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Rússia x Ucrânia: as múltiplas faces de uma guerra

2 de março de 2022

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O título desse artigo já lança polêmicas, pois o tema não envolve apenas dois países e nem o termo “guerra” é, talvez, o mais adequado e abrangente para se referir a relações construídas há décadas (ou séculos?) e que envolvem tensões, confrontos, conflitos, ocupações e até alianças.

Trata-se de um contexto histórico e geopolítico complexo, de múltiplas faces. Sendo “múltiplas”, é possível que algumas delas tenham escapado dessa apresentação. O artigo não tem a pretensão de fazer uma análise, mas de mostrar as cartas de um jogo que ainda está sendo jogado, por muitos jogadores, e que podem, a qualquer momento, tirar uma carta escondida na manga.

  • BNCC: 9° Ano – Habilidades: EF09HI35, EF09HI36
  • Ensino Médio – Habilidades: EM13CHS203, EM13CHS603, EM13CHS604, EM13CHS605

CONTEÚDO

I. RELAÇÕES HISTÓRICAS ENTRE UCRÂNIA E RÚSSIA

II. FIM DA GUERRA FRIA

III. REAQUECIMENTO DA GUERRA FRIA

IV. UCRANIA E RÚSSIA: UMA NOVA GUERRA FRIA

Fontes

I. Relações históricas entre Ucrânia e Rússia

Episódio 1 – Rússia de Kiev, na Idade Média

A história da Rússia começa no século IX em Kiev. É conhecida como Rússia de Kiev (800-1100), uma confederação de tribos eslavas que se estendia do mar Báltico ao mar Negro ocupando os atuais territórios da Ucrânia, Bielorúsia e parte da Rússia.

As tribos foram unidas, mas no século XII a Rússia de Kiev se desintegrou e caiu sob domínio mongol na década de 1240. A região correspondente ao atual território da Ucrânia foi dividida entre a Polônia, o Grão-Ducado da Lituânia (que tomou Kiev), os tártaros (na Criméia) e os magiares.

Episódio 2 – Ucrânia cossaca entre os domínios polonês e russo

Entre os séculos XIV e XVIII, a Ucrânia esteve sob domínio polonês (Reino da Polônia-Lituânia). Nos séculos XVII, o centro da atual Ucrânia, estava sob controle dos cossacos.

Em 1648, os cossacos libertaram quase toda a Ucrânia do domínio polonês e criaram uma associação governante, o chamado Hetmanato Cossaco (hetman: líder supremo do Exército cossaco) que durou mais de cem anos. Pode-se dizer, que o movimento nacional urcraniano remonta à época dos cossacos. Esse movimento vai ganhar força no contexto da Revolução Russa de 1917 (v. Episódio 4).

Foi Catarina II, da Rússia que, em 1764, aboliu oficialmente o Hetmanate e incorporou a Ucrânia dos cossacos como província russa.

A Ucrânia tornou-se uma das principais fontes de trigo para o Império Russo.

O Império Czarista Russo ou Rússia Imperial era, então, um dos maiores impérios da história, estendendo-se por três continentes. Até 1867, o império também compreendia o Alasca, na América do Norte. Superava em massa de terra apenas pelos impérios Britânico e Mongol.

De acordo com o censo de 1897 a população do Império era cerca de 128 milhões de habitantes, sendo que a maioria deles (93,4 milhões) vivia na parte ocidental (“Rússia europeia”). Mais de 100 diferentes grupos étnicos viviam no território russo, sendo que a etnia russa compreendia cerca de 45% da população.

Episódio 3 – Ucrânia separa-se da Rússia, 1918

A Rússia Imperial ruiu com a Revolução Russa de 1917. O país estava então lutando na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ao lado da França, Reino Unido e Sérvia. Os bolcheviques decidiram retirar a Rússia da guerra – o que foi negociado no Tratado de Brest-Litovsk, de 3 de março de 1918.

Os termos do tratado impunham à Rússia a perda de territórios: Finlândia, Países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Bielorússia, Ucrânia e do distrito georgiano de Batumi. Estes territórios continham um terço da população da Rússia, metade de sua indústria e nove décimos de suas minas de carvão, concentradas na Ucrânia.

Episódio 4 – Nacionalismo ucraniano

No bojo da Revolução Russa e do Tratado de Brest-Litovsk ganhou força o nacionalismo ucraniano em prol da autodeterminação da Ucrânia.

Por alguns anos, a cultura e a língua ucranianas conheceram um florescimento estimuladas pela adoção da política soviética de nacionalidades. Lênin concedeu aos povos não russos certas liberdades em relação à língua, cultura e administração. Isso teria estimulado o nacionalismo ucraniano – fato que Putin citou como um erro do passado.

Pode-se dizer que o Estado ucraniano se formou nesse contexto no fim da Primeira Guerra Mundial. Entretanto, foi um período curto.

Em 1922, a maior parte da Ucrânia (centro e leste) foi incorporada como uma república na União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS). A porção ocidental da Ucrania passou para a Polônia.

Episódio 5 – Ucrânia e a tragédia do Holodomor

O governo de Stálin tratou de suprimir o nacionalismo ucraniano. Entre 1926 e 1932, milhares de intelectuais e clérigos foram assassinados ou deportados para a Sibéria. Adotou uma política de russificação com o objetivo de erradicar a língua e a cultura ucranianas.

Aplicou uma política de industrialização acelerada que levou quadruplicar a produção industrial soviética na década de 1930. Para financiar a transformação da URSS em uma potência industrial, Stálin tratou de aumentar a exportação de cereais – o que impôs um custo elevado ao campesinato ucraniano.

Stálin estabeleceu um programa de coletivização da agricultura pelo qual o Estado se apropriou das terras, colheitas e rebanhos dos camponeses em fazendas coletivas. Estabeleceu cotas de produção de cereais para exportação, abastecimento das cidades e das forças armadas.

Os planos de Stálin, contudo, tiveram um sério revés com a seca severa na primavera de 1932 que atingiu a Ucrânia, o Cazaquistão e outras regiões da URSS. Mesmo com a ruína dos cultivos, o governo soviético manteve e até aumentou as cotas de produção de cereais. O confisco de grãos e outros alimentos levou à fome generalizada matando milhões de pessoas – episódio conhecido como Holodomor (1932-1933).

Não foi a primeira vez: secas e fome em massa ocorreram com certa regularidade na história da Rússia, como a de 1891-1892 ao longo do rio Volga espalhando-se até os Urais e Mar negro, e a de 1921-1922 no Tartaristão e Ucrânia. A fome de 1932-1933, o Holodomor, contudo, é uma ferida aberta na memória dos ucranianos.

