Atenas antiga é o berço da civilização ocidental, solo onde nasceram a democracia, a filosofia e o teatro. No auge de seu poder político e cultural, a cidade-estado moldou os rumos da história humana, deixando um legado inestimável de racionalidade, arte e debates públicos que ainda ecoam na atualidade. No plano militar, liderou a Liga de Delos contra o Império Persa, consolidando-se como a grande potência hegemônica do mundo grego.
No entanto, antes de se tornar esse império guiado pela razão, a grandiosidade ateniense foi justificada por narrativas sagradas. A própria escolha de seu nome e identidade começou com uma disputa épica entre deuses, como revela seu mito de fundação.
Mito de fundação de Atenas: a disputa dos deuses
A versão mais antiga conhecida da fundação de Atenas foi registrada pelo historiador romano Varrão, no século I a.C., e preservada por Santo Agostinho no século V d.C., na obra A Cidade de Deus (Livro 18, capítulo 9), no século V d.C.
A narrativa se passa na época do reinado de Cécrope, o primeiro rei de Atenas. Considerado um herói cultural, que ensinou aos habitantes o casamento, a leitura, a escrita e os rituais de sepultamento.
Nascido da própria Terra, Cécrope era um ser híbrido: homem na metade superior e serpente na inferior. Até então, o povo vivia disperso pelos campos e litorais da Ática dedicando-se à agricultura e à pesca, até que o monarca os uniu em sociedade na cidade recém-fundada.
Dois deuses disputaram a soberania do novo território: Atena, a deusa da sabedoria, e Poseidon, o deus dos mares. Ficou decidido que o patrono seria aquele que oferecesse o presente mais útil para aos habitantes. Poseidon golpeou a terra com seu tridente fazendo brotar um magnífico cavalo e uma fonte de água límpida. Atena, por sua vez, domou o animal e fez surgir uma oliveira carregada de frutos.

Cécrope, o mítico rei de Atenas, metade humano e metade serpente, em uma taça do século V a.C.
O embate dos símbolos: guerra x sustento
Essas duas ofertas carregavam um profundo simbolismo sobre o futuro e a identidade da pólis. O cavalo e as águas de Poseidon representavam o ímpeto da guerra, a força bruta da natureza e o domínio dos mares — elementos essenciais para uma potência militar expansionista.
Em contrapartida, a oliveira de Atena simbolizava a paz, a civilidade e o sustento de longo prazo. O óleo de suas azeitonas alimentaria o povo, iluminaria as noites e curaria feridas. Ao domar o cavalo selvagem oferecido por Poseidon e apresentar a agricultura, Atena demonstrou que a razão e a sabedoria estratégica deveriam prevalecer sobre a violência desmedida da guerra.
A decisão e o voto das mulheres
Para decidir o vencedor, Cécrope convocou todos os cidadãos de ambos os sexos para votarem, pois era então costume que as mulheres também participassem das deliberações públicas. Os homens escolheram Poseidon e as mulheres, Atena. Como elas eram maioria por margem de um voto, a deusa venceu a disputa, por um único voto, e batizou a cidade com seu nome.
Enfurecido com a derrota, Poseidon devastou as terras da Ática inundando-as com violentas ondas. A destruição persistiu até que o deus impôs três castigos severos para acalmar sua fúria: as mulheres perderiam o direito ao voto para sempre, seus filhos não herdariam o nome materno e elas perderiam o direito de serem chamadas de “atenienses”, tornando-se apenas “mulheres da Ática”.
Desde então, na cidade que gerou grandes filósofos, artistas e escritores, as mulheres perderam todos os direitos. A deusa Atena, embora vitoriosa na competição, acabou derrotada politicamente ao não conseguir proteger suas eleitoras, consolidando a premissa de que apenas os homens tinham permissão para governar.

