“Dentes de Waterloo”: dentaduras com dentes dos soldados mortos em Waterloo

17 de junho de 2021

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Horas depois da célebre batalha de Waterloo (junho de 1815), com a noite chegando, uma multidão sinistra ocupou o campo onde jaziam 50.000 soldados mortos ou morrendo. Na escuridão, aquelas pessoas passavam de cadáver em cadáver despojando-os de tudo de valor que possuíssem, incluindo os dentes da frente. Eles seriam vendidos aos dentistas para fabricar próteses e dentaduras.

Os catadores de dentes existiam há muito tempo. Eles seguiam os exércitos, avançando sobre os cadáveres assim que os vivos deixavam o campo. Os mortos eram, na sua maioria, jovens e com dentes saudáveis. Os dentes da frente eram arrancados e despachados em barris para países da Europa e para os Estados Unidos. Em 1819, o dentista americano Levi Spear Parmly escreveu que tinha em sua posse “milhares de dentes extraídos de corpos de todas as idades que caíram em batalha”.

Prótese dentária encontrada em cadáver do século XIX que morreu entre 36 e 45 anos de idade. Ele perdeu seus dentes mas era rico o suficiente para comprar uma dentadura.

A demanda por dentaduras

No início do século XIX, a odontologia era uma especialidade médica incipiente mas com forte procura pelos clientes ricos.  O consumo de açúcar entre os aristocratas aumentara muito e, com ele, as cáries, o tártaro, a gengivite e outros problemas que só agravavam com a falta de higiene bucal. O resultado eram dentes podres e a única solução conhecida era arrancá-los.

Sem dentes, o rosto murchava e a pessoa ficava parecendo velha. Além disso, era difícil falar de forma inteligível. A procura por próteses e dentaduras cresceu. Seus fabricantes eram profissionais de diferentes áreas: químicos, joalheiros, fabricantes de perucas, ferreiros e artesãos de marfim.

A base da dentadura era de marfim de hipopótamo ou morsa. Os dentes podiam ser de marfim ou dentes humanos fixados na base, o que aumentava muito o preço. Na década de 1780, uma dentadura de marfim com dentes humanos poderia custar mais de £100 em Londres, e levava pelo menos seis semanas para ficar pronta.

Fosse com dentes humanos ou artificiais, a dentadura estava fora do alcance da maioria das pessoas. Somente os ricos podiam pagar por um bom conjunto de dentaduras.

Dentadura inteiramente de marfim (à esquerda) e com dentes frontais humanos (à direita). Ambas têm a parte superior e inferior unidas por molas de arame. Engenhoso para a época, mas provavelmente muito desconfortável de usar, desajeitado para comer e propenso a cair facilmente.

Os “dentes de Waterloo”

Dentes humanos eram mais desejáveis e também os mais difíceis de se encontrar. Desde a Idade Média, os pobres vendiam seus dentes como um meio de ganhar dinheiro. Seus dentes acabavam na boca dos ricos que podiam pagar por dentaduras e próteses. Mas o número de fornecedores “vivos” era pequeno.

Outra fonte eram os cadáveres cujos dentes eram arrancados pelos ladrões de túmulos. Porém, o fornecimento não era constante e nem sempre eram dentes saudáveis.

Por isso, em 1815, a notícia de milhares de mortos franceses, britânicos e prussianos espalhados nos campos de Waterloo foi extremamente atraente para os saqueadores. Eram milhares de corpos (e dentes!) reunidos em um mesmo lugar e ainda insepultos. Muitos soldados sobreviventes também se lançaram à extração de dentes dos companheiros para ganhar um dinheiro extra.

Não se sabe se os clientes dos dentistas tinham conhecimento da procedência dos dentes. O termo “dentes de Waterloo” foi cunhado recentemente.

Dentes frontais provenientes de Waterloo pendurados para venda. Eles teriam sido reunidos e classificados para fazer parecer que cada conjunto veio de um único corpo.

Os dentes dos mais pobres eram arrancados para o benefício de pacientes odontológicos mais ricos. Charge inglesa de Thomas Rowlandson, 1787.

Dentadura de ouro e marfim pertencente a um rei sem identificar seu proprietário.

As dentaduras de George Washington

Muito antes dos “dentes de Waterloo” inundarem o mercado, George Washington (1732-1799), primeiro presidente dos Estados Unidos, já usava dentaduras de dentes humanos.

Washington extraiu o primeiro dente aos 24 anos e acabou perdendo todos. Começou a usar dentadura aos 49 anos de idade e depois disso chegou a ter sete ou oito conjuntos de dentaduras.

Elas eram feitas de marfim de hipopótamo, latão e ouro, e tinham molas para forçá-las a abrir, bem como parafusos para mantê-las juntas. Os dentes eram humanos, provenientes de escravos. Segundo registros, em maio de 1784, Washington pagou a vários escravos não identificados 122 xelins por um total de nove dentes a serem implantados por um dentista francês residente nos Estados Unidos.

Quando ele assumiu a presidência, em 1789, consta que ele usava um conjunto especial de dentaduras feitas de marfim, latão e ouro feito para ele pelo dentista John Greenwood. De acordo com seus diários, as dentaduras desfiguravam sua boca e lhe causavam dor, para a qual ele tomava láudano, uma tintura a base de ópio. Em 4 março de 1793, seu discurso de posse na Câmara do Congresso, na Filadélfia, durou apenas dois minutos, consistindo de somente 135 palavras – o mais curto da história dos Estados Unidos. Possivelmente, devido a dor e desconforto que a dentadura lhe causava.

George Washington, presidente dos Estados Unidos entre 1789 e 1797 sofria dor e constrangimentos com sua dentadura.

Dentadura que teria pertencido a George Washington com dentes humanos.

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