DoaçãoPrecisamos do seu apoio para continuar com nosso projeto. Porque e como ajudar

Fotografias que falsificam a História

17 de abril de 2015

45
compartilhamentos

A fotografia é um documento histórico ambíguo pois sendo um registro da realidade é, também, um recorte e uma percepção do mundo. A motivação ou intenção do fotografo (consciente ou não), o enquadramento, a lente utilizada e a iluminação interferem no resultado final e são fatores de construção do significado da fotografia. Daí seu papel documental e testemunhal ter um duplo caráter: é a um tempo representação da realidade e uma noção construída da realidade.

Isso é particularmente importante quando se trata de fotografias de uso político. Neste caso ela pode até ser usada para “criar” um fato histórico ou para modificá-lo, para exaltar um líder ou criticar e desacreditar inimigos políticos. Rastreando fotos em diversos arquivos e bibliotecas da Europa, o jornalista francês Alain Joubert encontrou centenas de fotos originais diferentes daquelas publicadas nos jornais e revistas. Elas foram editadas, cortadas, montadas ou tiveram pedaços apagados conforme a conveniência do líder político daquele momento. Os beneficiários destas operações foram os chefes de governos Mussolini, Hitler, Lenin, Stalin, Mao, Tito, Kim Il Sung.

A prática de adulterar fotos não é, contudo, exclusiva dos regimes autoritários, de esquerda ou direita. Os Estados Unidos também se valeram de fotografias editadas para engrandecer seus feitos e seus heróis. Há também o caso de fotos originalmente despretensiosas que, após um tratamento gráfico apurado, acabaram por se tornarem emblemáticas, como a icônica foto de Che Guevara usando uma boina com uma estrela.

As imagens que apresentamos a seguir são exemplos de que a fotografia não pode ser considerada como “prova” da realidade e que é preciso investigar todos os elementos que envolvem sua produção incluindo a foto em negativo (recurso inexistente nas máquinas fotográficas atuais) e sua revelação final.

O discurso de Lenin, 05 de maio de 1920

Lênin discursando à multidão, 1920.

Lênin discursando à multidão com Trotsky de pé, na escada do palanque. Foto de 1920.

Lênin discursando à multidão, foto retocada.

Lênin discursando à multidão, mas sozinho no palanque. Fotografia oficial, de 1930.

Lenin estava à frente do poder e o país, mergulhado na guerra civil. Milhões de homens foram recrutados para lutarem no Exército Vermelho comandado por Trotsky. No ano seguinte, com o fim da guerra civil, Lenin criou a NEP (Nova Política Econômica) que liberava alguns setores da economia. Pouco tempo depois, Lenin afastou-se do poder por motivo de doença, vindo a falecer em 1924.

Joseph Stalin declarou-se sucessor de Lênin no comando da URSS e pouco depois empreendeu uma feroz política de perseguição aos seus adversários.  Trotsky foi expulso do país e acabaria assassinado, em 1941, no México, para onde havia se exilado. Stalin mandou apagar as imagens de seus adversários nas fotografias e, com isso, suprimi-los da memória popular  para escrever uma “nova história” do comunismo. A foto oficial de Lênin discursando sozinho no palanque foi publicada milhares de vezes em jornais, revistas e livros didáticos e serviu de inspiração a pinturas como a tela de Isaac Brodsky, feita em 1933 (abaixo).

Lenin discursando ao Exército Vermelho. Tela de Isaac Brodsky, 1933

Lenin discursando ao Exército Vermelho. Tela de Isaac Brodsky, 1933

 Hitler a caminho do poder, 1932

Hitler

Hitler ao lado do marechal Paul von Hindenburg, então presidente da Alemanha. Foto de novembro de 1932.

Hitler 1933.

“O marechal e seu candidato. Lutando juntos pela paz e pela igualdade de direitos”, diz o cartaz eleitoral de Hitler, 1933.

