Julgamento simulado não é novidade no ensino de História. Aliás, História é talvez a disciplina que melhor se presta para isso. Pense na infinidade de personagens para levar ao banco de réus: Galileu, Martinho Lutero, Getúlio Vargas, Napoleão Bonaparte, Gengis Khan, D. Pedro I, Zumbi, Raposo Tavares… além de episódios históricos polêmicos e grupos sociais antagônicos: o período do Terror, as Cruzadas, o Holocausto, senhores feudais x servos, traficantes x escravizados.
Uma simulação de julgamento é um julgamento hipotético que aborda personagens ou eventos históricos e, semelhante a um debate, oferece aos alunos a oportunidade de trabalharem juntos para interpretar fontes primárias e secundárias e usar evidências textuais para elaborar argumentos.
“As atividades de júri simulado têm muito potencial para propiciar aos estudantes a vivência da prática científica, no sentido de debater, posicionar-se e defender ideias, visto que a Ciência é construída por meio da argumentação. Esta habilidade também é importante para o desenvolvimento da cidadania dos estudantes, pois a capacidade argumentativa é crucial para o exercício da cidadania nos espaços públicos de poder.” (MELO, 2019).
Importante salientar: a construção de argumentos deve ser sobre fatos baseados em documentos históricos.
1. Fontes primárias: ler e pensar como um historiador
A importância do uso de documentos, em especial fontes primárias, é consenso entre os professores de História. Para atender essa demanda, os livros didáticos estão recheados deles e acompanhados de questões. Mas, sejamos honestos: os documentos (incluindo as imagens) servem, quase sempre para reforçar o tema ensinado. Pouco acrescentam e raramente problematizam. Funcionam como “prova da verdade”.
Isso não ajuda a construir argumentos para um tribunal simulado, e está longe de desenvolver o pensamento crítico do estudante.
Como fazer que os alunos pensem e leiam como historiadores? Não se trata de transformá-los em mini-historiadores, mas ensinar-lhes a perceber perspectivas diferentes em tópicos semelhantes, a discernir contextos, identificar interesses, empregar a dúvida, distinguir fato de opinião e corroborar as evidências.
Ensinar o aluno a pensar e ler como historiador, no entanto, é possível, e um dos meios para isso é a simulação de julgamento, o tribunal da História.
2. Julgamento simulado: uma estratégia de investigação histórica
A metodologia do “Tribunal da História” ou “Júri Simulado” é uma metodologia ativa que transforma a sala de aula em uma comunidade de investigação histórica. Em vez de apenas receber informações, o aluno assume o papel de historiador-detetive, analisando evidências e construindo argumentos fundamentados.
Os julgamentos simulados exigem que os alunos leiam os textos com ainda mais atenção do que o normal, a fim de analisá-los, manipulá-los, identificar o que está presente e o que não está, e então tentar compreendê-los e utilizá-los para atingir os objetivos de acusação ou defesa.
Um julgamento simulado não se resume a fazer com que os alunos respondam a perguntas. Trata-se de fazê-los descobrir as respostas para perguntas que você não fez e, em seguida, incentivá-los a elaborar as perguntas para que outra pessoa as responda. Além de identificar as evidências existentes, o aluno deve considerar as lacunas, transformando-as em grandes brechas que, talvez, revelem outro aspecto de um caso.
Os julgamentos simulados são como dramatizações com documentos. Os alunos precisam analisar um texto através das lentes de suas próprias afirmações e perspectivas.
Em resumo, os julgamentos simulados incorporam tudo o que os professores de História buscam — afirmação, contra-afirmação, seleção de evidências, uso de evidências, perspectiva, interesses ou intenções ocultas ou declaradas — e apresentam tudo isso de forma instigante.
3. Fundamentos Pedagógicos
Os fundamentos pedagógicos do júri simulado estão ancorados no sócio-interacionismo de Vygotsky e na pedagogia da autonomia de Paulo Freire, transformando a sala de aula em um laboratório social.
Protagonismo do aluno: o estudante deixa de ser um agente passivo para participar efetivamente da construção do conhecimento. Ao assumir um papel (advogado, juiz ou jurado), ele precisa “viver” o conteúdo, o que aumenta o engajamento, a construção dos argumentos e a retenção do aprendizado.
Pensamento crítico e argumentativo: o júri exige que o aluno não apenas memorize fatos, mas os utilize como evidência. Ele aprende a estruturar sua retórica ao construir a argumentação. Ao estudar o lado oposto para antecipar ataques, o estudante desenvolve a compreensão não existe uma “verdade única” e fechada, mas sim diferentes interpretações e múltiplas vozes.
Pensamento Histórico: no ensino de história, o julgamento simulado é uma ferramenta poderosa para desenvolver o que o historiador Jörn Rüsen define como consciência histórica e aprendizagem histórica. No júri simulado, o aluno é colocado diante de um dilema real do passado, que levou a uma escolha e influiu no presente. Isso transforma o conhecimento histórico em uma ferramenta de orientação para agir e julgar no mundo atual.
