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A grande perseguição de Diocleciano aos cristãos

23 de fevereiro de 303

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Em 23 de fevereiro de 303, o imperador romano Diocleciano baixou o edital que deu início à Grande Perseguição aos cristãos. O edital ordenava a destruição de todos livros e edifícios de culto cristão, e a extinção de cargos, dignidades e dos direitos de cidadania romana a quem professasse a fé cristã. Decretos posteriores exigiram que sacerdotes e fiéis rendessem cultos e sacrifícios ao imperador e aos deuses romanos sob pena de prisão, tortura e morte.

Milhares de cristãos foram massacrados, especialmente nas províncias orientais. Muitos mártires dessa perseguição foram, posteriormente, canonizados pela Igreja como os oficiais do exército romano São Vitor, que servia no exército em Tebas, e São Jorge, da legião da Lídia.

  • BNCC: 6° ano. Habilidades: EF06HI14, EF06HI15

Ambiguidade das autoridades imperiais, séc. I e II

A perseguição de Diocleciano não foi a primeira sofrida pelos cristãos. Nos dois primeiros séculos, os cristãos eram vistos como criaturas estranhas que rejeitavam festivais públicos, criticavam as tradições e suspeitos de uma “sociedade secreta”.

Para a maioria dos pagãos, os cristãos, esses seres híbridos (…) eram enigmas, isto é, monstros. (…) Os cristãos faziam parte do Império, mas sem os mesmos costumes, evitavam conviver com os outros, não participavam das festas ou dos espetáculos, não veneravam os deuses nacionais, seu Deus não pertencia a determinada nação, diferente do deus dos judeus. Além de querer se isolar como uma legítima diferença nacional, esse Deus pretendia superar os deuses nacionais. (VEYNE, 2009)

A hostilidade popular precedeu as perseguições oficiais. Nos dois primeiros séculos, nenhum imperador emitiu leis gerais contra a fé cristã ou a sua Igreja.

A narrativa de que o imperador Nero deu início à onda persecutória aos cristãos, culpando-os pelo incêndio de Roma em 64 d.C., não se sustenta. A punição aos cristãos nesse caso restringiu-se à população nos limites da cidade de Roma. Depois disso, seguiram-se décadas de relativa paz.

As perseguições que foram realizadas durante esse período foram ordenadas por governos locais. Plínio, o Jovem quando foi enviado para a Bitínia (Ásia Menor) pelo imperador Trajano, entre 109 e 111, defrontou-se com denúncias anônimas contra pessoas acusadas de serem cristãs. A fé cristã era, então proibida e passível de punição capital. Para se certificar que as denúncias eram verdadeiras, Plínio exigia dos acusados que realizassem uma exortação aos deuses, fizessem libações de vinho, queima de incenso e vilipendiassem o nome de Cristo. Feitos os ritos, os suspeitos eram liberados e a ordem estabelecida. Foram executados aqueles que persistiram em se declararem cristãos – comportamento condenável para Plínio que justificou em seu relatório: “a obstinação  e a firme perversidade mereciam ser punidas” (SILVA, 2021).

“Os cristãos eram um grupo ilegal perante a lei romana, cuja condenação só poderia advir de uma acusação formal; entretanto, eles não recebiam o tratamento de criminosos comuns, nem deveriam ser investigados pelas autoridades”, destaca Silva. Isso denota o comportamento ambíguo das autoridades imperiais perante os cristãos: não perseguiam, mas puniam.

As perseguições do séc. III

No terceiro século, a tendência mudou. Frente às múltiplas questões que marcaram o período – crise do escravismo, tensões nas fronteiras, migração maciça de germânicos, crise econômica e financeira, anarquia militar – há uma forte preocupação em se buscar a manutenção de uma unidade cultural em torno os ritos religiosos (pietas), do culto imperial e, por conseguinte, da segurança da res publica.

Os imperadores tornaram-se mais ativos e os funcionários do governo começaram a perseguir ativamente os cristãos, em vez de simplesmente responder à vontade da multidão. Seguiram-se as ondas persecutórias ordenadas pelo próprios imperadores como Décio (249-251), Valeriano (257-260) e Diocleciano (284-305 e a Grande Perseguição de 303-311).

Interessante observar que as perseguições foram motivadas não pela recusa em prestar homenagem aos imperadores, mas pelos cristãos se negarem a realizar sacrifícios aos deuses nacionais.

Cristãos: os inimigos do Império Romano

Em 284 quando Diocleciano ascendeu ao poder imperial, as crises do século III atingiam  seu clímax com revoltas e guerras civis concomitantes a pressão dos povos germânicos nas fronteiras.

As desordens enfraqueciam o poder imperial e Diocleciano anunciou-se como um restaurador da glória do passado romano.

Diocleciano buscou consubstanciar uma legislação de pureza moral ao Império Romano, considerando que o respeito às veneráveis e puras normas das leis romanas fariam com que os deuses tradicionais fossem indulgentes com Roma ao ‘virem que todos os súditos do imperador levam uma vida piedosa, devota, tranquila e pura’ (SILVA, 2021).

Nesse cenário, a religião cristã era um sério inconveniente que ameaçava a unidade e coesão do império, e sua própria sobrevivência. Os discursos anticristãos ganham força entre as elites imperiais, filósofos e eruditos. As críticas se voltam contra a fé cristã que cultuava um Deus Supremo e negava o culto solar e a divindade do imperador. O cristianismo afastava as pessoas do culto aos deuses protetores de Roma e, com isso, atraíam sua ira contra o Império Romano.