Hitler parece constrangido e diminuído ao lado da figura altiva do marechal von Hindenburg, então com 85 anos de idade, o dobro da idade do líder nazista. Naquele ano, os nazistas haviam obtido expressiva votação e compunham a maioria dos deputados no Parlamento alemão. A foto registrou uma reunião em que Hindenburg consultou Hitler sobre a demissão do gabinete Franz von Papen. No ano seguinte, ocorreu a campanha eleitoral e a fotografia serviu de base para o cartaz de propaganda política. Mas a figura de Hitler é bem diferente: com trajes militares e fisionomia confiante, ele transmite segurança e firmeza – qualidades esperadas do candidato de um país em aguda crise econômica. Os títulos do cartaz passam uma mensagem otimista e democrática. Ficam as perguntas: O que Hitler entendia por paz? Direitos de quem ele defendia? Neste ano, 1933, Hitler foi nomeado chanceler e começava sua escalada no poder.

 Mussolini e a farsa da vitória, 29 de junho de 1942

Mussolini em Trípoli. Foto de 1942.

Mussolini em Trípoli. Foto de 1942.

Mussolini em Trípoli. Foto retocada e publicada em 1943.

Mussolini em Trípoli. Foto retocada e publicada publicada em 1943.

Mussolini que acabara de desembarcar em Trípoli, monta a cavalo e ergue a espada de ouro do Islã que recebera dos muçulmanos da Líbia. A Segunda Guerra estava em curso. Nas semanas anteriores, tropas germano-italianas comandadas por Rommel haviam tomado Tobrouk e avançavam em direção ao Egito. Mussolini já se viu, vitorioso, no Cairo. No entanto, pouco depois, as tropas de Rommel foram detidas em El Alamein. Mussolini, ainda na Líbia, regressou à Roma.

Nos jornais italianos, a foto apareceu modificada: apagaram-se os indivíduos que mantinham o cavalo parado e retocou-se o céu ao fundo com nuvens entre luzes. Dessa maneira, tem-se uma figura majestosa de Mussolini, quase um herói mítico, desviando a atenção da derrota das tropas germano-italianas que, neste momento, estavam sendo expulsas da África pelas forças de Montgomery.

Churchill retratado pelos nazistas, julho de 1940

“Franco-atirador”, cartaz alemão de 1941

“Franco-atirador”, cartaz alemão de 1941 usando uma foto retocada de Churchill.

Winston Churchill visita uma base militar. Foto de 1940

Visita do primeiro-ministro britânico Winston Churchill a uma base militar. Foto de 1940.

Churchill, primeiro-ministro britânico, junto com outras autoridades, passa revista nas tropas e examina a metralhadora de um soldado. A Segunda Guerra, iniciada em setembro de 1939, parecia vitoriosa aos alemães que naquele momento já ocupavam a França. O Reino Unido estava praticamente sozinho na luta contra o Eixo, mas seu poder de fogo era grande. O Ministério de Propaganda do Reich, liderado por  Joseph Goebbels usou todos artifícios para desabonar o líder inimigo. O recorte da figura de Churchill aplicado sobre um fundo que lembra parede ou muro, e o retoque na metralhadora (que aparece brilhando) passaram a ideia de que o primeiro-ministro britânico era um perigoso gangster.

Iwo Jima, a construção de um ícone da vitória, 1945

Iwo Jima 23 de fevereiro de 1945.

Fuzileiros americanos hasteiam a bandeira em Iwo Jima. Foto de Joe Rosenthal, 23 de fevereiro de 1945.

Iwo Jima 1945.

Içando a bandeira em Iwo Jima. Foto de Joe Rosenthal, 1945, Prêmio Pulitzer de Fotografia.

Iwo Jima,  pequena ilha japonesa, é palco do primeiro confronto em território japonês. A batalha ainda estava em curso quando os fuzileiros ergueram a bandeira no ponto mais alto da ilha. O fotógrafo americano Joe Rosenthal, recém chegado na ilha, fez o registro. Ainda levariam cinco semanas de combate até a vitória final que matou 7 mil soldados americanos e 22 mil japoneses. Dias depois, o Secretário da Marinha chegou à zona de guerra e foi-lhe mostrada a foto do içamento da bandeira. Ele não gostou, achou que ela não valorizava a batalha, os soldados pareciam displicentes e o soldado em primeiro plano, com a metralhadora, triste ou amedrontado. Mandou trocar a bandeira.