Educação para a cidadania e empatia: ao defender um ponto de vista com o qual pessoalmente discorda, o aluno exercita a empatia e entende os mecanismos democráticos do debate. Além disso, essa metodologia estabelece regras simulares ao rito judiciário ensinando o aluno a respeitar o tempo de fala alheio, a escuta ativa e as intervenções respeitosas.
4. Armadilhas do Tribunal da História: como evitá-las
Em primeiro lugar, para que o julgamento simulado tenha significado, ele precisa vir depois do aprendizado sobre o evento maior e o contexto histórico mais amplo. Os alunos precisam ter um conhecimento básico do conteúdo histórico que vão julgar.
O professor deve estar atento, também, para que a atividade não se torne um “teatro de culpados e acusações”; seu papel é de mediador e tem por foco a problematização e não o veredito moral. Para isso, o julgamento deve fugir de três armadilhas perigosas: anacronismo, dicotomia e maniqueísmo.
O anacronismo é um dos erros mais comuns no ensino de História. Para Marc Bloch, o anacronismo é o “pecado mais imperdoável” do historiador, pois impede a compreensão real das motivações humanas de cada época. Em termos simples, anacronismo é o ato de “tirar algo de seu tempo e colocá-lo em outro”. No contexto de um júri simulado, ocorre quando julgamos personagens do passado utilizando os valores, leis ou a moral que temos hoje.
Para evitar o anacronismo, a contextualização deve ser rigorosa. Os alunos devem usar documentos primários (cartas, jornais, decretos, discursos, leis). Se o tema é escravidão no Brasil Império, os advogados de defesa devem usar as leis de 1850, e a acusação deve usar os argumentos abolicionistas daquela época (como o Direito Natural) e não a Declaração de Direitos Humanos de 1948.
A dicotomia é um erro de estrutura, é reduzir uma avaliação ou julgamento a duas opções: “isto ou aquilo”, “culpado ou inocente”. O julgamento deve focar em “Quais eram os interesses em disputa?”. Destaque a complexidade da situação, ajude os alunos a perceberem nuances, contradições e múltiplos resultados.
O corpo de jurados (ou juízes) não precisa dar um veredito de “Culpado” ou “Inocente”. Eles podem redigir um parecer histórico que aponte ganhos e perdas de um processo. Por exemplo, em vez de decidir se a Revolução Francesa foi “Certa ou Errada”, o tribunal pode analisar quais grupos sociais foram beneficiados e quais foram sacrificados.
O maniqueísmo é um erro de julgamento moral. É a tendência de dividir o mundo entre “Forças do Bem” e “Forças do Mal”. É uma visão infantilizada que ignora a complexidade humana. No tribunal, o risco é transformar o personagem histórico em um “vilão de desenho animado” ou em um “santo intocável”.
Por exemplo, no julgamento do bandeirante Raposo Tavares, o maniqueísmo o veria como um “herói desbravador” ou um “genocida de indígenas”. A abordagem histórica analisa as tensões entre a expansão econômica da colônia e a destruição das missões indígenas, tirando o foco do “caráter” do indivíduo e colocando-o na dinâmica do período.
Para evitar o maniqueísmo, exija que a defesa e a acusação usem fontes históricas reais (cartas, leis, discursos). Isso força o aluno a entender a lógica do “outro”, mesmo que não concorde com ela. Oriente os alunos a se concentrarem nos interesses e contextos. Explique que personagens históricos agem de acordo com a lógica de sua época, classe social e objetivos políticos.
Uma dica prática para fugir da dicotomia e do maniqueísmo é pedir que a equipe de acusação também aponte um ponto positivo do réu e a equipe de defesa reconheça um erro. Isso quebra a lógica binária e obriga os alunos a saírem do julgamento moral para entrarem na análise histórica.
Outra dica é pedir ao júri ou juiz(es) que não pronuncie o veredito apenas “culpado ou inocente”, mas que escreva um Parecer de Impacto Histórico, descrevendo as consequências das ações do réu para a sociedade da época.
5. Como realizar o Tribunal da História
Antes de levar a proposta à turma, o professor deve se preparar para esta dinâmica: definido o tema (personagem, fato histórico ou conflitos sociais), pesquise documentos históricos primários e secundários para sugerir aos alunos. Se os documentos estiverem disponíveis na Internet anote os links. Inclua imagens e suas respectivas identificações (data, autor, tema retratado).
Reflita sobre as possíveis dicotomias, maniqueísmos e anacronismo que o tema possa suscitar e alerte os alunos para fugirem dessas armadilhas. Tenha claro qual é o objetivo do julgamento.
Definidos todos esses elementos prévios, a estrutura básica do Tribunal da História é:
- Classe dividida em 3 grupos: advogados de defesa, advogados de acusação e jurados (o juiz é o professor).
- As partes (defesa e acusação) podem apresentar testemunhas (elas devem ser preparadas).
- Orientação do professor para os “advogados” sobre a pesquisa histórica (indicar fatos e documentos para pesquisar, alertar sobre “armadilhas”).
