Em 18 de novembro de 1803, foi travada a batalha de Vertières, a última da Revolução Haitiana em que os rebeldes haitianos liderados por Jean-Jacques Dessalines derrotaram o exército colonial francês comandado pelo general Rochambeau. Foi um golpe decisivo para o império colonial francês ainda que conservasse Martinica e Guadalupe, ambas sob o regime de exploração escravista.
A Revolução Haitiana (1791-1804) foi o primeiro movimento revolucionário da América Latina que culminou com a abolição da escravidão na colônia francesa de São Domingos – a única rebelião escrava vitoriosa da história.
Vertières: o último ato em 5 anos de guerra
A Revolução entrara em seu momento crucial. Toussaint Louverture, o líder haitiano, hoje considerado “Pai do Haiti” havia sido capturado pelos franceses e enviado prisioneiro para a França onde morreu de pneumonia em 7 de abril de 1803.
O ex-escravo Jean-Jacques Dessalines assumiu a liderança dos haitianos e enfrentou o exército francês em vitórias sucessivas. Em 18 de novembro de 1803 ele ordenou a captura do Forte Vertières, localizado em uma colina perto da cidade de Cap-Français, no norte de São Domingos. Os homens comandados por François Capois investiram quatro vezes contra os franceses enfrentando o fogo dos canhões do forte. Mesmo perdendo seu cavalo e muitos homens no ataque, Capois continuou resistindo a ponto do chefe inimigo, o general Rocahmbeau, observando-o das muralhas de Vertières, admirar sua coragem e chamá-lo de “Aquiles Negro”.
De repente, os tambores franceses soaram um cessar-fogo e os canhões silenciaram. Um oficial francês montado em um cavalo atravessou a linha inimiga em direção a François Capois. Com voz alta, gritou: “O general Rochambeau envia cumprimentos ao general que acaba de se cobrir de tanta glória!” (ACCILIEN et ali.) Era o sinal de rendição dos franceses, depois de perderem dois terços dos defensores de Vertières.
Na manhã seguinte, tiveram início as negociações de paz com Dessalines, o líder haitiano. Antes do anoitecer, um acordo foi assinado. Rochambeau recebeu dez dias para evacuar o Forte Vertières, embarcar os remanescentes de seu exército e deixar São Domingos.
São Domingos foi oficialmente proclamado independente da França em 1º de janeiro de 1804, adotando o nome de Haiti, palavra de origem indígena Arawak. Com a Declaração de Independência por Dessalines, o Haiti tornou-se a primeira república negra do mundo.

Batalha de Vertières, 1803, por Ulrick Jean-Pierre (1995).
Consequências
Calcula-se que a revolução teria custado a vida de 200.000 escravos e libertos, 75.000 franceses, 45.000 ingleses e 25.000 a 50.000 não-combatentes europeus ou crioulos.
A Batalha de Vertières foi a primeira grande derrota do exército de Napoleão Bonaparte. A vitória de Vertières inspirou as lutas pela independência em outros países da América Latina. Francisco de Miranda, um dos líderes da independência da Venezuela, inspirou-se em Vertières para travar sua própria luta contra o Império Espanhol. Simón Bolívar, conhecido como ” O Libertador”, também se inspirou no espírito da vitória haitiana para libertar diversos países da América do Sul, incluindo Bolívia e Equador. O Haiti, ao oferecer refúgio a Bolívar em 1815, desempenhou um papel fundamental na emancipação de várias nações vizinhas.
Desde a sua independência, a nação haitiana comemora a Batalha de Vertières, a 18 de novembro, celebrando-a como Dia da Vitória, feriado nacional. Esta batalha é celebrada não só como um importante evento histórico para o país, mas também como um exemplo emblemático da luta contra a escravatura e o colonialismo para outros países.
Fonte
- ACCILIEN, Cécile; ADAMS, Jessica; MÉLÉANCE, Elmide (2006). Revolutionary Freedoms: A History of Survival, Strength and Imagination in Haiti (2006).
- ANDRADE, E. Haiti: dois séculos de História. São Paulo: Alameda. 2019.
- HUNT, Lynn; CENSER, Jack. “Escravidão e a Revolução Haitiana”. Liberdade, Igualdade, Fraternidade: Explorando a Revolução Francesa. Universidade George Mason e Projeto de História Social Americana, 2001.
- JAMES, C. L. R. Os Jacobinos Negros: Toussaint L’Overture e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2000.
- DUBOIS, Laurent. Os Vingadores do Novo Mundo. Niterói: Eduff, 2022.