Segundo a Ucrânia e outros 15 países (o Brasil não está incluído), o Holodomor foi uma política de genocídio executada pelo governo soviético para destruir a identidade nacional ucraniana. A Rússia reconhece a tragédia, mas afirma que não foi intencional e, portanto, não se aplica o conceito de genocídio.

Seja como for, o Holodomor e as atrocidades do stalinismo transformaram o discurso nacionalista ucraniano em ódio à Rússia, um ressentimento que cresceu nas décadas seguintes e alimentou o nacionalismo extremista ucraniano (v.Episódios 7 e 23).

Episódio 6 – Ucrânia na II Guerra e os nacionalistas ucranianos

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o cenário na Ucrânia tornou-se mais complexo. Em 1941, quando os alemães invadiram a Ucrânia, foram recebidos como libertadores por ucranianos, especialmente na Ucrânia Ocidental. Muitos ucranianos lutaram ao lado de nazistas massacrando os próprios ucranianos contrários.

Os ucranianos que cooperaram com os nazistas atuaram na administração local, entraram na polícia nazista ou se tornaram guardas em campos de concentração. O governo nazista na Ucrânia, batizado de Reichskommissariat Ukraine, ou RKU, durou de setembro de 1941 a março de 1944, e compreendia o que hoje se divide entre o território da Ucrânia, Belarus e Polônia.

Episódio 7 – O UPA, o nacionalismo ucraniano armado

Muitos ucranianos não colaboraram com os alemães nazistas e nem com os russos soviéticos. Em 1941 formou-se o Exército Insurreto Ucraniano ou Exército Insurgente da Ucrania (UPA, sigla em ucraniano) – um movimento de libertação nacionalista ucraniano na forma da organização militar.

O UPA era o braço militar da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN, sigla em ucraniano), fundada em 1929 por exilados ucranianos na cidade de Viena, Áustria.

O objetivo principal do UPA era estabelecer a Ucrânia independente, sem o controle de Moscou nem da Alemanha. Por isso, o UPA lutou em várias frentes: contra a Alemanha Nazista, contra a resistência polonesa à ocupação nazista e, principalmente contra as forças soviéticas, incluindo a resistência soviética e o Exército Vermelho.

Seus membros se infiltraram na polícia alemã para receberem treinamento militar da Wehrmacht e depois desertarem com o seu armamento e se juntarem à UPA. Outros militantes eram treinados na base do manual do Exército Vermelho.

Em 1944, o número de combatentes do UPA era estimado em 20.000 soldados. O movimento nacionalista ucraniano formou o movimento guerrilheiro mais forte da frente oriental, superado apenas por comunistas russos.

As perdas totais civis durante a guerra e a ocupação alemã na Ucrânia são estimadas entre 5 a 8 milhões de pessoas, incluindo mais de meio milhão de judeus. Dos 11 milhões de soldados soviéticos mortos em batalha, cerca de 25% eram ucranianos étnicos.

Episódio 8 – Stepan Bandera: um nacionalista ucraniano controverso

Stepan Bandera, líder do nacionalismo ucraniano e chefe da OUN, vivia na Polônia quando essa sofreu a invasão conjunta germano-soviética. Bandera viu nos alemães aliados em potencial para sua causa nacionalista. Passou a frequentar círculos militares alemães favoráveis à independência ucraniana. Contudo, para os alemães, Bandera era uma ameaça e não um aliado e ele foi preso em julho de 1941 e enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen, na Alemanha.

Em 1944, com a Alemanha sofrendo derrotas diante do avanço aliado, Bandera foi libertado para auxiliar o esforço nazista. Tornou-se, então, um colaborador nazista vivendo sob proteção alemã. Os nazistas recrutaram os seguidores de Bandera para atuarem como policiais de língua ucraniana, servindo em batalhões voluntários do exército ucraniano.

Bandera não ficou imune à influência do racismo e antissemitismo nazista. Defendia a uma “raça ucraniana pura” e acusava os judeus da Ucrânia de estarem por trás do comunismo e do imperialismo stalinista e, portanto, deveriam ser eliminados (HIMKA, 2005). Bandera trabalhou em estreita colaboração com Hitler e ajudou a lançar um pogrom que matou 4 mil judeus em poucos dias.

Retrato de Stepan Bandera em um edifício público de Kiev durante os protestos de Euromaidan, 2014.

Episódio 9 – URSS contra o UPA após a guerra

Depois da Segunda Guerra, os nacionalistas ucranianos da UPA continuaram lutando contra a Polônia até 1947 e contra a União Soviética até 1955. As milícias da UPA concentravam-se nos Montes Cárpatos e na Ucrânia Ocidental, usando equipamento ligeiro soviético ou alemão e até tanques.

Estimava que, a partir do fim da Segunda Guerra, cerca de 35 mil policiais soviéticos e líderes comunistas, além de civis, foram eliminados pelos nacionalistas ucranianos do UPA. Em contrapartida, entre 1944 e 1953, os soviéticos mataram 153 mil e capturaram 134 mil membros do UPA, além de 66 mil famílias (204 mil pessoas) deportadas para a Sibéria.

Stefan Bandera, o líder nacionalista ucraniano que colaborou com os nazistas, foi morto em Munique, em 15 de outubro de 1959, por envenenamento com cianureto. Dois anos depois de usa morte, os órgãos judiciais alemães anunciaram que o assassino de Bandera foi um membro da KGB que agiu sob as ordens do chefe soviético da KGB e do primeiro ministro soviético Nikita Khruschev.

Por essa época, a URSS executou uma ampla propaganda contra o UPA para desacreditar o movimento de libertação ucraniano chamando-o de organização terrorista e afirmando sua colaboração com os invasores nazistas.

Durante a Guerra Fria, a Ucrânia esteve incorporada à URSS com o nome República Socialista Soviética da Ucrânia. Suas fronteiras foram ampliadas a oeste e sudoeste a custa da Polônia, Romênia e Tchecoslováquia. A URRS procurou, dessa forma, reverter as cessões territoriais forçadas no tratado de Brest-Litovsk.

II. Fim da Guerra Fria

Episódio 10 – Desintegração da URSS e a Nova Europa

A Guerra Fria foi o período de 1947 a 1989 marcado pelo antagonismo e hostilidade entre os EUA e a URSS sem assumir a forma de um conflito armado ou de luta direta entre esses países. O mundo dividia-se, então, em dois blocos sob a liderança dessas potências. Nesse clima de guerra, duas organizações militares se antagonizavam: a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e o Pacto de Varsóvia.

A OTAN, criada em 1949, com sede em Bruxelas, constitui um sistema de defesa coletiva dos países do bloco ocidental, capitalista, pró-EUA. Seus Estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à organização.

