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Mitra, o Sol Invicto e o nascimento de Jesus

19 de dezembro de 2022

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No calendário romano, foi introduzida, no século III d.C., a celebração do nascimento do Sol Invictus que ocorria no dia 25 de dezembro. O Sol Invictus era, então, associado a Mitra como um epiteto desse deus. Entre os século III e IV, Sol Invictus Mitra foi uma das divindades mais populares entre os não-cristãos romanos.

O nome Mitra remonta à divindade indo-iraniana do zoroastrismo. No persa antigo significa “luz, sol, misericórdia, amizade, amor”. Era a divindade guardiã da verdade, “com mil ouvidos, com dez mil olhos, alto, com pleno conhecimento, forte e sempre acordado”. Era o protetor de todos os aspectos das relações interpessoais, como amizade e amor.

Na Índia antiga também havia um deus védico de nome Mitra que significava “contrato” ou “amigo”. O Mitra indiano era, porém, mais um estado do que uma entidade: era o Harmonizador e o Construtor, a beleza e a perfeição, o princípio da harmonia pelo o qual os múltiplos mecanismos da Verdade concordam em uma união perfeitamente selada (SPALDING, 1980).

Mitra (à esquerda) investe Shapur II (centro), imperador do Império Sassânida, tendo à sua frente Ahura Mazda, o deus supremo. Sobre seus pés, o imperador romano Juliano morto. Alto relevo do século IV em Taq-e Bostan, no oeste do Irã.

No Império Persa e na Índia, Mitra era um deus da justiça e da aliança, e também deus da luz ou do sol. Vigiava a ordem cósmica, como as estações do ano e a alternância do dia e da noite. Era o guardião da virtude e da justiça, protegendo os crentes e punindo os infiéis. Sua tarefa mais importante era proteger a felicidade real e a graça divina.

Segundo Plutarco, os romanos tomaram contato com o culto a Mitra por meio de piratas cilícios liderados por Pompeu em 67 a.C. Por essa época, seu culto já tinha se distanciado das características persa e indiana, estava helenizado e seus seguidores eram iniciados nos mistérios.

Mitraísmo: uma religião de mistérios

Chama-se religião de mistérios ou simplesmente mistérios aquela que possui um corpo de conhecimento secreto, isto é, um conjunto de crenças e práticas que são reveladas apenas aos iniciados em seus segredos.

A religião de mistérios é um fenômeno helênico, em que o maior exemplo são os mistérios de Elêusis, ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas Deméter e Perséfone. Os mistérios de Elêusis eram a instituição iniciática coletiva por excelência do Estado ateniense. Seu segredo foi bem guardado e não existem informações completas sobre os ritos. (ELIADE, 1995).

O culto a Mitra, helenizado, foi adotado e transformado em Roma, de modo que o mitraísmo tem contornos próprios que o distingue da remota origem persa e indiana. Roma imperial já tinha, então, outros mistérios: Dionísio, Ísis, Serápis etc.

Os mistérios de Mitra eram celebrados no mitreus (latim, mithraeum, pl. mithraea), um templo subterrâneo que podia ser uma caverna natural adaptada ou uma construção imitando uma caverna. Muitas vezes era construído abaixo de um edifício existente, como mitreus encontrado sob a Basílica de São Clemente, em Roma.

Um mithraeum encontrado nas ruínas de Ostia Antica, Itália.

Pela estrutura do mitreu é possível supor que os fiéis se reuniam para uma refeição comum sentados nos bancos que revestiam as paredes. Mircea Eliade, baseando-se em evidências arqueológicas, afirma que os iniciados ficavam nus, ajoelhados, com os punhos atados e olhos vendados. Eles passavam por sete estágios ou graus, cada um deles regido por um planeta:

  1. Corvo – Mercúrio
  2. Ninfo – Vênus
  3. Soldado – Marte
  4. Leão – Júpiter
  5. Persa – Lua
  6. Mensageiro do Sol – Sol
  7. Patriarca – Saturno

O Mitra romano

Os romanos, portanto, ao adotarem o culto a Mitra o transformaram criando uma nova religião. Segundo Alves (2018), os rituais, os mitos, o espaço sagrado do mitraísmo é uma inovação romana.

