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O Homem de Piltdown, a farsa do “elo perdido” da evolução humana

18 de dezembro de 1912

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18 de dezembro de 1912 entrou para a história da ciência como o dia em que a humanidade finalmente encontrou o seu “elo perdido” — ou assim o mundo acreditou. Naquela data, em uma reunião solene da Sociedade Geológica de Londres, o arqueólogo amador Charles Dawson e o prestigiado paleontólogo Arthur Smith Woodward anunciaram a descoberta do Eoanthropus dawsoni, o Homem de Piltdown.

Era um crânio perfeitamente humano com uma mandíbula semelhante a de um macaco, porém com os dois molares com características humanas. Afirmaram que o fóssil foi descoberto em uma pedreira em Piltdown, em Sussex, Inglaterra.

Sua datação, entre 200.000 e 500.000 anos o colocava em uma linha do tempo muito anterior aos restos de humanos mais antigos encontrados: o Homem de Neanderthal, descoberto em 1856, na Alemanha, o homem de Cro-Magnon,  em 1868 na cidade francesa de Eyzies-de-Tayac-Sireuil, o Homem de Java, em 1891, em Java, na Indonésia, e a mandíbula de Mauer, em 1907, em Heidelberg, na Alemanha.

O Homem de Piltdown era inglês! A Inglaterra celebrava orgulhosa o achado do ancestral que revolucionaria a evolução humana, colocando o país no centro da árvore genealógica da nossa espécie. O problema? Tudo não passava de uma colagem grosseira de ossos e dentes lixados à mão. Conheça os bastidores do golpe mais vergonhoso da história da ciência mundial.

A descoberta da fraude

Pesquisadores alemães e franceses tiveram dúvidas sobre o valor informativo dos fragmentos de Piltdown desde o início, devido ao seu conhecimento detalhado das descobertas dos neandertais. Mesmo à luz de descobertas fósseis posteriores da Ásia e da África, o homem de Piltdown poderia se afirmar, na melhor das hipóteses, como um ramo subsidiário intrigante na árvore genealógica dos humanos, pois aqueles ocupam um caminho de desenvolvimento completamente diferente dos humanos modernos, em geral mais jovens e com aumento tardio do volume cerebral.

A importância do Homem de Piltdown permaneceu em disputa por 40 anos até ele ser denunciado como uma fraude. Com a evolução da ciência, o fóssil do “elo perdido” foi sendo desmascarado:

  • 1949: Testes iniciais com flúor indicaram que o achado era muito mais recente do que se supunha, não tinha mais de 50.000 anos. Isso o tornava impossível ser de um animal pré-humano.
  • 1953: Um estudo intensivo dos fragmentos mostrou que se tratava de um crânio humano com uma mandíbula de orangotango tingidos com bicromato de potássio para parecerem mais antigos. Um dente era de chimpanzé. Exames microscópicos indicaram que os dentes foram limados para ficarem parecidos com os de humanos.
  • 1959: Testes com datação por carbono-14 revelaram que o crânio humano tinha entre 520 e 720 anos.
  • 2016: Estudos de espectroscopia e análise de DNA indicaram que os restos falsificados foram feitos combinando os ossos de dois crânios humanos com uma única mandíbula de orangotango. Foram unidos com um material cimentante semelhante à massa de modelar odontológica (ABBAS, 2016).
IMAGEM: O Homem de Piltdown, a escura seriam os fragmentos originais e a parte clara é gesso para reconstituir o crânio.

O Homem de Piltdown, a parte escura seriam os fragmentos originais e a parte clara é gesso para reconstituir o crânio.

Buscando entender a fraude

A identidade do principal perpetrador da farsa de Piltdown permanece um mistério. As especulações geralmente recaem sobre o próprio Dawson, que pode ter sido motivado pelo desejo de se tornar membro da prestigiada Royal Society, a principal organização científica na Grã-Bretanha. Seus conhecimentos de arqueologia e geologia lhe deram as habilidades necessárias para disfarçar os restos mortais.

Os antropólogos britânicos foram enganados porque, na época, pouco se sabia sobre fósseis de hominídeos e o processo de datação era rudimentar. Além disso, os especialistas britânicos estavam dominados por um fervor nacionalista pois, até então, somente a França e a Alemanha tinham descoberto fósseis humanos muito antigos.

Aponta-se, também, que o nacionalismo e o racismo tenham exercido influência para a aceitação, pelo menos por algumas décadas, da descoberta do que foi chamado o “primeiro britânico”. Um monumento chegou a ser erguido no suposto local da descoberta. Detentora do maior império da época, a Inglaterra viu no Homem de Piltdown uma prova concreta para desafiar os achados fósseis de hominídeos em outros países.

A influência do Homem de Piltdown persistiu nos livros didáticos de biologia até a década de 1970, apesar de ter sido desmascarado em 1953 (LADOUCEUR, 2017).

Novas investigações feitas em 2003 e 2016 concluíram que não só o Homem de Piltdow era uma fraude mas pelo menos 38 espécimes da coleção de Dawson eram evidentes falsificações. Dawson provavelmente agiu sozinho, e era a única pessoa no grupo de suspeitos com conhecimento científico suficiente para ter levado o blefe.

O Homem de Piltdown e outras “descobertas” de Charles Dawson são mantidos nos arquivos do Museu de História Natural de Londres.

Fonte

  • ASIMOV, Isaac. Cronologias das Ciências e das descobertas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
  • A notória farsa do fóssil do “homem-macaco” foi atribuída a um único culpado. Science News, 9 ago 2016.
  • Piltdown Man: case closed. Bournemouth University, 8 set 2009.
  • ABBAS, Rizwaan S. Novas evidências genéticas e morfológicas sugerem que um único farsante criou o Homem de Piltdown. Royal Society Open Science, 2016.
  • LADOUCEUR, Ronald. Henry Fairfield Osborn e o legado racista do Homem de Piltdown. Textbook History, 2017.

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