O Pacto de Varsóvia, criado em 1955, era uma aliança militar entre a URSS e as repúblicas socialistas do Bloco Oriental, também com o objetivo de defesa mútua.

Embora a OTAN e o Pacto de Varsóvia nunca tenham se enfrentado em conflito armado direto, a Guerra Fria permaneceu ativa durante mais de 35 anos.

Com o desmantelamento da URSS, o Pacto de Varsóvia foi formalmente encerrado em 1991. Todos os soldados soviéticos estacionados em bases militares cedidas pelos governos da Alemanha Oriental, Polônia, Hungria e Tchecoslováquia tiveram que se retirar e voltar para a Rússia. As autoridades russas conseguiram, entretanto, compensações financeiras pela perda das bases militares.

A OTAN, contudo, não se desfez, manteve-se atuante (e cada vez mais) após a Guerra Fria.

Em 1990, representantes de 34 países reunidos em uma conferência diplomática, assinaram a Carta de Paris Para Uma Nova Europa, documento que marcou o fim do conflito leste-oeste. Os signatários comprometeram-se na redução de armas convencionais e a manter apenas o potencial militar necessário à prevenção contra a guerra e para “defesa real”. Assumiram o compromisso de defesa dos direitos humanos, da economia de mercado, dos princípios do Estado de direito e da democracia pluralista como “única forma de governo”.

Nesse cenário de otimismo de um mundo sem guerras, a então enfraquecida União Soviética concordou com o ingresso da Alemanha na OTAN.

Houve também a promessa da OTAN de não expandir para o leste, o que seria visto como um cerco à Rússia e, portanto, uma ameaça à sua segurança.

Episódio 11 – A Comunidade dos Estados Independentes (CEI)

Em dezembro de 1991, 11 repúblicas que pertenciam à antiga URSS formaram a Comunidade dos Estados Independentes (CEI). São elas: Armênia, Azerbaijão, Bieolorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão.

A CEI segue os seguintes princípios: cada estado-membro é independente e soberano, qualquer república é livre de deixar a CEI após ter anunciado essa intenção com um ano de antecedência, os membros devem trabalhar em conjunto para o estabelecimento de uma economia de mercado, o antigo rublo soviético é a moeda comum dos estados-membros.

Em 2008, o Parlamento da Geórgia aprovou por unanimidade a saída do país da Comunidade, devido ao apoio russo aos separatistas de Abecásia e da Ossétia do Sul. A independência dessas regiões ainda é motivo de tensões entre a Geórgia e a Rússia.

Posteriormente, a Ucrânia também se retirou da organização em 2014, em parte devido às relações hostis do país com a Rússia após a anexação da Crimeia por esse último (v.Episódio 22)

Epísódio 12 – Rússia pós-soviética e a descomunização do país

Boris Iéltsin foi eleito presidente da Rússia em junho de 1991, na primeira eleição direta presidencial na história russa. Yeltsin anunciou que faria uma reforma radical rumo a uma economia de mercado, isto é, ao capitalismo, que levaria o país a um forte crescimento.

Para o desmantelamento do comunismo, adotou-se um programa de privatização de empresas e de liberalização do comércio externo, preços e moeda. Foram derrubadas as barreiras legais ao mercado privado e a fabricação, removidos os controles de preços e reduzidos os subsídios do estado à agricultura e indústrias, permitindo importações estrangeiras para o mercado russo, tentando assim quebrar o poder dos monopólios estatais locais.

Os resultados foram desastrosos para boa parte da população: inflação, desvalorização do dinheiro e queda acentuada nos padrões de vida especialmente dos que viviam de rendas fixas (assalariados e pensionistas). Muitas indústrias foram fechadas e houve uma grande depressão.

Alguns grupos, no entanto, se beneficiaram da abertura econômica e das privatizações como a nova classe de empresários e comerciantes do mercado negro.

Em meio a uma grave crise que levou a população russa à miséria e fome, Boris Iéltsin renunciou em 31 de dezembro de 1999.

“Peço perdão por não ter tornado realidade algumas das esperanças dos que acreditavam em nós. Acreditava que poderíamos em só salto, pular do passado totalitário, cinza e estagnado para um futuro brilhante, rico e civilizado. Eu próprio acreditei nisso. Não deu certo.” (Discurso de renúncia de Boris Iéltsin, fragmento, 31 de dezembro de 1999.)

Entra em cena, o primeiro ministro, Vladimir Putin, escolhido pelo próprio Iéltsin quatro meses antes da renúncia. Com ele iniciaria uma nova era da Rússia (v.Episódios 17 e 18).

Episódio 13 – Ucrânia independente renuncia às armas nucleares

Com a dissolução da URSS e a independência de 15 repúblicas entre março de 1990 e dezembro de 1991, o movimento nacionalista ucraniano ganhou novo fôlego. Em 24 de agosto de 1991, o Soviete Supremo em Kiev proclamou a independência da Ucrânia.

Ucrânia e Rússia continuaram mantendo laços estreitos. A Ucrânia era, então, a terceira maior potência nuclear do mundo, com o legado da União Soviética com 176 mísseis balísticos de longo alcance.

Em 2 de julho de 1993, em uma declaração de princípio, Ucrânia renunciou às armas nucleares. Duas semanas depois, começou o desmantelamento dos ICBMs UR-100 baseados em território ucraniano (nome de código da OTAN: SS-19). Os mísseis foram levados para a Rússia para serem demolidos.

Em 14 de janeiro de 1994, os presidentes da Rússia, Ucrânia e Estados Unidos assinaram o Acordo sobre a Eliminação de Armas Nucleares. Confirmou-se assim definitivamente o status não nuclear da Ucrânia. Em troca, a Ucrânia recebeu garantias de segurança da Rússia e dos Estados Unidos. Estes incluíam o reconhecimento de sua independência, soberania e integridade territorial, e a promessa de não usar armas nucleares contra o país.

Outro ponto de acordo entre Rússia e Ucrânia foi a divisão da frota do Mar Negro. A Ucrânia concordou em autorizar o uso de várias instalações navais, incluindo as do Porto de Sebastopol, na Crimeia, para que a frota russa do Mar Negro pudesse continuar operando na região, juntamente com as forças navais ucranianas e conectando-se com a frota do Mar de Azov. É importante destacar a importância geopolítica daquela área, por ser um acesso da Rússia às águas quentes (ou seja, navegáveis durante o ano todo). O Mar Negro dá acesso ao Mar Mediterrâneo via Istambul (CUPOLILO, 2022).

A renúncia da Ucrânia às armas nucleares e o desmantelamento de seu arsenal nuclear foram, anos depois, criticados pelos nacionalistas ucranianos de extrema-direita (v. Episódio 23).