Joe Rosenthal seguiu os soldados e, a uma distância de dez metros, fotografou-os no esforço coletivo de erguer uma bandeira maior e mais imponente que a anterior.  A batalha não havia terminado, mas a fotografia tornou-se o símbolo da vitória norte-americana na Segunda Guerra e ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia. Uma das imagens mais icônicas do século XX, ela serviu de propaganda ao governo americano para estimular o recrutamento e o patriotismo da população. Os três fuzileiros sobreviventes que aparecem na foto, percorreram o país vendendo bônus de guerra e ainda pousaram para um escultor criar um memorial dessa batalha.

Memorial Iwo Jima, cemitério de Arlington, Virgínia,

Memorial Iwo Jima no cemitério de Arlington, Virgínia, EUA.

Fonte

  • JOUBERT, Alain. Le Commissariat aux archives. Les fotos qui falsifient l’Histoire. Paris: Bernard Barrault, 1986.

 

Doação
Doação

Estamos no limite de nossos recursos 😟 O site Ensinar História produz conteúdo de qualidade sem custos, sem propaganda e sem restrições aos seguidores. Contribua com nosso projeto realizando uma doação.

Compartilhe

Comentários

Subscribe
Notify of
guest
12 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Sebastião V. Prado
Sebastião V. Prado
6 anos atrás

Ótima publicação. Vou usá-la na aula de História sobre Regimes totalitários e o uso de fotografias como propaganda política.

Obrigado,
Um grande abraço

Alexandre Silva
Alexandre Silva
6 anos atrás

Vai usar também o exemplo de Iwo Jima? O artigo é sobre a falsificação da História com a utilização de fotografias e, como podemos constatar, não se trata de “Regimes totalitários” mas de conveniências políticas. Portanto, não interessa quem fez a falsificação. O que interessa é a tentativa de ocultar ou distorcer a História. E, como sabemos, história, memória e verdade são conotações de uma mesma palavra para os gregos: alethéia (não-esquecimento, verdade).

trackback

[…] https://ensinarhistoria.com.br/fotografias-que-falsificam-a-historia/ – Blog: Ensinar História – Joelza Ester Domingues […]

Yhan Oliveira
Yhan Oliveira
5 anos atrás

Ótimo, muito bom mesmo, gostei demais, é por isso que eu amo a História 😀

paulo oisiovici
paulo oisiovici
5 anos atrás

Decepcionante saber que o curso de História da USP só ensinou a seus alunos a
reproduzirem até hoje a versão de 1968 iniciada por Robert Conquest, do
serviço secreto britânico que radicado nos EUA, passou a integrar a CIA,
realizando o trabalho de falsificação da história para difusão da
propaganda anticomunista, condecorado por isso, por George Bush e
falecido no ano passado.
(Paulo Oisiovici)

Almir Albuquerque
5 anos atrás

Está bem claro que a segunda foto do discurso do Lenin é uma outra foto tirada em um momento diferente (pouco antes ou depois da primeira) e não uma “falsificação”.

Joelza Ester
Joelza Ester
5 anos atrás

Olá Almir. As fotos fazem parte de uma série do mesmo rolo fotográfico,
como é comum em fotografias jornalísticas. Escolhe-se para publicar uma
entre dezenas de fotos feitas no mesmo momento. A foto utilizada para o
retoque tem direitos autorais e não pode ser reproduzida sem os devidos
custos – o que inviabilizaria sua publicação no blog. Daí ter sido
escolhida a foto mais próxima da série. Elas fazem parte da ampla
pesquisa realizada por Alain Joubert, publicada em “Le Commissariat aux
archives” (Paris: Bernard Barrault, 1986).

Almir Albuquerque
5 anos atrás
Reply to  Joelza Ester

Ok, entendi. Obrigado pelo esclarecimento.

Lafayette Londrina
Lafayette Londrina
3 anos atrás

Também percebi isso

trackback

[…] Reunimos exemplos de que a fotografia não pode ser considerada como “prova” da realidade e que é preciso investigar mais a história já contada.  […]

Outros Artigos

Últimos posts do instagram

Fique por dentro das novidades

Insira seu e-mail abaixo para receber atualizações do blog: