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Palavras de origem africana para trabalhar com os alunos

12 de setembro de 2021

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Muitas palavras e expressões que utilizamos no dia a dia tem origem nas línguas africanas. Assim, por exemplo, falar que está borocoxô, que foi engambelado, chamar alguém de babaca, dizer que ficou zonzo com a bagunça, fazer um cafuné e cochilar, mandar para as cucuias, chamar uma mulher de velha coroca – são alguns dos milhares de vocábulos de origem africana absorvidos pela língua portuguesa falada no Brasil.

Não é para menos, afinal durante trezentos anos, desde o século XVI até 1850 (quando foi proibida a entrada de africanos escravizados) milhões de africanos foram enviados para o Brasil. Vieram de diferentes regiões da África, em especial de dois grandes grupos: o guineano-sudanês (sudaneses da Costa da Guiné e da Costa da Mina) e o banto (Congo, Angola e Moçambique).

Esses povos falavam muitas línguas (a África tem 2.092 línguas, segundo Bonvini), principalmente o quimbundo e o iorubá. A apropriação de vocábulos dessas línguas pelo português falado pelos colonizadores não foi, contudo, um processo simples nem linear, e sequer começou no Brasil pois já vinha ocorrendo no território africano.

  • BNCC: 8° e 9° anos – Habilidades EF08HI14, EF08HI19, EF08HI20, EF08HI27, EF09HI03, EF09HI07

CONTEÚDO

Este artigo remete para atividades no site STUD HISTÓRIA. Veja no final.

O comércio escravo para a América

O historiador canadense Paul E. Lovejoy estima que, entre os anos 1500 a 1800, foram transportados através do Atlântico 11.695.000 africanos, número atualizado em obra posterior para 12.521.000 (LOVEJOY, 2011, tabela 3.1). Outros milhões morreram antes de embarcarem nos navios negreiros, mortos durante as guerras para captura de escravos e no penoso caminho terrestre até a costa onde eram vendidos aos traficantes europeus.

Dos embarcados, nem todos sobreviveram a travessia oceânica. Viajando apertados nos porões dos navios, em meio a sujeira, mal alimentados e sem água fresca, entre 1,2 e 2,4 milhões de africanos morreram durante a viagem.

O Brasil recebeu entre 38% e 40% dos escravos enviados para a América, isto é, 3,6 milhões de indivíduos. Eles vieram de diferentes regiões da África que, ao longo de trezentos anos, corresponderam, a grosso modo, às seguintes levas:

  • Século XVI: sudaneses originários da costa da Guiné, região ao norte do Equador.
  • Século XVII: bantos originários do Congo e de Angola.
  • Século XVIII: sudaneses originários da Costa da Mina, da baía de Benim.
  • Século XIX: bantos originários de Angola e Moçambique.

A maior parte dos africanos escravizados enviados para o Brasil foi de sudaneses vindos da Costa da Guine e da Costa da Mina, e de bantos de Angola, Congo e Moçambique. Esses povos eram falantes de línguas diferentes. Fonte: “Folha de S.Paulo”, caderno Mais, 21/04/2004, p. 17.

As línguas faladas pelos cativos

Sudaneses e bantos falavam centenas de línguas, de famílias e subfamílias linguísticas diferentes. Por exemplo, são línguas sudanesas: o fula, o mandinga, o fon, o iorubá, o hauçá etc. São línguas faladas pelos bantos: o quicongo, o quimbundo, o imbangala, o luda, o lunda, o umbundo, o herrero etc.

Quais dessas línguas foram atingidas pela escravidão? Quais atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil?

A resposta a essas perguntas não é fácil pois as circunstâncias do tráfico de escravos interferiram nos falares dos cativos. Pode-se dizer que existiram duas situações: 1) as línguas faladas pelos cativos africanos na África antes de atravessarem o Atlântico, 2) as línguas faladas por esses mesmos cativos depois de chegados e estabelecidos no Brasil.

As línguas dos cativos antes de chegarem ao Brasil

Os africanos capturados no interior da África eram levados para os entrepostos na costa e ali ficavam meses confinados até que se atingisse a quantidade necessária para completar a carga de um navio. A concentração forçada e prolongada de falantes de línguas africanas diferentes assim como o contato, igualmente forçado e prolongado, com a língua portuguesa dos traficantes gerou uma nova situação linguística para os cativos.