Episódio 14 – Ucrânia adere à Parceria Euro-Atlântica

As relações da Ucrânia com a OTAN começaram a se desenvolver imediatamente após a conquista da independência em 1991. O país aderiu ao Conselho de Cooperação do Atlântico Norte (NACC), assinou o documento de Parceria para a Paz, em 1994 e foi um dos fundadores do Conselho de Parceria Euro-Atlântica, em 1997.

Contingentes ucranianos participaram de intervenções militares lideradas pela OTAN nas guerras da Iugoslávia, do Iraque e do Afeganistão.

Em 2010, a Ucrânia confirmou sua intenção de continuar a parceria com a OTAN como estado não alinhado e, portanto, sem maior integração com a OTAN.

Em 2017, o presidente da Ucrânia mudou a orientação do país e declarou a intenção de aderir à OTAN. Em 12 de junho de 2020, a OTAN concedeu à Ucrânia o status de Parceiro de Oportunidades Reforçadas.

Isso significa que a Ucrânia, mesmo não sendo membro da OTAN, passou a receber dessa organização intensa capacitação militar por meio de cursos, estágios, treinamentos para reformar as forças armadas ucranianas com vista à segurança de suas fronteiras contra agressões armadas. (Fonte: On the road to Nato. Armed Forces of Ukraine)

Na Ucrânia, quem se beneficiou da capacitação militar promovida pela OTAN foi o Batalhão Azov (v. Episódio 23), organização paramilitar de extrema-direita. Seus militantes lutaram contra os russos no leste da Ucrânia durante a guerra separatista de Donbas, em 2014.

III. Reaquecimento da Guerra Fria

Episódio 15 – Expansão e intervenções da OTAN

Com o fim da URSS e do Pacto de Varsóvia, desapareceu o principal adversário da OTAN. Essa organização estava, então, livre para se expandir e conduzir as suas primeiras intervenções militares. E tudo ocorreu muito rápido:

  • 1992-1995: Bósnia – força militar terrestre e aérea chegando a abater aviões militares sérvios bósnios.
  • 1999: Kosovo (República da Iugoslávia) – bombardeios na cidade por 78 dias.
  • 2001: Afeganistão – a primeira missão da OTAN fora do espaço do Atlântico Norte.
  • 2003: Iraque – formação de forças de segurança e treino militar.
  • 2009: operação militar naval contra pirataria no Golfo de Aden, no mar de Omã e no Oceano Índico.
  • 2011: Líbia – intervenção militar para proteger os civis.
  • 2018: apoio aos ataques na Síria realizados pelos EUA, Reino Unido e França.

Paralelamente, a OTAN, expandiu sua área de influência atraindo os países do Centro e Leste Europeu, isto é, do antigo bloco soviético. Aderiram à OTAN:

  • 1999: República Checa, Hungria e Polônia.
  • 2004: Bulgária, Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia, Eslováquia e Eslovénia.
  •  2009: Croácia e a Albânia.

Países que sofreram algum tipo de intervenção dos Estados Unidos e OTAN desde a Segunda Guerra Mundial

Hoje, das ex-repúblicas soviéticas da Europa, somente a Bielorrússia, a Moldávia e a Ucrânia não aderiram à OTAN. Contudo, os três países não estão isolados na influência do Ocidente. A Ucrânia, por exemplo, assinou um acordo de parceria com a OTAN para capacitação militar de suas forças armadas (v. Episódio 14).

Se a expansão da OTAN para o leste ajudou a garantir a paz ou se constitui uma ameaça é uma questão controversa. A OTAN afirma que não força a integração de novos membros, apenas mantém uma política de “portas abertas” à adesão e que defende o direito de todos os países de escolherem suas alianças.

Para a Rússia, porém, a expansão da OTAN é uma ameaça à segurança russa, significando um cerco militar que se fecha mais a cada nova adesão. Em 2014, em retaliação à anexação da Crimeia pela Rússia, a OTAN posicionou uma força de 5.000 tropas em bases militares na Estônia, Lituânia, Polônia, Romênia e Bulgária. Entende-se, então, a crise aberta em 2022 com a intenção da Ucrânia em aderir à OTAN.

Episódio 16 – Quem controla a OTAN

Desde a criação da OTAN, em 1949, Washington considera a OTAN a pedra angular do compromisso americano com a segurança europeia e como a organização multilateral preferida para definir a segurança e a defesa coletiva. “Imbuídos da ideia de que foram os vencedores da Segunda Guerra, os Estados Unidos acreditam que podem exercer unilateralmente o papel de xerife do mundo; impõem os princípios de liberdade e democracia enquanto regula os equilíbrios mundiais de acordo com sua visão ideológica e seus interesses geoestratégicos” (COUSTILLIERE, 2022).

A partir de 1990, o desmembramento da ex-Iugoslávia trouxe a guerra para dentro da Europa, e os governantes europeus tiveram grande dificuldade em lidar sozinhos com esta crise. Foi necessária a intervenção diplomática dos Estados Unidos na Bósnia para negociar a paz. A OTAN saiu enfraquecida e os Estados Unidos com sua imagem fortalecida de defensores do planeta.

Soma-se à força da influência externa o peso financeiro dos Estados Unidos na OTAN. Os países membros devem contribuir com 2% de seu PIB para o orçamento da Aliança. Contudo, nem todos conseguem atingir essa meta. Em 2017, dos 30 membros, apenas seis atingiram a meta de 2%: Grécia, Reino Unido, Estônia, Romênia, Polônia e Croácia.

Os EUA são o maior contribuinte, com 3,4% do PIB, apoiando assim 70% dos esforços militares da OTAN. Isso assegura ao país americano um papel preponderante nas escolhas e operações da Aliança. Mas o ônus desse papel já foi questionado por Donald Trump que, em 2018, considerou a OTAN um “mau negócio” e defendeu que os países membros deveriam ressarcir os EUA pela desigual contribuição.

Enfim, são os Estados Unidos que comandam a OTAN e, portanto, quando um país adere à Aliança Atlântica estabelece uma estreita colaboração militar com os Estados Unidos. Para Moscou, integrar-se à OTAN significa escolher o Ocidente e colocar-se contra a Rússia.

Importante, lembrar também, que 25 membros da União Europeia estão na OTAN o que torna essa organização um trio onde convergem interesses e políticas de segurança de três entidades: a aliança Atlântica, os EUA e a União Europeia.

Episódio 17 – Quem é Vladimir Putin, o líder russo

Vladimir Putin ascende ao poder da Rússia em meio a uma severa crise econômica que levou à renúncia do presidente Bóris Iéltsin, em 1999 (v.Episódio 12). O chefe da FSB (antiga KGB, a poderosa organização de serviços secretos da URSS) era, então, uma figura desconhecida do grande público.

