A História é uma ciência que lida com o tempo – um conceito abstrato e historicamente construído. Isso, por si só, é um complicador para o 5° e 6° anos, alunos com 10-11 anos de idade cuja capacidade de abstração mal começou a se delinear. Para tornar a explicação ainda mais complexa, a simples pergunta “o que é História?” não tem uma resposta imediata já que os significados da História estão em constante mudança.
Diante disso, como começar o ensino de História no 5º e 6º anos? Um recurso eficiente é utilizar-se de contos, mitos, lendas, fábulas e parábolas – ferramentas poderosas porque traduzem conceitos abstratos, como História e passado, para uma linguagem visual e narrativa que a criança consegue processar emocionalmente.
Os cegos e o elefante é uma parábola milenar do folclore indiano. Sua história remonta a pelo menos 500 a.C. Tornou-se mundialmente famoso na cultura ocidental através do poema do escritor americano John Godfrey Saxe, no século XIX (reproduzido abaixo). Na versão de Saxe, os cegos tocam diferentes partes do animal (tromba, rabo, perna, orelha, etc.) e concluem, erroneamente, que o elefante é como uma cobra, uma vassoura, uma coluna ou uma bandeira.
Para baixar atividades sobre a parábola com alunos do 6º ano, veja no final desse artigo.
Origem do conto
O conto Os Cegos e o Elefante está profundamente enraizado em três grandes tradições filosóficas e religiosas:
Jainismo: é uma das fontes mais antigas, onde o conto é usado para ilustrar o conceito de anekāntavāda (a “multiplicidade de pontos de vista”), sugerindo que a verdade possui muitas facetas e é raramente captada por completo por um único indivíduo.
Budismo: o próprio Buda teria narrado essa alegoria para descrever como as pessoas se perdem em discussões sobre a verdade absoluta baseando-se apenas em suas percepções parciais.
Hinduísmo: é frequentemente referida como uma fábula hindu sobre sábios que tentam descrever a realidade divina ou absoluta.
A parábola e a História
A parábola Os Cegos e o Elefante é uma perfeita para representar o desafio do historiador em reconstruir o passado. O elefante é o passado, e os cegos são os pesquisadores que tentam descrevê-lo, mas enfrentam dificuldades, isto é, a fragmentação das fontes (as partes do elefante).
Isso leva à reflexão sobre o que é verdade no âmbito da História. É possível conhecer “a verdade”, isto é, saber exatamente como foi o passado, como os fatos ocorreram? Para o historiador contemporâneo, a verdade não é um dogma absoluto, mas um processo em construção baseado na análise rigorosa de evidências.
A palavra História originou-se da expressão grega “istoría”, que tem dois sentidos: um objetivo – o que ocorreu – e outro subjetivo – o conhecimento do ocorrido. Em português, também, permaneceu esse duplo sentido.
Não existe verdade absoluta. O passado é inacessível em sua totalidade, o que temos são vestígios e narrativas que tentam reconstruí-lo. A interpretação de um fato depende das perguntas que o historiador faz e do contexto social em que ele vive.
O conhecimento histórico, construído pelo historiador, não tem por objetivo reconstituir o “fato em si”, mas interpretá-lo, de acordo com as fontes pesquisadas mas que não deixa de ser uma visão particular mesmo que bem referenciada.
A parábola e a variedade de perspectivas
A parábola dos Cegos e o Elefante permite, também, uma reflexão sobre a diversidade de opiniões, nem sempre excludentes, mas que podem conter parte da verdade. Um mesmo fato pode ser analisado sob múltiplos pontos de vista e gerar divergências.
A verdade completa só emerge quando as diferentes perspectivas são integradas, sugerindo que a humildade intelectual e o diálogo são essenciais para o conhecimento.
Daí a importância em ouvir o outro e procurar compreender seu ponto de vista. A parábola fala também sobre o valor da troca de experiências e do trabalho em equipe para se atingir um objetivo. Compreender o todo a partir da análise das partes e da interação entre estas é outra lição deixada pela fábula.

Ilustração de Barbara McClintock, para o livro “Leave your sleep”.
O conto “Os cegos e o elefante”
Há muitos anos vivia na Índia um rei sábio e muito culto. Já havia lido todos os livros de seu reino. Seus conhecimentos eram numerosos como os grãos de areia do Rio Ganges. Muitos súditos e ministros, para agradar o rei, também se aplicaram aos estudos e às leituras dos velhos livros. Mas viviam disputando entre si quem era o mais conhecedor, inteligente e sábio. Cada um se arvorava em ser o dono da verdade e menosprezava os demais.
O rei se entristecia com essa rivalidade intelectual. Resolveu, então, dar-lhes uma lição. Chamou-os todos para que presenciassem uma cena no palácio. Bem no centro da grande sala do trono estavam alguns belos elefantes. O rei ordenou que os soldados deixassem entrar um grupo de cegos de nascença.
Obedecendo às ordens reais, os soldados conduziram os cegos para os elefantes e, guiando-lhes as mãos, mostraram-lhes os animais. Um dos cegos agarrou a perna de um elefante; o outro segurou a cauda; outro tocou a barriga; outro, as costas; outro apalpou as orelhas; outro, a presa; outro, a tromba.
O rei pediu que cada um examinasse bem, com as mãos, a parte que lhe cabia. Em seguida, mandou-os vir à sua presença e perguntou-lhes:
– Com que se parece um elefante?
