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Cannabis, de planta sagrada a demonizada, uma história milenar

28 de junho de 2024

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A história da cannabis e seu uso pelos humanos remonta pelo menos ao Terceiro Milênio a.C. na história escrita, e possivelmente já no Neolítico pré-cerâmica (8.800-6.500 a.C.), com base em evidências arqueológicas. Durante milênios, a planta foi valorizada pela sua utilização em fibras e cordas, como alimento e medicamento, e pelas suas propriedades psicoativas para uso religioso e recreativo.

O cânhamo é uma planta pertencente à espécie Cannabis sativa, originária do continente asiático. Escavações arqueológicas nas ilhas Oki, no Japão, confirmam o cultivo de cânhamo em 8.000 a.C. Foram também encontrados resquícios pré-históricos na Índia, Tailândia e Malásia.

Fibras de cânhamo eram usadas para fazer roupas, sapatos, cordas e uma forma inicial de papel. Das suas folhas e flores é produzida a maconha e o haxixe.

 Cannabis na China Antiga

A cannabis é cultivada na China desde o neolítico, 5.000 a.C. Cordões de cânhamo eram usados ​​para imprimir desenhos de linhas na cerâmica da cultura Yangshao.

São também chineses os primeiros registros de seu emprego na medicina, atribuídos ao mítico imperador Shen Nong, o Divino Agricultor ou Fazendeiro Divino, pai da medicina chinesa. Na farmacopeia do imperador Shen Nung, datada de c. 2800 a.C., o chá de cannabis era prescrito para diversas enfermidades, como gota, artrite, depressão, amenorreia, inflamação, dor, falta de apetite e asma.

Imperador Shen Nong pai da medicina chinesa, provando uma erva medicinal, gravura de 1750.

O livro Shennong Bencaojing  (Clássico de Ervas de Shen-Nong), escrito entre cerca de 206 a.C. e 220 d.C., é um compilado em três volumes das receitas do mítico imperador sobre agricultura e plantas medicinais. O primeiro volume trata sobre 120 drogas inofensivas ao ser humana, de “propriedades estimulantes”. Entre elas, estão as ervas descritas como “nobres”: ginseng, lingshi (cogumelo), tâmara vermelha, laranja, canela chinesa, casca de Eucommia, raiz de alcaçuz e cannabis

O livro descreve a ação do cânhamo: a planta relaxava o corpo e permitia comunicar-se com os espíritos. Ao mesmo tempo, alerta que doses excessivas poderiam levar a alucinações.

Cannabis na Ásia Central antiga

Várias das múmias Tarim, escavadas perto de Turpan, na província de Xinjiang, no noroeste da China, foram enterradas com sacos de cannabis ao lado de suas cabeças. Possivelmente, esses indivíduos eram xamãs.

Uma múmia de Tarim, de 3.800 anos atrás, província de Xinjiang, no noroeste da China.

O arqueólogo chinês Hongen Jiang e seus colegas escavaram uma tumba de 2.400-2.800 anos atrás, na Bacia de Turpan, noroeste da China, e encontraram os restos mortais de um homem de 35 anos com características caucasianas, enterrado com treze plantas de cannabis de 1 metro, colocadas diagonalmente sobre seu peito. Jiang disse que esta é a primeira descoberta arqueológica de plantas de cannabis completas, bem como a primeira incidência de seu uso como mortalha (ROMEY, 2016).

Escavações arqueológicas em 1947 de túmulos em Pazyryk, nas montanhas Altai, na Sibéria, revelaram vestígios de tendas de madeira. Em seu interior, havia um vaso de bronze cheio de restos de sementes e pedras de cânhamo que, provavelmente, foram deixadas fumegando na sepultura. Num dos montes, também foi recuperada uma bolsa de couro contendo sementes de cânhamo, coentro e melilotus.

Escavações realizadas nas sepulturas do Cemitério Jirzankal, no planalto de Pamir, extremo oeste da China, encontraram 10 tigelas de madeira contendo pequenas pedras e sementes de cannabis. A análise indicou que o conteúdo foi queimado produzindo alto nível de THC, o principal psicoativo da cannabis. A descoberta em Jirzankal fornece a primeira evidência direta de que humanos inalaram plantas de cannabis queimadas para obter seus efeitos psicoativos (DANAHUE, 2019).

Vestígios encontrados no cemitério de Jirzankal, no oeste da China, 2500 anos; no destaque, um braseiro contendo pedras e restos de sementes queimadas de cannabis. A análise revelou um nível alto do psicoativo THC.