Assim, cristãos (e também judeus e maniqueístas) que se recusavam a sacrificar aos deuses romanos eram vistos como ameaças ao Estado.

Um incidente teria precipitado a perseguição movida por Diocleciano. Em 299, o imperador ordenava a realização de rituais divinatórios a partir das víceras de animais sacrificados, contudo alguns presentes no local eram cristãos e se benzerem durante o ritual como um gesto de reprovação. Os sacerdotes, então, comunicaram ao imperador que os sacrifícios não deram certo devido a presença de cristãos. Diocleciano ordenou que todos os presentes na residência imperial deveriam realizar sacrifícios, inclusive membros do exército. Os que se negaram, mesmo sob tortura, foram expulsos do serviço civil ou militar. Oficiais e soldados cristãos foram expulsos do exército romano.

A Grande Perseguição (303-311)

O dia 23 de fevereiro de 303, quando se comemorava o festival da Terminália (em honra do deus Término, divindade protetora das fronteiras) foi escolhido para dar início àquela que seria conhecida como a Grande Perseguição, a última ação sistemática contra os cristãos na Antiguidade.

Diocleciano lançou quatro editos persecutórios. No primeiro, decretou a apreensão de obras e escrituras cristãs, destruição de igrejas e a perda de direitos aos cidadãos cristãos. No segundo, determinou a prisão dos membros da hierarquia clerical (bispos, diáconos e clérigos). No terceiro, exigiu a realização de sacrifícios aos deuses para a libertação dos cristãos presos. No quarto, ordenou a execução dos que não renunciasse à fé cristã.

A onda persecutória atingiu com mais força as dioceses do Oriente (Egito, Palestina e Ásia Menor) e do norte da África, onde historicamente havia mais comunidades cristãs. Nas demais províncias do Ocidente, a religião cristã tinha pouca penetração, como no caso da Gália e da Britânia. Na Ásia Menor e no Egito foram executados quarenta e sete cristãos.

Mesmo com a abdicação de Diocleciano em 305, a perseguição permaneceu durante o governo da Segunda Tetrarquia, formada por Galério e Constâncio Cloro, como augustos, e Maximino Daia e Severo, como césares.

Em 306, Constantino foi aclamado imperador, e revogou os editos de perseguição. Pouco depois, Maxêncio foi proclamado imperador em Roma e, também rescindiu os editos. A perseguição foi oficialmente encerrada em 30 de abril de 311 pelo Edito de Galério, por reconhecer o insucesso das medidas.

Depois da Grande Perseguição

O Edito de Galério autorizava os cristãos a retomarem suas práticas religiosas e locais de culto desde que ele orassem “a seu Deus por nossa saúde, pela da República e por sua própria, para que a República permaneça incólume em todo o seu território”. Com isso, o Deus cristão passou a ser considerado uma divindades protetora de Roma, e a religião cristã tornou-se um culto tolerado pelas autoridades. Formou-se a base para as relações que os cristãos comporiam com o poder imperial, principalmente entre as lideranças da Igreja com o imperador Constantino, após o Concílio de Niceia (325).

Em 313, o Edito de Milão, de Constantino, tornou o cristianismo uma religião permitida e favorecida pelos imperadores romanos. “A partir de Constantino, houve uma progressiva aproximação entre o poder imperial romano e a Igreja cristã, com a observância da distinção entre a fé pessoal dos imperadores e sua ação política sobre a população cristã e pagã” (SILVA, 2021).

Duas religiões muito diferentes

O confronto entre romanos e cristãos não foi somente o confronto entre duas religiões muito diferentes, mas de formas diferentes de se relacionar com o sagrado, e que destoava de outros povos. O Império Romano era formado por diversos povos que nunca foram proibidos de realizassem seus ritos e terem seus locais de adoração.

“A concepção de religião que dominou toda a Antiguidade foi bem pacífica: cada povo tinha seus deuses nacionais e possuía esse direito, inclusive os judeus (…); os deuses do paganismo não eram deuses ciumentos. Quando se estava em outras terras (por exemplo, no caso dos militares romanos), era prudente venerar o deus local com um nome bárbaro e consagrar seu voto a Mars Halamar ou Mars Caturix. Todos esses deuses eram, sem dúvida, verdadeiros: simbolizavam os deuses do país, desconhecidos no estrangeiros. (…) Pensava-se, em geral, que os deuses dos diferentes povos eram todos verdadeiros, mais ou menos os mesmos com nomes diferentes.” (VEYNE, 2009).

Os romanos absorveram deuses, costumes e ritos de outros povos, ou mesmo trocaram de religião sem que isso causasse estranhamento. A religião não era uma relação de consciência a consciência, como ocorria entre os cristãos. O cristianismo era intolerante às absorções de outros cultos, qualquer interferência religiosa seria uma agressão a identidade cristã.

O cristianismo era uma religião de salvação (ideia incompreensível para os romanos) e seus fiéis acreditavam que dela dependeria a sua vida eterna. Denominavam-se “cristãos” e isso era sua própria identidade, sem limites territoriais e sequer terrenos (“meu Reino não é desse mundo”). Ser “cristão” vinha primeiro, e depois, talvez, a ideia de ser romano, sírio, persa etc.

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