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Batalha decisiva para a independência do Haiti

18 de novembro de 1803

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Em 18 de novembro de 1803, foi travada a batalha de Vertieres, a última da Revolução Haitiana em que os rebeldes haitianos liderados por Jean-Jacques Dessalines derrotaram o exército colonial francês comandado pelo general Rochambeau. Foi um golpe decisivo para o império colonial francês ainda que conservasse Martinica e Guadalupe, ambas sob o regime de exploração escravista.

A Revolução Haitiana (1791-1804) foi o primeiro movimento revolucionário da América Latina que culminou com a abolição da escravidão na colônia francesa  de São Domingo – a única rebelião escrava vitoriosa da história.

São Domingo: economia e sociedade

No final do século XVIII, as colônias francesas do Caribe produziam um terço da renda francesa. A mais importante era São Domingo por produzir 2/3 do açúcar mundial. Além disso, possuía 3.100 plantações de café, 3.100 de índigo, 789 de algodão, 673 de alimentos e quase 800 usinas de açúcar.

Sua população era fortemente estratificada. No topo estavam os brancos – europeus e crioulos (brancos nascidos na colônia); abaixo, os libertos e por último, a massa de escravos. Os primeiros estavam divididos em nobres proprietários de terras e ricos burgueses, e os médios e pequenos proprietários, artesãos, gerentes das plantações. A maioria dos grandes proprietários não residia na ilha, embora viajasse constantemente para inspecioná-las. Deixavam os negócios para um procurador que assumia todos poderes e deveres em troca de um alto salário e fazia qualquer coisa para manter a produção alta.

Os libertos gozavam de leis que lhes permitiam usar roupa “de brancos”, morar em determinados lugares ou acessar cargos públicos proibidos aos escravos, e ansiavam pela possibilidade de ascensão social. Muitos ingressavam no corpo militar especializado em perseguir quilombolas e escravos fugitivos.

A população escrava era dez vezes a dos brancos. Dois terços eram africanos importados e o restante nascido na ilha. Isso se devia à alta taxa de mortalidade entre os escravos que superava a taxa de natalidade, e também ao pequeno número de mulheres. A expectativa de vida não ultrapassava 15 anos entre os escravos.

Administração colonial

A administração colonial ficava a cargo de um governador-geral e um intendente nomeados pessoalmente pelo rei e frequentemente em desacordo com os proprietários de terras desejosos de maior autonomia.

As leis de monopólio provocavam muitas tensões entre colonos e governo. A maioria dos brancos e libertos detestava a administração colonial e isso levaria a alianças entre brancos e libertos contra a administração colonial.

Impactos da Revolução Francesa

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em agosto de 1789, causou polêmica em São Domingo: afinal, o princípio “todos os homens são livres e iguais” se estendia a toda população da colônia?

Os grandes proprietários viram uma oportunidade de se livrarem dos funcionários reais, abolirem as regulamentações comerciais e tornarem-se independentes. Os escravos se colocaram contra essa pretensão dos brancos temendo que, se houvesse independência, eles estariam completamente nas mãos de seus senhores e suas vidas seriam ainda mais difíceis.

Em 15 de maio de 1791, a Assembleia Nacional, em Paris, decidiu dar igualdade política aos libertos. Quando a notícia chegou a São Domingo, em 8 de julho, os brancos começaram a tramar sua reação.

1ª Fase da Revolução Haitiana (1789-1791)

Na noite de 14 de agosto de 1791, cerca de 200 escravos se reuniram para participar de uma cerimônia de vodu em Bois Caiman (Floresta dos Jacarés). Naquela mesma noite, os escravos começaram a matar seus senhores e incendiar plantações. A revolta se estendeu e continuou nos dias seguintes.

Em cerca de dez dias, os rebeldes tomaram o controle de toda a Província do Norte que estava em chamas, em uma revolta de escravos sem precedentes na história de São Domingo. Estima-se que pelo menos 40.000 negros se revoltaram dos 170.000 negros que viviam na província, queimando pelo menos 200 engenhos de açúcar e destruindo cerca de 1.200 plantações de café, afetando seriamente a economia da colônia francesa mais rica do continente americano.

Massacre dos brancos pelos escravos, gravura francesa de 1791.

Os escravos buscavam vingança contra seus senhores por meio de saques, estupros de mulheres brancas, tortura, mutilação e morte. Os longos anos de opressão dos fazendeiros geraram um ódio por todos os brancos, e a revolta foi marcada desde o início por extrema violência.

Finalmente, em 7 de novembro de 1791, as tropas francesas conseguiram capturar o líder negro Dutty Boukman e decapitá-lo, exibindo sua cabeça na cidade de Cap Haitien como lição para os outros negros.

Não adiantou. Em 21 de novembro tumultos ocorreram na capital com muitos libertos sendo massacrados pelos brancos, outros fugiram e formaram novas guerrilhas.