Além dos problemas internos, a Rússia amargava a derrota na Guerra da Chechênia (1994-1996). Apesar dos esforços do Kremlin em evitar a separação, a antiga república socialista conquistou sua independência, impondo grandes baixas aos russos e forçando o governo a um acordo de paz humilhante.

Putin mudou essa realidade. Enviou forças militares para invadirem a Chechênia abrindo uma segunda guerra (1999-2009) com uma violência generalizada que sequer poupou a população civil. Foram inúmeras as denúncias de massacres, estupros e torturas cometidos pelas tropas russas

Militantes chechenos responderam com outras atrocidades: explosão do metrô de Moscou, ataque a uma escola onde torturaram e mataram crianças, pais e professores. Putin revidou com armas químicas e fuzilamentos dos rebeldes.

A ação enérgica de Putin rendeu-lhe a fama de líder forte e implacável e uma enorme popularidade. Três meses depois de iniciada a guerra, ele venceu as eleições presidenciais no primeiro turno com 54,4% dos votos.

Para tirar o país da crise, Putin cortou impostos, aumentou salários na área de saúde e educação, estendeu benefícios sociais e reduziu consideravelmente a pobreza. Estatizou os setores estratégicos que até então estavam nas mãos dos oligarcas russos e ordenou a prisão de muitos deles. As medidas surtiram efeito: o PIB da Rússia subiu 6,4% em 1999, 10% em 2000 mantendo-se elevado nos anos seguintes tornando a Rússia a 7ª maior economia do mundo em 2007.

Putin foi reeleito em 2004 com 71% de aprovação, depois escolhido como primeiro ministro, novamente eleito presidente em 2012 com 63% dos votos, e reeleito em 2018 com 76% dos votos. Reformas na Constituição, deram a Putin o direito de ser reeleito até 2030, o que significa que ele poderá ocupar o poder até 2036.

As vitórias eleitorais de Putin, entretanto, não são resultado unicamente de sua popularidade. Há um forte controle da imprensa e a repressão a opositores incluindo assassinatos de políticos, jornalistas, ex-agentes e defensores de direitos humanos. Em 2006, o governo russo aprovou leis autorizando os seus agentes a matarem “inimigos do Estado” no estrangeiro. É a “democracia russa” de Putin.

Ao mesmo tempo, Putin explora a imagem de homem aventureiro, viril, másculo, de vida saudável ao ar livre, esportista, caçador de animais selvagens ou piloto de avião de caça. Essas atividades tradicionalmente associadas a força e domínio contribuíram para criar uma imagem de homem forte e capaz de governar com firmeza, o que inspira a segurança e confiança em muitos russos.

É um governante autocrata e conservador que defende valores religiosos e tradicionais, condena o casamento homossexual e alimenta a intolerância e a homofobia no país. Busca reconstruir o orgulho nacional russo com a exaltação das conquistas soviéticas durante a Segunda Guerra incluindo a figura de Stalin que, nos livros escolares, é descrito como um “líder eficiente”.

Episódio 18 – A política externa da Rússia de Putin

Quando Putin assumiu o poder, em 1999, a Rússia era vista pela União Europeia como uma periferia atrasada e fraca do continente tentando enfrentar as grandes potências. A nação havia perdido a vontade de lutar, as pessoas queriam acreditar na democracia e que o Ocidente viria salvá-las. Entretanto, as primeiras ondas de expansão da OTAN e o desmantelamento da Iugoslávia pelo Ocidente foram vistos pelos russos como uma punhada pelas costas. (KARAGANOV, 2022).

Putin reverteu esse quadro retomando a guerra contra os separatistas chechenos (v. Episódio 17). A segunda Guerra da Chechênia (1999-2009) mostrou ao mundo que Putin adotou uma política externa mais agressiva e decidida a manter a unidade russa. Durante o transcorrer da guerra chechena, ocorreram os Atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York. O líder russo viu no evento uma oportunidade de parceria com os EUA, afinal ambos tinham nos “terroristas” um inimigo comum. Neste sentido, Putin foi o primeiro chefe de Estado a se alinhar abertamente a Bush após os atentados.

Internamente, a economia russa se recuperava com o país voltando a apresentar altas taxas de crescimento (v. Episódio 17) o que contribuiu para o protagonismo bélico da Rússia no cenário internacional. O objetivo de Putin era tornar a Rússia novamente uma “grande potência moderna” no mundo.

As intervenções da União Soviética na política interna de outros países ocorreram, em grande parte, durante a Guerra Fria.

A invasão norte-americana ao Iraque, em 2003, mudou os rumos da ofensiva antiterrorista russa. As relações entre Rússia e Iraque eram antigas e, além disso, a Rússia é um estado multiétnico onde existem entre 20 e 25 milhões de muçulmanos. Putin se opôs firmemente à guerra e se recusou a apoiar a ação militar contra o Iraque. Seguiram-se outras invasões e intervenções dos EUA e OTAN em países do mundo árabe-muçulmano sob a justificativa de “Guerra ao Terror”. Isso alertou a Rússia que se sentiu ameaçada por suas características naturais, com milhares de quilômetros de fronteiras vulneráveis sem barreiras geográficas.

Em 10 de fevereiro de 2007, durante a Conferência de Munique sobre Política de Segurança, Vladimir Putin fez duras críticas aos EUA e à OTAN.

Os Estados Unidos ultrapassaram suas fronteiras nacionais em todos os sentidos. Isto é visível nas políticas econômicas, políticas, culturais e educacionais que impõe a outras nações. Isto é extremamente perigoso. O resultado é que ninguém se sente seguro, porque ninguém pode sentir que o direito internacional é como um muro de pedra que os protegerá. É claro que tal política estimula uma corrida armamentista. (Discurso de Vladimir Putin na Conferência de Munique, fragmento, 2007).

O discurso foi considerado o mais firme de um líder russo desde a Guerra Fria. Acusou os EUA de estarem se utilizando da força para impor sua vontade ao mundo, além de promover uma nova corrida armamentista. Apontou a intenção dos EUA de instalar mísseis na Polônia e na República Tcheca, e denunciou a ampliação da OTAN em direção ao Leste Europeu. Putin deixou claro o papel da Rússia na política internacional: ela não admitiria qualquer ameaça ao seu território e que adotaria posturas claramente reativas a acontecimentos fora e dento do país.

A Rússia de Vladimir Putin ficou associada a fortes suspeitas de influência indevida em processos políticos e até eleições em outros países, por meio de espionagem e cibernética para a disseminação de fake news que geram a discórdia e desconfiança entre os eleitores. As suspeitas são particularmente fortes em relação à campanha que elegeu Donald Trump, nos Estados Unidos, e ao referendo do Brexit que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, ambos ocorridos em 2016.

Putin nega qualquer acusação de intromissão no Ocidente dizendo que os EUA e o Reino Unido são dominados pela “histeria antirussa”, uma “russofobia”. Seja como for, o presidente Donald Trump e o premiê Boris Johnson, líder na campanha do Brexit, ficaram mais próximos de Putin.

Episódio 19 – Potencial bélico e militar da Rússia

Como herança da Guerra Fria, Rússia e Estados Unidos são os maiores detentores de bombas atômicas no mundo e, entre os dois, é a Rússia que possui o maior arsenal nuclear.

De acordo com a Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN, na sigla em ingês), a Rússia conta com mais de 6.225 ogivas nucleares enquanto os EUA possuem por volta de 5.550. Para se ter uma ideia do potencial destrutivo apenas uma ogiva lançada sobre a cidade de Nova York teria o poder de matar mais de 580.000 pessoas, de acordo com o ICAN.

Hoje, oito países possuem bombas atômicas: Rússia, EUA, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel. O arsenal em seu poder soma 13.080 ogivas, segundo o SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), organização dedicada a monitorar conflitos e a proliferação de armas pelo mundo. A totalidade das armas nucleares podem acabar com o mundo mais de 60 vezes. Além disso, estima-se que a Coreia do Norte possa fabricar até 50 bombas, com base no material radioativo que possui.

Com o avanço da tecnologia nuclear, foi criado o submarino movido por reator nuclear que permite o deslocamento em elevada velocidade e manter-se submerso por longos períodos de tempo (a geração atual de submarinos nucleares tem vida útil de 25 anos sem precisar ser reabastecido). São verdadeiras bases de lançamento móveis, mais difíceis de serem rastreadas e que podem disparar um míssel nuclear de qualquer ponto dos oceanos e mares do planeta.

Segundo o SIPRI, 2021, há 13.080 ogivas nucleares no mundo, capazes de destruir o planeta 60 vezes.

Segundo o The Military Balance 2021, publicado pelo The International Institute for Strategic Studies (IISS), a Rússia investe cerca de US$ 61 bilhões por ano em defesa e está entre os que mais investem na área ao lado dos EUA.

Além de ser uma potência nuclear, a Rússia detém um arsenal militar gigantesco: são mais de 1.500 aviões de combate, 12.420 tanques de guerra, 30.120 veículos blindados e 220 embarcações de guerra. Em tropas ativas possui 900.000 militares, e outros 2 milhões na reserva.

Fonte: The Military Balance 2021 publicado pelo The International Institute for Strategic Studies (IISS), Londres, RU.

IV. Ucrânia e Rússia: uma nova Guerra Fria

Episódio 20 – A Revolução Laranja da Ucrânia, 2004

A interferência da Rússia em campanhas eleitorais em outros países (v. Episódio 18) foi explícita no caso da Ucrânia, em 2004. Putin deu apoio ao candidato Viktor Yanukovych destinando fundos e logística para a campanha de seu preferido. O objetivo era ter um aliado que mantivesse a Ucrânia como um parceiro confiável, longe da OTAN (v. Episódio 15).

O resultado das eleições foi a vitória de Yanukovych, o que levantou uma onda de protestos alegando corrupção e fraude eleitoral. Eclode a chamada Revolução Laranja (cor do candidato derrotado, Viktor Yushchenko) que levou milhões de ucranianos às ruas com militantes e simpatizantes de Yushchenko acampados em tempo integral, ocupações de prédios públicos e uma greve geral na capital Kiev.

As eleições foram anuladas e, em dezembro de 2004, realizada uma nova eleição. Sob intensa fiscalização na contagem de votos, os resultados mostraram uma clara vitória de Yushchenko com 52% dos votos, enquanto o candidato “russo” recebeu cerca de 44%.

Viktor Yushchenko durante a Revolução Laranja contra a fraude eleitoral (novembro de 2004).

A Revolução Laranja reacendeu o sentimento nacionalista ucraniano. Engajou pessoas de todas as idades, aumentou a unidade geral da Ucrânia e aprofundou o ódio à Rússia. Para Putin foi uma derrota difícil de engolir. A retaliação russa veio na interrupção do fornecimento de gás para a Ucrânia.

Suspeitou-se, também, do envolvimento do Kremlin no misterioso envenenamento de Yushchenko, poucas dias antes de sua vitória. Ele caiu gravemente doente, com pancreatite aguda devido a uma violenta infecção por dioxina. Em seu sangue foram encontrados níveis de dioxina 6.000 vezes acima do normal. Análises do sangue concluíram que a dioxina “era tão pura que definitivamente foi feita em laboratório”.

O caso nunca foi plenamente esclarecido. As testemunhas principais mudaram-se para Moscou onde receberam a cidadania russa protegendo-se da extradição.

A Revolução Laranja foi vista pela Rússia como um golpe fascista, organizado por nacionalistas ucranianos de extrema direita e dirigido pela CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos. O movimento estudantil ucraniano Pora!, o mais atuante da revolução, foi considerado uma organização terrorista.  Ativistas do Pora! foram presos em novembro de 2004 suspeitos de terrorismo porque explosivos, detonadores e uma granada foram encontrados com eles. Os partidários de Yushchenko, porém, rejeitaram essa afirmação.

Os EUA e, por extensão, o Ocidente, interpretaram a Revolução Laranja, como um legítimo movimento democrático em que prevaleceu a vontade do povo. Viktor Yushchenko recebeu o prêmio “Perfil de Coragem”, atribuído anualmente pela Fundação John F. Kennedy, a personalidades que lutam pela liberdade e democracia. Entretanto, à medida que sua política se tornava menos pró-ocidental do que desejavam os formadores de opinião europeus e norte-americanos, Yushchenko praticamente desapareceu dos noticiários ocidentais assim como sua aura de herói.

Episódio 21 – O conturbado governo de Yanukovych e sua queda, 2014

Nas eleições presidenciais ucranianas de 2010 vence Viktor Yanukovych – o candidato que havia sido eleito e logo a seguir derrubado pela Revolução Laranja de 2004 (v. Episódio 20).

Viktor Yanukovych (2010-2014) executou uma política pró-Rússia. Autorizou a presença das tropas russas na Crimeia e o treinamento de militares na península de Kerch. O acordo foi denunciado como inconstitucional, já que a Constituição da Ucrânia desautoriza tropas estrangeiras permanentes no país após a expiração do Tratado de Sebastopol.

