Em comemoração aos duzentos anos da Lei do Comércio de Escravos de 1807, que aboliu o tráfico no Império Britânico, a BBC produziu, em março de 2007, a série de documentários ‘Racismo: uma história’. A obra traça uma cronologia de eventos a partir da invenção do conceito de raça no século XVII e explora o impacto do racismo em escala global. O documentário examina as mudanças nessa percepção e a história do preconceito na Europa, nas Américas, na Austrália e na Ásia, culminando na persistente luta por igualdade de direitos que atravessa os dias atuais.
O enredo é narrado pela atriz inglesa Sophie Okonedo, de ascendência nigeriana e judaica, sendo ilustrado por fotografias, encenações dramáticas e filmagens locais, além de intercalado com entrevistas de pesquisadores e testemunhas.
A produção é dividida em três episódios independentes, com cerca de 60 minutos de duração cada: ‘A cor do Dinheiro’, ‘Impacto Fatal’ e ‘Um legado selvagem’
Episódio 1: “A Cor do Dinheiro”
O primeiro episódio, chamado A Cor do Dinheiro, avalia o impacto econômico e social da engrenagem colonial entre Europa, África e Américas (0;34). A narrativa reconstrói essa trajetória desde o início da conquista ibérica até a vitoriosa Revolução Haitiana na virada para o século XIX (49:35).
O documentário examina a condição dos indígenas americanos — cuja proibição da escravidão impulsionou o tráfico massivo de africanos para suprir a demanda de mão de obra (10:27) — e demonstra como o racismo nasceu da necessidade econômica de lucrar com o sistema plantation (11:17). Por fim, analisa-se como preconceitos se consolidaram em instituições religiosas e seculares (14:59), evidenciando desde o resgate colonial das teses de Aristóteles sobre a escravidão natural até as teorias de hierarquia racial formuladas pelo filósofo iluminista Immanuel Kant (22:57).
Episódio 2: “Impacto Fatal”
O segundo episódio, Impacto Fatal, examina a ideia do racismo científico, uma vertente teórica desenvolvida no século XIX para legitimar o neocolonialismo e a violência imperialista (0:57). Apoiando-se em práticas pseudocientíficas como a frenologia (que acredita que a forma da cabeça determina o caráter e a personalidade humana), essa ideologia forneceu o verniz intelectual necessário para validar a opressão de povos não europeus, pavimentando o caminho para a eugenia e, posteriormente, para as políticas de extermínio da Alemanha Nazista (1:09).
O documentário demonstra como, desde as primeiras décadas daquele século, o sonho de ‘civilizar as colônias‘ cedeu espaço a massacres sistemáticos (5:16). Um dos casos emblemáticos explorados é a Guerra Negra (1820–1832), conflito movido pelos colonos britânicos que resultou no quase completo aniquilamento dos aborígenes da Tasmânia (5:58). Paralelamente, dinâmicas de desumanização semelhantes ocorriam contra o povo Koi-San na África do Sul, os Beothuk no Canadá e os povos indígenas dos pampas na Argentina.
Esse cenário de violência física era respaldado pela intelectualidade europeia: escritores de prestígio, como o historiador escocês Thomas Carlyle (1795–1881), reforçavam publicamente a premissa de que a desigualdade era uma lei natural e de que a população branca detinha o direito biológico de governar os povos negros (0:57).
Episódio 3: “Um legado selvagem”
O terceiro e último episódio, Um Legado Selvagem, investiga o impacto do racismo científico na geopolítica e nas sociedades do século XX. A narrativa expõe como a expansão colonial europeia alcançou o coração do continente africano sob o comando ambicioso do rei Leopoldo II da Bélgica, que converteu o Congo em um violento seringal privado (16:40). Homens, mulheres e crianças que não atingiam as cotas de extração de látex sofriam punições extremas, incluindo a amputação de membros (18:30). Essa brutalidade sistemática gerou um dos maiores massacres da era moderna, ceifando cerca de 10 milhões de vidas congolesas (20:07).
Indo além das fronteiras do Congo, o documentário demonstra que o racismo sobreviveu ao fim formal da escravidão ao se institucionalizar em regimes de segregação ao redor do mundo.
A narrativa expõe a violência brutal no sul dos Estados Unidos pós-Guerra Civil, abordando o terror promovido pela Ku Klux Klan, a prática sistemática de linchamentos (como o caso do jovem Jesse Washington) e o assassinato de Emmett Till, que atuou como estopim para o Movimento dos Direitos Civis.