Heródoto e a cannabis

A inalação por fumaça de cannabis foi descrita pelo historiador grego Heródoto, no século V a.C., em suas Histórias. Ele escreveu sobre as práticas cerimoniais dos citas, tribo nômade que vivia nas estepes do Cáspio.

Em seus ritos fúnebres, os citas se reuniam numa tenda, lançavam sementes de cânhamo sobre pedras em brasa e se purificavam num banho de vapor. “Os citas se alegram com a sauna e uivam de prazer”, conta Heródoto.

O que Heródoto chamou de “semente de cânhamo” deve ter sido o topo florido da planta, onde a resina psicoativa é produzida junto com o fruto (“sementes”).

Heródoto também observou que os trácios, um povo que tinha contato íntimo com os citas, introduziram a planta entre os dácios, onde ela se tornou popular no culto xamânico Kapnobatai ou “aqueles que andam nas nuvens”. Os xamãs dácios eram conhecidos por usar fumaça de cânhamo para induzir visões e transes.

Os túmulos dos frígios e citas frequentemente continham sementes de cannabis sativa.

Aliás, as palavras cânhamo e cannabis, vêm do grego, kánnabis, que, por sua vez,  provém do idioma cita. Elas também existem em acadiano antigo (qunnabtu), em neoassírio e neobabilônico (qunnabu) e em persa (kanab) – sinalizando que a planta também foi conhecida por essas civilizações antigas.

Cannabis na Índia antiga e atual

A primeira menção a cannabis no Hinduísmo foi encontrada nos Vedas – textos sagrados hindus datados de 2000 a 1400 a.C. De acordo com os Vedas, a cannabis era uma das cinco plantas sagradas na qual um anjo morava nas suas folhas. As escrituras hindus consideram a cannabis a fonte da felicidade doadora de alegria e libertadora da ansiedade. No Raja Valabba, os deuses enviam cânhamo à raça humana para que eles possam atingir o deleite, perder o medo e ter desejos sexuais.

Shiva, importante divindade hindu, é frequentemente associado a cannabis, chamada ‘bhang’ na Índia. Segundo a lenda, Shiva vagou pelos campos depois de um discurso irado com sua família. Exausto do conflito familiar e do sol quente, ele adormeceu sob uma planta frondosa. Ao acordar, sua curiosidade o levou a provar as folhas da planta. Instantaneamente rejuvenescido, Shiva fez da planta seu alimento favorito e ficou conhecido como o Senhor de Bhang.

A deusa Parvati oferece “bhang” (cannabis) a Shiva.

Muitas famílias na Índia possuem e cultivam uma planta de cannabis para oferece-la a um sadhu (homens sagrados ascetas), e durante alguns serviços devocionais noturnos não é incomum que a cannabis seja fumada por todos os presentes.

A cannabis é popular na Índia e é frequentemente tomada como uma bebida. Nozes, amêndoas, pistaches, sementes de papoula, pimenta, gengibre e açúcar são combinados com cannabis e fervidos com leite ou misturados com iogurte.

Loja em Calcutá, Índia, vendendo “bhangs” (cannabis).

Cannabis na Bíblia Hebraica

O tema é controverso: arqueólogos e especialistas em paleobotânica de Israel Antigo e Bíblia Hebraica afirmam que não há documentação ou menção da cannabis no judaísmo primitivo. Mas há quem afirme haver evidência do uso religioso de cannabis na Bíblia Hebraica, mais especificamente no óleo sagrado da unção do Livro Êxodo.

Em Êxodo 30: 22-25 conta-se que Deus instruiu Moisés para fabricar o óleo sagrado da unção feito a partir de mirra pura, canela doce, cássia, azeite de oliva e cana perfumada (kaneh bosem, às vezes traduzida como cálamo).

A Bíblia menciona a kaneh bosem como uma grama aromática, importada de uma terra distante por meio da rota das especiarias. No Cântico dos Cânticos 4:14, é referenciado como uma planta cultivada em Israel.  Várias plantas diferentes foram nomeadas como sendo, possivelmente, a kaneh bosem

Segundo a antropóloga polonesa Sula Benet, a kaneh bosem, mencionada cinco vezes na Bíblia Hebraica, era cannabis (BENET, 1975). Embora a conclusão de Benet sobre o uso psicoativo de cannabis não seja universalmente aceita entre os estudiosos judeus, há um consenso de que a menção à cannabis em fontes talmúrdicas referia-se às fibras de cânhamo, uma mercadoria importante antes do linho substituí-lo.

O assunto ganhou novo destaque quando, em 2020, foi anunciado que resíduos de cannabis foram encontrados no altar do santuário israelita em Tel Arad, datado do século VIII a.C., do Reino de Judá. A análise dos resíduos indicou que a cannabis foi queimada, como parte de um ritual israelita na época (ARIE e outros, 2020).