A esse período de concentração, acrescente-se, ainda, o tempo de viagem marítima que durava aproximadamente 35 dias de Luanda a Recife, 40 até Salvador e 2 meses até o Rio de Janeiro.

No caso de Angola, os cativos bantos adotaram o quimbundo falado em Luanda como língua veicular, isto é, uma língua para facilitar o entendimento entre todos. O quimbundo era usado para catequização pelos jesuítas em Luanda. Era, também, a língua africana falada no Brasil e é possível que tenha sido a língua falada no quilombo de Palmares (BONVINI, p. 38). Tinha, inclusive, uma gramática escrita pelo padre Pedro Dias, em 1697, a partir de termos recolhidos na Bahia e no Rio de Janeiro.

A língua portuguesa, por sua vez, falada em Angola na época e provavelmente no Brasil, já integrava um número significativo de termos do quimbundo. Muitos cativos estavam familiarizados com o português falado em Angola ou eram seus falantes. Assim, antes mesmo de sua partida para o Brasil, os africanos já tinham uma certa familiaridade com a língua de seus futuros senhores (BONVINI, p. 32).

As línguas faladas pelos escravos no Brasil

O quimbundo foi, portanto, a língua falada no Brasil no século XVII pelos escravizados oriundos do Congo e de Angola.

No século XVIII, as áreas de mineração de Minas Gerais receberam cativos sudaneses originários da costa da Benim, a chamada Costa da Mina, situada entre Gana e a Nigéria. Eles adotaram uma língua geral da Mina com mistura de diferentes línguas sudanesas.

Importante lembrar que as línguas africanas trazidas para o Brasil, como o quimbundo e a língua geral da Mina, sofreram diversas rupturas pelo seu desenraizamento e convivência com outras línguas (africanas, indígenas e o português falado pelos senhores). Muitas palavras perderam seu sentido original e desapareceram variantes dialetais.

No século XIX, com a expansão da lavoura cafeeira no Vale do Paraíba e, especialmente, depois da proibição da importação de africanos escravizados, intensificou-se o tráfico interno de escravos do Nordeste para o Sudeste. Isso contribuiu para novas convivências forçadas e, com isso, outras misturas e alternâncias de línguas.

Segundo levantamento linguístico e etnográfico de Nina Rodrigues feito junto aos escravos da Bahia, no final do século XIX, seis línguas africanas eram faladas naquele estado:

  • nagô ou iorubá (originário dos reinos de Ilé Ifé e Oyó, na Nigéria),
  • jeje ou ewe (do atual território do Togo e Benim),
  • hauçá (do antigo Império de Songhai),
  • canúri (do reino de Bornu),
  • nupê (variante da língua hauçá),
  • grúnci ou grunce (do território da atual Burkina Faso).

Essas línguas sofreram grandes alterações com o aprendizado do português e da língua geral adotada pelos escravos que viviam no Brasil. (RODRIGUES, p. 122)

Entre as línguas gerais adotadas pelos escravos, duas predominavam no Brasil escravista: o quimbundo ou congolês no norte e no sul, e o nagô ou iorubá na Bahia.

As línguas africanas “secretas” do século XX

À medida que a língua portuguesa se estendeu a toda população negra e se impôs no dia a dia, as antigas línguas gerais (especialmente o quimbundo, a “mina” e o iorubá) foram sendo confinadas ao uso específico de determinada população como ferramentas de preservação identitária, de autodefesa e de sua afirmação como grupo (BONVINI, p. 50).

Elas receberam uma nova função, tornando-se línguas reservadas aos cultos afro-brasileiros (candomblé e umbanda) sob um contexto de clandestinidade e, portanto, sob a forma de línguas “secretas”. Foram empregadas em cânticos, saudações, nomes e mensagens dos guias espirituais. Destinaram-se, também, à comunicação no interior da comunidade religiosa.

Línguas gerais sobreviveram em populações negras isoladas, descendentes de escravos e vivendo em antigos quilombos. É o caso, por exemplo das comunidades quilombolas de Tabatinga, situada num bairro pobre da periferia de Bom Despacho, em Minas Gerais, e Cafundó, em Salto do Pirapora, em São Paulo. A língua geral serve a essas comunidades como uma espécie de código secreto, como meio de ocultar as conversas em presença de estranhos.