Em 2013, Yanukovych suspendeu a assinatura de um acordo de livre comércio com a União Europeia, optando por buscar laços mais estreitos com a Rússia.

A decisão de Yanukovych causou uma enorme onda de protestos no país, que foi chamada de Euromaidan (“Europraça”) ou Primavera Ucraniana. Os protestos, inicialmente conduzidos por estudantes universitários, reuniram amplos setores da população descontentes com a gestão do governo. Os protestos duraram três meses (de novembro de 2013 a fevereiro de 2014) e culminaram no impeachment de Yanukovych, enquanto ele fugia para a Rússia.

Cenas do Euromaidan: acima, manifestantes atiram bombas Molotov contra policiais; abaixo, veículos queimados em rua de Kiev, janeiro de 2014.

Como ocorreu na Revolução Laranja, também houve suspeitas de  que o Euromaidan foi deliberadamente controlado por governos ocidentais. Putin e Yanukovych acusaram a União Europeia e OTAN de atuarem para convulsionar a política interna da Ucrânia. Segundo Putin, o Euromaidan foi instrumento para o golpe de Estado provocado por potências estrangeiras com ajuda de grupos ultranacionalistas de extrema direita.

Em uma entrevista coletiva, Yanukovych acusou grupos de ultranacionalistas e neofascistas responsáveis pelo golpe, e que a tomada de Kiev teve ajuda financeira dos EUA. “Vocês ficaram cegos? Esqueceram o que é o fascismo?”, perguntou Yanukovych referindo-se aos seus adversários. Em 24 de janeiro de 2019, ele foi condenado à revelia por um tribunal ucraniano a treze anos de prisão por alta traição.

Os protestos do Euromaidan mostraram que o clima de hostilidades ente Ocidente (Estados Unidos e União Europeia) e Oriente (Rússia) não terminou com o desmantelamento da URSS. A Rússia de Putin está decidida a não perder nenhum país sob sua influência. Charde de Latuff, Opera Mundi, 2014.

Episódio 22 – Retaliação russa: a anexação da Crimeia, 2014

Em fevereiro de 2014, Putin enviou forças militares russas para a Ucrânia com a justificativa de proteger os cidadãos russos residentes naquele país. Tropas russas sem identificação nem insígnias se deslocaram para a Crimeia, a região mais rica da Ucrânia. No mês seguinte, a anexação foi concluída (18 de março de 2014). O professor Vitelio Brustolin, do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF, comentou a respeito:

“Uma questão que sempre ouço é: por que os soldados russos que tomaram a Crimeia não usavam identificação russa, nem os carros de combate e equipamento que utilizaram eram identificados? A resposta é que Vladmir Putin estava se esquivando do Direito Internacional nesse caso. Guerras de anexação são proibidas pela Carta das Nações Unidas (que é o tratado de criação da ONU). Na verdade, conflitos com o uso da força deveriam ser autorizados pelo Conselho de Segurança, do qual a própria Rússia e os Estados Unidos são membros permanentes. Esse conflito não foi autorizado e a Rússia nega que tenha enviado militares para lá” (Brustolin em entrevista para a UFF, 2022).

A península da Crimeia, no sul da Ucrânia, tem uma população multiétnica com maioria de russos (58%), seguida por ucranianos (24%) e tártaros (12%). A península separa o Mar de Azov do Mar Negro que, por sua vez, é a saída marítima para o mar Mediterrâneo. No porto de Sebastopol está sediada a frota russa do Mar Negro.

Segundo Brustolin, a anexação da Crimeia foi a maior tomada de território na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Tecnicamente, a guerra não terminou. A Ucrânia considera a Crimeia ocupada pela Rússia e, portanto, não reconhece a perda do território. Além disso, move uma ação na Corte Internacional de Justiça (tribunal da ONU) contra a Rússia, acusando-a de financiamento ao terrorismo e discriminação racial. A Rússia, por sua vez, fala o mesmo da Ucrânia e diz que a Crimeia é território russo.

Como retaliação, a Ucrânia adotou uma guerra ambiental contra a Crimeia: cortou o abastecimento de água da península, fechando o canal que abastecia os reservatórios com água do rio Dnipro. A área de irrigação da Crimeia foi reduzida em 92%, destruindo cultivos e inviabilizando indústrias, a pesca e o turismo (uma grande fonte de rendas). A região está se transformando em um deserto salgado e a população padece a falta de água até para uso pessoal (HEIDRICH, 2019).

Episódio 23 – Ultranacionalistas, neonazistas e antissemitas

Nos últimos anos do governo de Viktor Yuschenko (2005-2010), começam a ganhar força os debates exaltando os “heróis” nacionalistas ucranianos da Segunda Guerra Mundial (v. Episódio 7). Falava-se, então, em reconhecer aos guerrilheiros do UPA o status de veteranos de guerra, e também na translação para a Ucrânia dos restos mortais de líderes como Stepan Bandera (v. Episódio 8) e Yaroslav Stetsko, colaboradores dos nazistas e responsáveis por massacres de judeus durante a Segunda Guerra.

Ruas receberam os nomes desses nacionalistas que “lutaram pela pátria para combater o bolchevismo-judaico”. Foram erguidas duas estátuas dedicadas a Bandera – logo explodidas por opositores pró-russos. Hoje elas são guardadas por um destacamento de milícias 24 horas por dia.

Em 2010, Yushchenko concedeu a Bandera o título de herói da Ucrânia por “defender ideias nacionalistas e lutar por um estado ucraniano independente”. Pouco tempo depois, o novo presidente Viktor Yanukovych (2010-2014) seguindo uma orientação pró-Rússia, declarou que anularia o título para Bandera.

Em dezembro de 2018, sob o governo de Petro Proshenko (2014-2019) o parlamento ucraniano decidiu conferir novamente o prêmio a Bandera, além de adotar uma política nacionalista que promoveu a língua ucraniana e a descomunização do país com a remoção de monumentos comunistas e a renomeação obrigatória de ruas e locais públicos com nomes relacionados ao comunismo.

Para a historiadora russa Viatcheslav Likhatchev, a heroicização dos líderes ultranacionalistas contribui para legitimar a ideologia dos grupos de extrema-direita perante a opinião pública. A visibilidade dada pelas mídias à retórica populista e nacionalista desses grupos angariou simpatizantes e apoiadores na sociedade. A conjuntura histórica – a Revolução Laranja (2004), os protestos do Euromaidan (2013-2014) e as políticas nacionalistas de Yuschenko e Proshenko – criou o cenário onde esse processo fluiu sem censura e se fortaleceu.

