Quando a expedição de Cristóvão Colombo, em 5 de dezembro de 1492, desembarcou em uma ilha montanhosa no mar do Caribe, com praias de água cristalina e vegetação tropical, começava uma nova etapa na história daquela região e o extermínio de sua população autóctone, os Taínos.
Os espanhóis tomaram posse para a Espanha batizando a ilha de Hispaniola (nome atual da ilha, hoje dividida em dois Estados soberanos: Haiti e República Dominicana).
Enquanto os espanhóis colonizavam o lado oriental com fazendas de gado e mão de obra escrava, a região ocidental da ilha servia de refúgio a piratas e corsários, principalmente franceses, que atacavam navios espanhóis que ali passavam rumo à Europa.
Em 1654, a presença francesa se firmou com a fundação de Petit-Goâve, a primeira cidade do que viria a ser a colônia de São Domingos (Saint-Domingue, em francês, atual Haiti).

A ilha de Hispaniola, é a segunda maior ilha do mar do Caribe depois de Cuba. Está dividida em dois Estados soberanos: República Dominicana e Haiti (antiga colônia de São Domingos).
São Domingos: a “Pérola das Antilhas”
Depois de uma experiência malsucedida com o cultivo de tabaco, os franceses estabeleceram, em São Domingos, os cultivos de índigo, café e cana-de-açúcar. O primeiro engenho de açúcar foi construído em 1685 e intensificou-se o tráfico de africanos escravizados.
Dezenas de milhares de escravizados africanos eram levados, anualmente, para as plantações de São Domingos. Por volta de 1790, São Domingos era a colônia francesa mais rica das Américas. Apelidada de “Pérola das Antilhas”, São Domingos era a maior joia da coroa mercantil da França imperial. Não era exagero: em 1789, essa pequena parte da ilha de Hispaniola produzia sozinha mais riqueza que todas as treze colônias inglesas da América do Norte juntas.
A prosperidade da colônia baseava-se em três pilares principais:
- Domínio do açúcar: São Domingos supria metade do açúcar consumido na Europa. O clima e o solo eram perfeitos, e a escala de produção era industrial.
- Monopólio do café: a colônia era responsável por cerca de 60% da produção mundial de café, tornando-se essencial para a nova cultura de cafeterias que surgia no Iluminismo europeu.
- Outros produtos: o índigo (corante azul para tecidos), o algodão e o cacau também eram exportados em quantidades massivas.
Tudo isso era sustentado por um sistema logístico impecável de irrigação, engenhos modernos para a época e uma mão de obra escravizada que era renovada constantemente devido à altíssima mortalidade.
Sustentando o luxo de Versalhes
A riqueza gerada em São Domingos era o motor que financiava o esplendor da França pré-revolucionária. Muitos aristocratas coloniais (chamados “Grandes Brancos”) eram, na verdade, membros da alta nobreza francesa que nunca pisaram na ilha. As rendas geradas pelas plantações pagavam os banquetes, as joias, as perucas e os figurinos caríssimos exibidos no Palácio de Versalhes.
Cidades francesas como Bordeaux e Nantes foram praticamente reconstruídas com o dinheiro de São Domingos. A arquitetura clássica, os teatros de ópera e os palacetes urbanos dessas cidades foram financiados pelo tráfico negreiro e pelo refino do açúcar colonial.
Cerca de um terço do comércio exterior da França dependia de São Domingos. Os impostos sobre essas trocas garantiam o funcionamento da máquina burocrática e militar do rei Luís XVI.
A importância de São Domingos era tanta que, durante as negociações de paz após a Guerra dos Sete Anos, a França preferiu ceder todo o território do Canadá à Inglaterra do que abrir mão de suas ilhas açucareiras, especialmente São Domingos (Tratado de Paris, 1763).
O luxo era tão grande que a capital da colônia, Cap-Français (hoje Cap-Haïtien), era chamada de “Paris das Antilhas”, com teatros que recebiam companhias de ópera europeias e lojas que vendiam as últimas modas de Paris assim que os navios aportavam.
Sociedade estratificada
Toda essa riqueza estava assentada em uma sociedade profundamente desigual e estratificada. Segundo o censo realizado pela França em 1788, a população de São Domingos era composta por esmagadora maioria de escravizados: 500.000 cativos, 32.000 brancos e 28.000 negros livres (incluindo ex-escravizados e mulatos), segundo Lynn Hunt.
Essa desproporção em que 90% da população era formada por escravizados, era um barril de pólvora social marcado por divisões rígidas.
No topo, estavam os chamados “Grandes Brancos” (Grands Blancs): a aristocracia colonial. Eram ricos proprietários de plantações de açúcar, oficiais de alta patente e funcionários do governo francês. Em geral, não residiam na colônia, embora viajassem constantemente para inspecionar suas propriedades deixadas aos cuidados de um procurador. Preferiam viver no luxo em Paris.
Embora estivessem no topo, os Grandes Brancos odiavam o exclusivo colonial (as leis francesas que os proibiam de comercializar com outras nações, como os Estados Unidos). Queriam autonomia política para mandar na ilha sem interferência da metrópole.
Abaixo deles, os “Pequenos Brancos” (Petits Blancs) eram artesãos, marinheiros, soldados, pequenos comerciantes e capatazes de plantações. Não tinham riqueza, mas se apegavam ferozmente ao seu privilégio racial. Odiavam os Affranchis, pois se sentiam ameaçados pela ascensão econômica de pessoas negras ou mestiças. Eram, muitas vezes, o grupo mais racista e violento na aplicação das leis de segregação.