Começou uma discussão acalorada entre os cegos.
Aquele que agarrou a perna respondeu: – O elefante é como uma coluna roliça e pesada.
– Errado! – interferiu o cego que segurou o rabo. – O elefante é tal qual uma vassoura de cabo maleável.
– Absurdo! – gritou aquele que tocou a barriga. – É uma parede curva e tem a pele semelhante a um tambor.
– Vocês não perceberam nada – desdenhou o cego que tocou as costas. – O elefante parece-se com uma mesa abaulada e muito alta.
– Nada disso! – resmungou o que tinha apalpado as orelhas. – É como uma bandeira arredondada e muito grossa que não para de tremular.
– Pois eu não concordo com nenhum de vocês – falou alto o cego que examinara a presa. – Ele é comprido, grosso e pontiagudo, forte e rígido como os chifres.
– Lamento dizer que todos vocês estão errados – disse com prepotência o que tinha segurado a tromba. – O elefante é como a serpente, mas flutua no ar.
O rei se divertiu com as respostas e, virando-se para seus súditos e ministros, disse-lhes:
– Viram? Cada um deles disse a sua verdade. E nenhuma delas responde corretamente a minha pergunta. Mas se juntarmos todas as respostas poderemos conhecer a grande verdade. Assim são vocês: cada um tem a sua parcela de verdade. Se souberem ouvir e compreender o outro e se observarem o mundo de diferentes ângulos, chegarão ao conhecimento e à sabedoria.
(Conto do budismo chinês. Extraído de DOMINGUES, Joelza Ester. História em Documento. Imagem e texto. São Paulo: FTD, 2012.)

Os cegos e o elefante, relevo feito na parede, Tailândia.
Os cegos e o elefante em poesia
O poeta norte-americano John Godfrey Saxe (1816-1887) ficou conhecido por recontar a fábula em poesia. Os alunos vão gostar de ler em voz alta e interpretar os versos, uma atividade excelente para desenvolver a oralidade. A tradução abaixo foi extraída do site Recanto das Letras.
– I –
Seis homens sábios do Industão,
Uma terra bem distante,
Ouviram, atentos, os boatos
Sobre um animal gigante
E apesar de serem cegos
Foram ver o elefante.
– II –
O primeiro passou as mãos
Sobre a barriga dura e falha,
E explicou bem confiante:
“Minha análise não falha:
Esse tal de elefante
Mais parece uma muralha!”
– III –
O segundo tocou as presas
E proclamou com confiança:
“Este tal de elefante
Não é brincadeira para criança
Tão pontudo e afiado
Mais parece uma lança!”
– IV –
O terceiro chegou à tromba
Elogiando a bela obra:
“…tão comprido, e gelado,
Vejam só, ele até dobra!
O flexível elefante
Mais parece uma cobra!”
– V –
O quarto sentiu a pata
E teve logo a recompensa
Percebendo as semelhanças
Anunciou com indiferença:
“Este animal mais se parece
Com uma árvore imensa!”
– VI –
O quinto tocou as orelhas
E sugeriu, conservador:
“Mas que belo utensílio
Nestas tardes de calor,
Este tal de elefante,
Mais parece um abanador!”
– VII –
O sexto subiu às costas
Despencando na outra borda
E pendurado ao rabo, disse:
“Não sei se alguém discorda,
Mas para mim esse animal
Mais se parece com uma corda!”
– VIII –
E então os sábios homens
Discutiram inconformados
Cada um com seu discurso
Sem ouvir os outros lados
Pois estavam certos, em partes.
Mas completamente errados!
Trabalhando o conto com os alunos
Criamos 7 dinâmicas para trabalhar a parábola Os Cegos e o Elefante e suas conexões com a prática investigativa do historiador. Veja esse recurso didático no site STUD HISTÓRIA. Clique no botão abaixo para ser encaminhado ao recurso.
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Um espetáculo o conteúdo desse site, estou adorando. Baixei alguns videos pra passar para os meus alunos.
Oi Rosana, obrigada! Suas palavras são estimulantes!
Realmente muito interessante e valoroso este site. Obrigado por disponibiliza-lo.
[…] “Os Cegos e o Elefante”: um conto para a primeira aula de História. […]
EXCELENTE DICA !!! Obrigado professora. Veio em um momento muito importante para mim que estou lecionando para a EJA da V à VIII Fase na Escola Municipal Rosa Carelli da Costa, município de Piraí, Sul Fluminense do Estado do Rio de Janeiro. Parabéns pelo site e por tudo que ele proporciona. Muito bom. Sucessos para você.
Bom saber que estamos contribuindo com seu trabalho. Essa é nossa intenção. Um abraço!
Excelente dica. Parabéns pelo belíssimo trabalho… Me ajudou bastante.
Amei! Parabéns!
Joelza, esse conto é do budismo chinês?
Olá Allysson, contos populares sempre tem naturezas diversas. Já encontrei referências sobre esse conto em especialistas da cultura chinesa, indiana e até persa.
Amei esse blog. Me ajudando bastante
Que bom Franciene. Essa é a nossa intenção: produzir material de qualidade que contribua para o trabalho do professor e traga inspiração ao estudo e conhecimento. Continue nos visitando. Um abraço.
Boa tarde, site inovador com excelentes textos e sugestões de atividades. obrigada por compartilhar conosco.