Cannabis na Europa

Na Europa, os achados mais antigos de cannabis têm cerca de 5.500 anos na região de Eisenberg (Turíngia, Alemanha), provavelmente originária do Cazaquistão. As descobertas de sementes de cânhamo datam de cerca de 2.500 a.C. na área da atual Lituânia.

Os antigos gregos e seus vizinhos egípcios costumavam vestir-se de cânhamo. O cânhamo, a urtiga e o linho foram, durante muito tempo, as plantas fibrosas mais importantes da Europa.

Plínio, o Velho (século I d.C.) escreve que o cânhamo alivia a dor e o médico grego Pedanios Dioscurides, da mesma época, relata a eficácia do suco de sementes de cânhamo contra dor de ouvido.

Desde a Idade Média até os tempos modernos, o cânhamo tem sido usado para aliviar cólicas de contração e sintomas de dor pós-parto. As fibras da planta continuaram sendo usadas para diversas finalidades.

Muitas armas medievais, como o arco longo, cuja corda era feita de cânhamo, não teriam sido possíveis sem a robusta e resistente fibra de cânhamo, que pode suportar enormes forças de tração.

A recomendação do uso da cannabis foi feita pela monja beneditina Hildegarda de Bingen (1098-1179),  também conhecida como Sibila do Reno, mística, teóloga, médica, escritora e compositora. Escreveu textos teológicos, botânicos e medicinais, canções, poemas, sendo a autora da mais antiga obra moral sobrevivente.

Hildegarda era conhecida por seus talentos e habilidades de cura, incluindo a aplicação prática de tinturas, ervas e pedras preciosas. Ela cultivou cannabis em seu jardim de ervas e recomendou-a para problemas de náuseas e de estômago. Considerada uma das mulheres mais influentes da Idade Média, ela é reconhecida como santa e doutora pela igreja Católica.

Outra aplicação da fibra de cânhamo era a produção de papel, iniciada na Espanha muçulmana no século XII. O cânhamo, juntamente com os trapos (muitas vezes feitos de cânhamo) eram a matéria prima para a fabricação de papel.

A primeira fábrica de papel em terras alemãs foi construída em Nuremberg em 1290. Gutenberg imprimiu sua famosa Bíblia em papel de cânhamo, em 1455.

A Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, e seus rascunhos foram impressos em papel de cânhamo.

O cânhamo foi importante, também, nas viagens marítimas do século XVI. As cordas e velas feitas de cânhamo eram resistentes à água salgada e absorvem menos água do que, por exemplo, o algodão. Velas de algodão ficam tão pesadas na chuva que os mastros poderiam quebrar. O linho era um substituto pobre porque apodrece em poucos meses quando entra em contato com a água.

Veneza alcançou a supremacia como importante centro comercial na Idade Média graças, entre outras coisas, à alta qualidade da fabricação de cordas de cânhamo. A produção de cânhamo na Europa continuou sendo importante até o século XX.

A proibição da cannabis

No começo do século XX, as fibras sintéticas, especialmente do fabricante DuPont, começaram a substituir o cânhamo da produção de roupas. Na década de 1930, a forte campanha anti-cannabis de Harry J. Anslinger, chefe do Federal Bureau of Narcotics, nos EUA, colocou um ponto final na produção de cannabis no país.

A campanha anti-cannabis ganhou um poderoso aliado: o filme Reefer Madness, também conhecido como Tell Your Children (1936, EUA), dirigido por Louis J. Gasnierta. Feito para ser exibido nas escolas, o filme demoniza a maconha como uma droga altamente viciante que causa transtornos mentais, loucura e violência.

Finalmente, em 1937, a Lei de Taxação da Maconha (Marihuana Tax Act) proibiu o uso de cannabis para fins medicinais e recreativos, bem como o cultivo de cânhamo nos EUA.

Estímulo à produção de cannabis nos EUA

Poucos anos depois da proibição, o governo dos EUA foi forçado a revogar a Lei de Taxação da Maconha de 1937 e promover o cultivo de cânhamo: ele era necessário para os uniformes, lonas e cordas usados durante a Segunda Guerra Mundial. Grande parte do cultivo foi feito em Kentucky e no Centro-Oeste.

Em 1942, o Departamento de Agricultura dos EUA produziu um curta-metragem, Hemp for Victory (“Cânhamo para a Vitória”) incentivando os agricultores a cultivarem o máximo possível. O filme mostra a história do cânhamo, como é o seu cultivo e os produtos feitos com ele.

Selo fiscal para um produtor de cânhamo nos EUA, 1945.

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