Pirâmide social de São Domingos, colônia francesa no Caribe.
Os Affranchis, termo francês para “alforriados”, eram os negros, mulatos e mestiços que haviam conquistado a liberdade (ou já nascido livres). Constituíam uma posição intermediária e complexa na colônia de São Domingos. A cor de pele determinava sua posição social. Essa classificação era tão precisa que possuía 32 níveis diferentes, cada um com um nome próprio.
Alguns affranchis, especialmente os mestiços, tornaram-se ricos proprietários de terras. Chegaram a possuir cerca de um terço das propriedades e um quarto dos escravizados em São Domingos antes da revolução. Muitos recebiam educação militar ou intelectual. Mas eram discriminados como cidadãos de “segunda classe”. Não podiam exercer cargos públicos, sentar-se à mesa com brancos, portar armas, exercer certas profissões ou até usar certas roupas e carruagens luxuosas reservadas aos brancos.
Quando a notícia da Revolução Francesa chegou à colônia, os affranchis passaram a exigir a igualdade civil prometida pela Revolução Francesa (“liberdade, igualdade, fraternidade”). Diante da recusa dos brancos da ilha em conceder-lhes esses direitos, os Affranchis começaram a se rebelar, o que abriu caminho para a grande revolta dos escravizados em 1791.
Na base da pirâmide social, estavam os escravizados – uma massa humana explorada e vivendo sob condições subumanas.

“Affranchis” de São Domingos. Senhoras negras e uma serva, pintura de Agostino Brunias, c. 1789 (à esquerda). Um rico fazendeiro e sua esposa, gravura anônima de 1797 (à direita).
A brutalidade do trabalho escravo em São Domingos
Em São Domingos, existiam diversos tipos de plantações. Alguns plantadores produziam índigo, algodão e café; essas plantações eram de pequena escala e geralmente empregavam apenas 15 a 30 escravizados. As plantações mais valiosas eram as de açúcar, empregando em média 300 escravizados, sendo que a maior delas chegou a ter 1400. (No Brasil colonial, os grandes engenhos tinham em torno de 60 a 100 escravizados, e muito poucos ultrapassavam a marca de 150-200 cativos.)
Os relatos da época destacam a violência que os senhores de São Domingos tratavam seus escravos, maior do que a que ocorria em outras regiões da América. Alguns proprietários, profundamente endividados, concluíram que era mais vantajoso explorar seus escravos até a morte e importar substitutos do que fornecer-lhes alimentação, vestuário e cuidados médicos adequados.

Escravizado suspenso por um gancho de açougueiro, a cruel punição dada aos escravos rebeldes do Suriname no século XVIII. Gravura de William Blake, 1796.
A maioria dos escravizados vivia apenas alguns anos após sua chegada. Cerca de 5 a 10% morriam todos os anos, devido a doenças e excesso de trabalho, e ainda mais quando epidemias assolavam a colônia. O número de mortes superava o de nascimentos. A população da colônia só se manteve constante devido ao fluxo contínuo de pessoas escravizadas, segundo Dubois.
A violência e a exploração extremas motivaram diversas revoltas escravas e a fuga de milhares de cativos para as montanhas de São Domingos, formando quilombos.
Os quilombolas aterrorizavam os proprietários de escravos, atacando suas plantações, envenenando seus alimentos e água. Na década de 1750, o líder quilombola François Makandal organizou um exército de maroons, como eram chamados os negros fugitivos, promovendo várias rebeliões no noroeste de São Domingos.
Traído por um dos seus, que foi capturado e torturado até confessar, Makandal foi capturado e condenado à morte na fogueira (20 de janeiro de 1758). Conta a lenda que no momento que enquanto o fogo ardia, Makandal conseguiu se soltar transformando-se em uma besta alada e voou para um lugar seguro, razão pela qual os escravizaram exclamavam “Mackandal salvo!”.
As punições para os escravos fugitivos recapturados eram severas, como a remoção do tendão de Aquiles, a amputação de uma perna, a castração ou a morte por cães ferozes.

Quilombos existiram em todas as colônias americanas com trabalho escravo. Na gravura, Leonard Parkinson, líder quilombola, Jamaica, 1796. Gravura de Abraham Raimbach. Na legenda: Leonard Parinson, um capitão dos “maroons”.
Conclusão: no limite da exploração colonial
Fonte
- HUNT, Lynn; CENSER, Jack. “Escravidão e a Revolução Haitiana”. Liberdade, Igualdade, Fraternidade: Explorando a Revolução Francesa. Universidade George Mason e Projeto de História Social Americana, 2001.
- JAMES, C. L. R. Os Jacobinos Negros: Toussaint L’Overture e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2000.
- DUBOIS, Laurent. Os Vingadores do Novo Mundo. Niterói: Eduff, 2022.
- MOREL, Marco. A Revolução do Haiti e do Brasil escravista: o que não deve ser dito. Jundiaí, SP: Paco, 2017.
- FICK, Carolyn E. The Making of Haiti: The Saint Domingue Revolution from Below. Knoxville: The University of Tennessee Press, 2004.
- GEGGUS, David Patrick. Haitian Revolutionary Studies. Indiana University Press, 2002.