O documentário detalha o regime de Apartheid na África do Sul sob a retórica de “separados mas iguais” para garantir o controle político e a exploração da força de trabalho negra (4:59). São destacados massacres como o de Sharpeville (1960) e o levante de Soweto de 1976 (28:39).
O episódio revela que a Europa exibia africanos em “zoológicos humanos” para o entretenimento do público branco, e um dos primeiros foi montado justamente nos jardins do museu de Leopoldo II (21:58).
O encerramento do documentário argumenta que, embora a biologia tenha provado que raças não existem (55:36), o racismo estrutural e econômico perpetua fatias de desigualdade na riqueza global e no sistema de encarceramento em massa até os dias de hoje (49:25).
A trilogia “Racismo: uma História” em sala de aula

Recurso didático com dinâmicas para trabalhar o documentário “Racismo: uma História” no Ensino Médio.
Preparamos um material com dinâmicas variadas para trabalhar a trilogia “Racismo: uma História” com os alunos do Ensino Médio. Elas buscam conectar o rigor histórico da obra audiovisual ao desenvolvimento do pensamento crítico e da pesquisa autônoma, estimulando os estudantes a relacionarem o panorama global com os desafios estruturais da sociedade brasileira.
Assim, trazemos para a sala de aula outros temas como: o genocídio Mapuche no Chile e na Argentina, a destruição de comunidades indígenas no Brasil com o avanço das frentes econômicas, o trabalho e as ideias de Nina Rodrigues e Sílvio Romero, a Guerra de Canudos e a “degenerescência” do sertanejo, o cangaço e a criminalização biológica.
Para cada episódio, elaboramos questões para debate coletivo, temas de pesquisa para os alunos e um quiz para verificar a leitura e compreensão do documentário. Ao final, apresentamos questões no formato ENEM para o professor aplicar em uma avaliação.
Esse material estará disponível no site STUD HISTORIA em breve. Acesse aqui.
Saiba mais
- “O fardo do Homem Branco”: exaltação do imperialismo
- Ruby Bridges, uma menina negra contra uma cidade racista
- Massacre de Amritsar, o implacável imperialismo britânico na Índia
- Massacre de Soweto, África do Sul
- Fundada a Ku Klux Klan, a violência racista em nome de Deus
- Prisão de Rosa Parks inicia a luta pelos direitos civis
Recursos didáticos relacionados ao tema
- Darwinismo Social e Ideologias Raciais. Dinâmicas para trabalhar o documentário “Racismo: uma História”.
- Dominação imperialista na África. Estudo de Documentos (17 documentos).
- Imperialismo dos Estados Unidos em 10 charges. Análise de 10 charges.
- Neocolonialismo e imperialismo. Mapa mental para preencher.
- O Imperialismo e o “Fardo do Homem Branco”. Estudo de Documentos (GRATUITO)





[…] da brutalidade do que então ocorria nas colônias europeias da África e Ásia. As teorias do darwinismo social, da eugenia e do racismo científico forneciam justificativas à expansão […]
[…] racismo não tem base científica, mas, sim, política. Teorias racistas serviram como justificativa para massacrar […]
Ler isso me embrulhou o estômago…e aqui no Br só se reproduz a história contada pelos ‘vencedores’, enquanto o imaginário social tanto celebra 1 único tipo de herança e miscigenaçao: a europeia-tupiniquim, bradando com orgulho seus sobrenomes alemaes como Fischer, e outros sobrenomes europeizados. Afinal, diferente de uma Maria dos Santos qualquer, ser um branco q ostenta tal sobrenome é ‘chique’, tem história..tem história sim: o q carregam no sangue e fenótipo com tanto orgulho sao as marcas de uma origem de genocidas cruéis ..privilégios e sobrenomes manchados com o sangue de milhares de seres humanos..credo
Faltou o papel da igreja católica que a senhora tanto defende com o negro sem alma e marca de CAM. A eugenia americana não foi iniciada nos preceitos darwinistas mas cristãos que a senhora tanto defende. O ” DARWINISMO SOCIAL” não tem anda de ciencia nem de DARWIN ou o que ele publicou mas tem muito do cristianismo católico, protestante. Principalmente em relação ao negro e judeus… É por isto que idade das trevas ( que sim existiu apesar de pós modernistas falarem ao contrario) foi perigosa.. Pessoas como os mantenedores deste site tem uma fé e moldam a realidade… Leia mais »