- Estabelecer um código de conduta: proibição de ofensas, obrigatório argumentos baseados em fatos históricos e documentos, uso de linguagem formal, respeito ao tempo de fala de cada parte.
- Delimitar o tempo do julgamento e a intervenção de cada parte.
Sugestão para 40 minutos de julgamento simulado:
- Apresentação dos argumentos: 6 minutos (3 minutos para cada parte).
- Interrogatório das testemunhas: 12 minutos (6 minutos para cada parte).
- Acareação e perguntas: 8 minutos (4 minutos para cada parte).
- Réplica final: 6 minutos (3 minutos para cada parte).
- Veredito do Júri: 5 minutos.
- Conclusão e avaliação: 3 minutos (fechamento do professor).
6. Exemplos de personagens para o Tribunal da História
1. Maximilien Robespierre (Revolução Francesa)
- Dicotomia a evitar: “Democrata Radical” x “Monstro Sanguinário”.
- Foco Histórico: A tensão entre a defesa da República/Igualdade e a suspensão das liberdades civis (O Terror) em um contexto de guerra total.
- Sugestões de fontes:
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789)
- Discurso de Robespierre sobre a Virtude e o Terror (1794)
2. Napoleão Bonaparte
- Dicotomia a evitar: “Libertador da Europa” x “Tirano Opressor”.
- Foco Histórico: A consolidação dos ideais burgueses (Código Civil) x Imperialismo e censura.
- Sugestões de fontes:
- Código Civil Napoleônico (1804) – Análise no portal da Fondation Napoléon.
- “A Coroação de Napoleão” , pintura de Jacques-Louis David – Análise iconográfica.
3. Getúlio Vargas (Era Vargas)
- Dicotomia a evitar: “Pai dos Pobres” x “Ditador Fascista”.
- Foco Histórico: A modernização trabalhista e industrial x a repressão política do Estado Novo e o uso da propaganda (DIP).
- Sugestões de Fontes:
- Decreto-Lei da CLT (1943)
- Cartas e Diários de Vargas – Acervo digital do CPDOC/FGV:
4. Dom Pedro I (Independência e Primeiro Reinado)
- Dicotomia a evitar: “Herói Libertador” x “Absolutista Autoritário”.
- Foco Histórico: A ruptura com Portugal x a imposição da Constituição de 1824 (Poder Moderador) e a crise de popularidade.
- Sugestões de Fontes:
- Constituição de 1824
- Cartas de D. Pedro I a Dom João VI
5. Virgulino Ferreira, o “Lampião” (Cangaço)
- Dicotomia a evitar: “Herói do Sertão” x “Bandido Cruel”.
- Foco Histórico: O fenômeno do cangaço como resposta à ausência do Estado e força do coronelismo, sem ignorar a violência contra populações locais.
- Sugestões de Fontes:
- Imagens de Benjamin Abrahão (1936) – Fotografias e filmagens no acervo do Instituto Moreira Salles.
- Entrevistas e depoimentos de coiteiros e vítimas – Pesquisas disponíveis na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), e vídeos no YouTube.
7. Como avaliar o Tribunal da História
Em primeiro lugar, deixe claro aos alunos que o veredito não vale nota. A nota não depende de “vencer” o caso ou de ser “declarado inocente”, mas sim da qualidade técnica da argumentação histórica.
Use este momento para validar se os alunos atingiram os objetivos, por exemplo:
- Eles usaram as fontes sugeridas ou apenas opiniões?
- Eles conseguiram separar o “caráter” do homem das estruturas sociais da época?
- Eles perceberam as contradições e tensões da época?
Uma sugestão de critérios para avaliação está na tabela abaixo, com pontuação de 0 a 5.
Veja no site STUD HISTÓRIA uma dinâmica completa de “Tribunal da História” com o tema Revolução Industrial. As partes oponentes são, de um lado, os industriais, capitalistas e burgueses ricos, e de outro, a classe operária. O foco é o avanço tecnológico, a jornada de trabalho, o trabalho feminino e infantil.
O recurso traz documentos históricos para os alunos-advogados preparem a defesa e a acusação, e sugestões de perguntas para as réplicas.
ACESSAR
Fonte
- MELO, Viviane Florentino de. O uso de júri simulado como metodologia de ensino ativa, Nova Escola, 4/7/2019.
- TAVARES, Priscilla de Albuquerque. Metodologias Ativas. FGV-EESP, 28/01/2019.
- ANDRADE, Breno Gontijo et ali. Empatia Histórica em sala de aula: relato e análise de uma prática complementar de se ensinar/aprender a História. História & Ensino, Londrina, v. 2, n. 17, p. 257-282, jul./dez. 2011.
- HARCOURT, Michael. Simulações de julgamentos na aula de história? [em inglês]. The Historical Thinking Project.
- EDMONDSON, Dylan at ali. Alfabetização criteriosa: simulações de julgamentos, leitura e escrita baseadas em evidências na História Mundial [em inglês]. FCSS (Florida Council for the Social Studies).
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