No mito, as mulheres votaram em Atena (paz/prosperidade) em vez de Poseidon (guerra), o que os homens consideraram uma escolha desastrosa. As mulheres foram punidas por isso.
A função social e política do mito
Historicamente, não existem evidências de que as atenienses tenham usufruído do direito ao voto – prerrogativa que as mulheres não possuíam em nenhuma outra cidade-estado grega. O mito foi estruturado especificamente para legitimar a exclusão feminina, argumentando que o voto das mulheres quase destruíra Atenas, ao mesmo tempo em que justificava o nome feminino que a cidade recebera.
Na democracia ateniense, a cidadania era restrita aos homens, livres, adultos e nascidos na pólis. Mulheres, escravizados e estrangeiros eram proibidos de votar ou debater na Assembleia (Eclésia). Desse modo, o mito funcionava como uma poderosa ferramenta de propaganda política e social. Ele transferia às mulheres a “culpa” por sua própria opressão, rotulando-as como eleitoras “irresponsáveis”. A narrativa oferece, portanto, um vislumbre claro de como os gregos utilizavam a mitologia para naturalizar e manter as rígidas e misóginas estruturas de poder do mundo real.

Oliveira ao lado do Erecteion na Acrópole de Atenas, no local sagrado onde, segundo os gregos antigos, teria ocorrido o embate entre Atenas e Poseidon. No interior do templo, os atenienses preservavam a marca do tridente de Poseidon na rocha e a fonte de água salgada; do lado de fora, ficava a oliveira sagrada de Atena. A oliveira visível hoje foi plantada por volta de 1917 pela rainha Sofia da Grécia, utilizando um broto que, segundo a tradição local, descendia da árvore original.
O eco do mito no século XXI: o voto feminino sob ameaça
A premissa mítica de que o voto das mulheres carrega uma “irresponsabilidade intrínseca” capaz de arruinar o corpo social não ficou restrita à Atenas da Antiguidade. Pelo contrário, ela reaparece no debate público contemporâneo, revelando que a instrumentalização política da misoginia continua ativa.
Um exemplo flagrante dessa engrenagem ocorreu em junho de 2026, quando o empresário e influenciador político Paulo Figueiredo afirmou em uma transmissão que “as mulheres votam, estatisticamente, muito mal, principalmente as solteiras”. Sob a justificativa de uma suposta análise estatística, o discurso argumenta que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos, enquanto as solteiras escolheriam caminhos políticos considerados “errados” por esses grupos.
Assim como no mito de fundação ateniense, onde o castigo de Poseidon retirou o poder político das mulheres para garantir a “estabilidade” da pólis, o discurso contemporâneo tenta camuflar o machismo estrutural sob o manto de uma falsa necessidade de ordem ou inteligência eleitoral. O cerne do argumento permanece idêntico ao de milênios atrás: a autonomia política da mulher é pintada como uma ameaça à sociedade.
A “machosfera” e as propostas de restrição ao voto
Esse fenômeno não é isolado e faz parte de uma articulação ideológica global de grupos de extrema-direita e movimentos ultraconservadores, fortemente influenciados pela chamada “machosfera” dos Estados Unidos. Plataformas digitais, podcasts e fóruns online têm servido como incubadoras para discursos radicais que defendem abertamente o fim do sufrágio feminino. Nomes proeminentes desse ecossistema norte-americano, como o ativista Nick Fuentes, já declararam de forma explícita o desejo de eliminar o voto das mulheres.
Esses movimentos operam através de conceitos como o “voto familiar”, uma proposta que sugere que cada núcleo familiar deveria ter direito a apenas um voto, o qual seria obrigatoriamente conduzido pelo homem da casa. Para os teóricos dessa vertente, a emancipação feminina e a igualdade de direitos políticos dividiram as famílias e desestabilizaram o Ocidente. A solução proposta por essas alas radicais é o retrocesso institucional: devolver à figura masculina o monopólio das decisões públicas.
Ao analisar a ponte entre o mito clássico e o extremismo digital moderno, fica evidente que a mitologia grega não era apenas literatura, mas um reflexo da manipulação política para justificar a opressão real. Na aula de História, compreender essas conexões permite perceber que os direitos democráticos — como o voto universal — não são concessões naturais ou definitivas, mas conquistas históricas sob constante disputa e que exigem vigilância crítica contínua.
Trabalhando esse tema em sala de aula
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Fonte do mito
- ZACHARAKIS, Georges E. Mitologia Grega. Campinas, SP: Papirus, 1995.
- GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo: Cultrix, 1995.
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