Escravos aloglotas e seu legado linguístico

As línguas africanas, como as indígenas, eram essencialmente orais e não normatizadas. Somente o quimbundo teve escrita e foi gramatizado (como o tupi-guarani). Não tinham, portanto, um uso definido, codificado e sequer ensinado. Ao virem para o Brasil, os escravizados foram forçados ao convívio de diferentes línguas com as quais eles tiveram que lidar e se fazer compreender ao mesmo tempo que aprendiam ou se apropriavam do português falado por seus senhores.

Dessa forma, durante séculos, os africanos escravizados foram aloglotas, falantes de outras línguas que aprenderam de ouvir, simplificando-as e adaptando-as por aproximação à sua língua original. À medida que o português se impôs como língua dominante e oficial de referência, as línguas africanas foram progressivamente desaparecendo.

Restaram como legado numerosos vocábulos africanos apropriados pela língua portuguesa falada no Brasil. Eles estão presentes no nome de comidas, bebidas, instrumentos musicais, animais, plantas, em topônimos. “A própria linguagem infantil tem um sabor quase africano: cacá, pipi, bumbum, nenem, tatá, papato, lili, mimi, cocô, dindinho, bimbinha”, como lembra Mendonça.

Estimativas recentes avaliam que mais de 3.000 palavras de origem africana foram introduzidas no português do Brasil, um número muito menor do que as palavras de origem indígena.

O quimbundo, pela antiguidade e extensão de seu uso no país, exerceu maior influência do que o nagô / iorubá. Os termos de origem nagô ficaram mais restritos às práticas e aos utensílios ligados aos cultos afro-brasileiros assim como à culinária afro-baiana.

Exemplos de palavras de origem africana na língua portuguesa

  • Abadá (do iorubá agbádá): túnica longa masculina de mangas largas e compridas.
  • Babaca (do quicongo mba-mbaka): uma espécie de bananeira; no Brasil, perdeu seu sentido original, passando a designar pessoa tola, boboca ou ingênua.
  • Banguela (var. de ngangela): povo da África que tinha o hábito de arrancar ou limar os dentes superiores.
  • Bagunça (do quicongo bangula): desordem, confusão, baderna.
  • Bunda (do quimbundo mbunda): quadris, nádegas.
  • Cachimbo (do quimbundo kixima): instrumento utilizado para fumar, geralmente, tabaco.
  • Cafofo (talvez do quimbundo kifofo): barraco ou casebre onde se armazenavam os escravos.
  • Canjica (do quimbundo kanjika): papa de milho verde ralado cozido com leite e açúcar.
  • Moleque (do quimbundo muleke; do quicongo mu-léeke): criança, garoto, irmão mais novo.
  • Quindim (do quicongo kénde): doce feito com gema de ovo, coco e açúcar.
  • Quitute (do quicongo kituuti): aquele que separa, descasca o grão, por extensão uma iguaria delicada.
  • Zonzo (do quicongo nzunzu): pesado, incômodo, tonto, aturdido.

Veja outros exemplos no infográfico a seguir.

Para baixar esse infográfico em alta resolução, busque a seção “Recursos, Infográficos” deste site.

Trabalhando palavras de origem africana em sala de aula

Baixe atividades sobre esse tema no site STUD HISTÓRIA. Clique no botão abaixo e faça um pedido na loja. MATERIAL GRATUITO.

Acessar

Fonte

  • ALVES DOS SANTOS, Wilmihara Benevides S. A presença africana nas palavras que falamos em português. Museu da Língua Portuguesa.
  • BONVINI, Emílio. “As línguas africanas e o português falado no Brasil”. In: FIORIN, José Luiz; PETTER, Margarida (orgs.). África no Brasil: a formação da língua portuguesa. São Paulo: Contexto: 2021.
  • CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks, Academia Brasileira de Letra, 2001.
  • CUNHA, Antônio Gerado da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.
  • LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • _______. Novo Dicionário banto do Brasil. São Paulo: Pallas, 2003.
  • LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza (orgs.). O português afro-brasileiro. Salvador, BA: Ed. Universidade da Bahia, 2009.
  • MENDONÇA, Renato. A influência africana no português do Brasil. Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2012.
  • RODRIGUES, Nina R. Os africanos no Brasil (1890-1905). São Paulo: Nacional, 1977.
  • Palavras de origem africana no vocabulário brasileiro. Portal Geledés.
  • SILVA, Hosana dos Santos. Disciplina Breve Introdução à História das Línguas no Brasil. São Paulo: Unifesp, 2015.

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