autor desta história http://www.docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=FCRBPeriodRaros&PagFis=8438&Pesq=

pág 84, A dor de dentes do sr. Belmiro.

a assinatura (no canto inferior direito) parece Alsis ou Apis

Gostaria tb de saber qual o desenhista da revista ilustrada O Trapeiro

att,

francisco dourado

http://agaqueretro.blogspot.com.br/

carlos henrique
carlos henrique
8 anos atrás

kkkkkkkkkk ,e mesmo assim não ouve censura existia estabilidade politica estabilidade economica e liberdade de imprensa o salario naquela epoca era muito maior do que hoje em dia e mesmo assim ele era chamado de autoritario sendo que na Republica democratica de hoje só ouve golpe atras de golpe censura atras de censura indireta ou direta, a monarquia tem seus defeitos mais muito melhor de qualquer republiqueta existente por ai.(não liguem para alguns erros de portuguens.)

Vitor Berwanger Macarthy
Vitor Berwanger Macarthy
8 anos atrás
Responder para  Joelza

Sim, mas os escravos foram libertos em 1888 é os planos do império eram de dar moradia a todos eles, coisa q não aconteceu por causa da proclamação da república e também tem gente que fala que só homens podiam votar e tals, mas tem que analisar o período, é também a princesa Isabel queria por um voto feminino no reinado dela, fazer as mulheres votarem, mas os fazendeiros da elite brasileira não queriam isso, daí viraram repúblicanos de uma hora pra outra, mas as mulheres acabaram votando de qualquer forma

Andrea Moreira Teixeira
Andrea Moreira Teixeira
8 anos atrás

Olá boa noite! Gostaria de saber se seria possivel obter o gabarito das questões para os alunos.

Obrigada

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[…] como seu estudo como documento histórico requer alguns cuidados conforme já foi tratado no artigo Caricaturas do Segundo Reinado. É importante que esses cuidados sejam observados no trabalho com os alunos, evitando tomar as […]

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[…] Caricaturas do Segundo Reinado: crítica com humor e ironia […]

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[…] O ítalo-brasileiro Ângelo Agostini (1843-1910) é considerado um dos mais importantes chargistas brasileiros. Começou a trabalhar em São Paulo onde fundou as revistas Diabo Coxo e Cabrião. Mudou-se depois para o Rio de Janeiro onde fundou e manteve, de 1876 a 1891, a Revista Illustrada. Seus traços contribuíram para mobilizar a opinião pública nacional a favor da campanha abolicionista e republicana no Segundo Reinado. […]

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