A luta não era, contudo, somente de escravos contra brancos, mas também de brancos monarquistas contra brancos republicanos. E ambos procuraram cooptar escravos e libertos para lutarem ao seu lado prometendo liberdade, cidadania francesa e plenos direitos. Além disso, britânicos e espanhóis também tinham interesse em tomar a ilha e entraram na luta.

2ª Fase da Revolução Haitiana (1793-1798)

Em setembro de 1793,  os britânicos invadiram São Domingo com a intenção de apoiar os monarquistas brancos.  Em fevereiro de 1794, a Convenção Nacional, em Paris, aboliu oficialmente a escravidão em todas as possessões ultramarinas francesas. Graças a isso, muitos negros se juntaram aos republicanos brancos.

Entre eles, Toussaint Louverture, ex-escravo que, em 25 de junho com 4.000 homens se juntou ao general Etienne Laveaux, governador-geral, para lutar pela República contra ingleses, espanhóis, monarquistas e mulatos.

A liderança de Louverture sobre os negros fortalece-se em diversos combates vitoriosos. Ele chegou a comandar um exército de 51.000 homens em que somente 3.000 eram brancos. Tinha o pleno domínio do norte da ilha, enquanto o sul estava sob controle do mulato André Rigaud.

Toussaint Louverture (1743-1803), considerado o maior revolucionário negro da América, foi líder da Revolução Haitiana. Era filho de africano escravizado e aprendeu francês, latim, geometria além dos conhecimentos medicinais transmitidos por seu pai.

3ª Fase da Revolução Haitiana (1799-1800)

Após a retirada definitiva dos britânicos em 1798, no ano seguinte começou uma guerra civil pelo controle total do Haiti entre o negro Toussaint Louverture que controlava o norte do país contra o mulato André Rigaud que controlava o sul.

Toussaint Louverture entrou em contato com o presidente norte-americano John Adams para negociar o restabelecimento do comércio entre o Haiti e os Estados Unidos que havia sido afetado e suspenso desde a cerimônia de Bois Caiman (agosto de 1791). Em troca, pediu ajuda militar e os Estados Unidos enviaram a fragata USS Generak Greene para apoiar as tropas de Louverture.

A ajuda norte-americana foi importante na ofensiva negra. O navio de guerra dos Estados Unidos  transportou os negros de Louverture do norte para a frente sul do país e bombardeou as posições das tropas de Rigaud.

A guerra terminou em julho de 1800. Rigaud fugiu para o exílio na França.

4ª Fase da Revolução Haitiana (1801-1804)

Napoleão Bonaparte governava, então, a França, como primeiro cônsul. A Revolução Haitiana além de afetar a economia francesa caminhava para a ruptura total dessa rica colônia. O plano de Napoleão era claro: restabelecer o domínio efetivo sobre  São Domingo, disputar o Caribe com os ingleses e criar um império colonial.

O Imperador francês enviou para a colônia seu cunhado, Charles Leclerc para depor Louverture e com a intenção secreta de restaurar a escravidão na ilha. Leclerc chegou em São Domingo em 29 de janeiro de 1802. Os combates iniciam pouco depois.

Em 7 de junho, Louverture foi capturado depois de lhe prometerem uma trégua para negociar a paz. Foi enviado para o exílio na França e aprisionado. Na prisão em Joux, Louverture faleceu de pneumonia em 7 de abril de 1803. Foi enterrado sem caixão em uma caverna debaixo da capela da prisão.

Na ilha, o desaparecimento de Louverture não levou à calma. A situação das tropas francesas foi piorando e as doenças tropicais – mais do que a guerrilha – provocaram grandes baixas entre os soldados.  O próprio comandante Charles Leclerc foi vitimado pelo vômito negro.

O ex-escravo Jean-Jacques Dessalines assumiu a liderança dos negros haitianos. As tropas francesas acabaram por capitular no dia 18 de novembro de 1803 em Vertieres, deixando Santo Domingo para sempre.

Em 1 de janeiro de 1804, Dessalines declarou oficialmente a independência de São Domingo, renomeando-o Haiti, palavra de origem indígena Arawak. Foi o primeiro Estado independente da América Latina, e o único governado por negros descendentes de escravos.

Estima-se que a revolução teria custado a vida de 200.000 escravos e libertos, 75.000 combatentes leais à França, 45.000 leais à Grã-Bretanha e 25.000 a 50.000 não-combatentes europeus ou crioulos.

A independência não foi reconhecida a princípio pelas potências externas. Em 1826, a França, sob o governo de Carlos X, exigiu que o Haiti pagasse uma indenização de 150 milhões de francos-ouro para reconhecer a independência da jovem república. Em 1838, o rei Luís Felipe reduziu essa dívida para 90 milhões de francos e foi totalmente paga.

O dia 18 de novembro tem sido celebrado desde então como o Dia da Vitória no Haiti.

 

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