A atuação dos ultranacionalistas ucranianos remonta à década de 1920 (v. Episódio 4), passou pela Segunda Guerra onde absorveu a ideologia nazista (v. Episódios 6, 7 e 8) e ganhou maior protagonismo a partir de 2010. O ódio à Rússia alimentou o discurso ultranacionalista em defesa da segurança nacional, da soberania e da luta pela “verdadeira” independência.

Os extremistas apresentaram-se, inicialmente como grupos populistas de direita e conservadores em relação às questões sociais, e daí passaram a expressar o ideário neofascista ou neonazista com a adoção de símbolos e a retórica supremacista, racista, xenófona, antissemita, anticomunista e russofóbica.

A partir de 2014, a escalada de violência desses grupos incluiu todo tipo de agressividade, com batalhas de rua, ataques a edifícios públicos, atos de banditismo e intimidação de funcionários públicos inclusive policiais civis. O Batalhão Azov, por exemplo, é acusado de crimes contra os direitos humanos por torturas, estupros, saques, limpeza étnica, perseguição de minorias como homossexuais, judeus e russo

Entre os grupos de extrema-direita e ultranacionalistas ucranianos, destacam-se:

  • Setor Direito, criado em novembro de 2013, tornou-se um partido político em março de 2014.
  • Svoboda ou União Pan-Ucraniana Liberdade, surgiu em 1991 e, após o Euromaidan (2013-2014), ocupou cinco cargos de alto escalão no governo da Ucrânia.
  • Batalhão Azov, criado em 2014, durante os protestos da Euromaidan, é uma organização paramilitar que recebeu treinamento por instrutores militares da OTAN para lutar contra separatistas pró-russos no leste da Ucrânia.
  • Corpo Nacional, anteriormente chamado Patriotas da Ucrânia, fundado em 2016 por veteranos do batalhão Azov, é a favor de restaurar o status de potência nuclear da Ucrânia.

Encontro de membros dos partidos de extrema-direita, em Kiev, em 22 de fevereiro de 2017: Corpo Nacional (bandeira amarela com símbolo central), Setor Direito (bandeira preta e vermelha) e Svoboda (bandeira azul e amarela).

Apesar da convergência ideológica não há unidade entre esses grupos e, em alguns casos, existem sérias divergências por ambição pessoal, disputas por fundos e cooptação de seguidores, pretensões políticas, visibilidade nas mídias e rivalidade de imagens de heróis e protetores da pátria.

Importante lembrar que esses grupos têm se disseminado para além das fronteiras ucranianas. O Batalhão Azov afirma possuir vários voluntários estrangeiros em suas fileiras, principalmente georgianos, romenos, alemães, ingleses, franceses, libaneses e até mesmo alguns russos. Em 2016, a Polícia Federal do Brasil desmantelou uma célula do Batalhão de Azov no Rio Grande do Sul que recrutava neonazistas brasileiros para serem enviados para a Ucrânia.

Episódio 24 – Disputas entre Ucrânia e Rússia pelo gás natural

A Ucrânia é o principal corredor de trânsito para as exportações de gás da Rússia. Em 2004-2005, 80% do gás russo exportado para a União Europeia ocorreu através do território ucraniano. Dois terços da receita da Gazprom (fornecedora de gás russo) vêm da venda de gás que atravessa a Ucrânia. A Gazprom fornece aproximadamente um quarto do gás natural consumido na União Europeia para aquecimento doméstico e industrial.

As disputas entre Rússia e Ucrânia dizem respeito ao preço do gás natural fornecido e o custo do trânsito. A Rússia acusa a Ucrânia de desviar o gás e não honrar suas dívidas. As tensões têm levado a Rússia aa cortar o fornecimento de gás que passa pelo território ucraniano, o que afeta muitos países europeus. Isso já ocorreu em 2005, 2008, 2009, 2014, 2015.

Segundo a Gazprom, as entregas foram interrompidas por falta de pagamento da Ucrânia. Já o governo ucraniano alega que parou de comprar da Gazprom porque a Ucrânia obtém gás natural mais barato de outros fornecedores.

Especialistas afirmam que desde a Revolução Laranja, em 2004 (v. Episódio 12), a relação entre os dois países está abalada. Além disso, a Ucrânia passou a cooperar mais com a OTAN, enviando o terceiro maior contingente de tropas para o Iraque em 2004, além de forças militares às missões da OTAN no Afeganistão e em Kosovo. Cooperar com a OTAN é ficar do lado do Ocidente / EUA e contra a Rússia (v. Episódio 16).

Para resolver o impasse, a estatal russa Gazprom com o apoio de cinco empresas europeias de energia (onde a Alemanha é sócia majoritária) decidiu construir outros gasodutos para abastecer a Europa sem passar pela Ucrânia. São eles: o Nord Stream 1 e 2 (interligando Rússia à Alemanha, sob o mar Báltico), Yamal-Europa (interligando a Sibéria à Polônia e Alemanha) e o Turk Stream (que envia gás russo para a Turquia e Bulgária).

Desde 2018, quando começaram as construções dos novos gasodutos, a Gazprom vem reduzindo substancialmente os volumes de gás que transita pela Ucrânia.

O Nord Stream 2 é o segundo ramal de gasoduto que conecta Rússia e Alemanha. A obra, que custou 9,5 bilhões de euros, pertence à estatal russa Gazprom e foi construída com o apoio de cinco empresas europeias de energia. A inauguração do gasoduto prevista para 2022 foi cancelada pela Alemanha como sanção à Russa.

Os gasodutos Nord Stream 1 e 2 foram concluídos em 2021, e o primeiro entrou em funcionamento naquele, enquanto o segundo estava previsto para iniciar as operações em meados de 2022.

Os novos gasodutos representam um sério abalo economia ucraniana que tem no trânsito do gás por seu território uma receita de US$ 3 bilhões ao ano. É nesse ponto que entram os Estados Unidos: eles também não querem que o Nord Stream 1 e 2 entrem em funcionamento. Sua intenção é prover a Europa com o seu gás natural líquido, o shale gas, o gás de xisto, muito mais caro que o gás russo.

De olho nos lucros, os Estados Unidos se colocaram como aliados da Ucrânia para tirar dos russos o fornecimento de gás para a Europa. Para convencer os países europeus, especialmente a Alemanha, a isolarem a Rússia e não aceitarem o seu gás, os Estados Unidos têm ameaçado com sanções, insuflado manifestações populares anti-Rússia e disseminado informações russofóbicas nas mídias.

Em fevereiro de 2022, um dia depois de Putin ter anunciado que reconhecia a independência das cidades separatistas Donetsk e Luhansk e de permitir que tropas russas invadissem a região, a Alemanha cancelou provisoriamente a certificação e inauguração do gasoduto.

Fontes

 

 

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