Entre os séculos I e IV, o mitraísmo era a religião popular em toda metade ocidental do Império incluindo a África romana até a Grã-Bretanha, e em menor grau na Síria romana no leste. O culto parece ter tido seu centro em Roma, onde estima-se que existissem 680 locais de culto à Mitra.

Não sobreviveu, porém, nenhuma narrativa escrita ou teologia da religião dos próprios mitraístas; informações limitadas podem ser derivadas das inscrições e referências breves ou passageiras na literatura grega e latina. A interpretação da evidência física permanece problemática e contestada.

Tradicionalmente, o mitraísmo romano é dito como uma religião de soldados. Estudos mais recentes, porém, afirmam que se tratava de uma fraternidade masculina, com apelo às classes médias urbanas (comerciantes, fazendeiros, funcionários públicos, inclusive oficiais militares), conforme argumenta Alves.

Mitra, relevo romano, século II d.C.

Entra em cena o Sol Invictus

No século III, o culto a Mitra passou a ser associado ao Sol Invictus, “Sol Invencível”, culto procedente da Síria e introduzido pelo imperador Aureliano no ano 274. Depois de vencer o exército da rainha Zenóbia, de Palmira, na Síria, em 272 a.C., o imperador Aureliano foi ao templo local de Mitra para agradecer a vitória.

Aqui começa a confusão: Mitra e o Sol Invictus são os mesmos deuses? Em algumas referências, Mitra e o Sol Invictus se fundem como “Deus Sol Invictus Mithras”, mas em outras, são deuses distintos.

Deus Sol Invicto., disco de prata romano do século III d.C., encontrado em Pessino, atual Turquia. Museu Britânico.

Aureliano erigiu templos ao Sol Invictus (em Roma tinha pelo menos quatro) com sacerdotes e tornou-o um culto oficial com uma data de comemoração: 25 de dezembro, natalis del Sol Invictus. Ele também instituiu jogos em homenagem ao deus sol, realizados a cada quatro anos a partir de 274 d.C.

O 25 de Dezembro foi, portanto, inserido no calendário civil romano como o Dia do Sol Invencível, que triunfa sobre a escuridão. A data marcava a virada do solstício de inverno, quando a luz do dia começava a aumentar gradativamente.

O culto ao Sol Invicto foi celebrado até o Edito de Teodósio, no ano 380, que estabeleceu o cristianismo como única religião do império proibindo todas as demais.

Altar com duas inscrições: em latim, ao “Sol Sanctisimus” (Sol Invicto) e, do outro lado, em aramaico a Malakbel, divindade solar da região de Palmira, na Síria. Este altar provavelmente foi feito em Roma entre os séculos II e III d.C., Museu Capitolino, Roma.

Mitraísmo e cristianismo: muita especulação

Há muita especulação em torno do mitraísmo que busca demonstrar uma correspondência direta com o cristianismo, como se o cristianismo fosse uma derivação ou uma versão plagiada do mitraísmo.

O arqueólogo francês Salomon Reinach (1858-1932) e o erudito belga Franz Cumont (1868–1947) são alguns nomes cujos estudos fornecem interpretações criativas, porém sem nenhum respaldo histórico.

Nesta linha especulativa, afirma-se que o mitraísmo teria práticas de acender velas, tocar sinos, cantar hinos, praticar uma refeição ritual de pão e vinho. Mitra seria filho do deus supremo Ahura-Mazda e de uma mulher mortal tendo, portanto, como Cristo, uma origem paterna divina e uma origem materna humana. Ao nascer, Mitra foi visitado por magos, teria tido doze discípulos, fora crucificado, ressuscitara e prometera retornar no juízo final. Especulações sem qualquer evidência histórica.

Pouco se sabe sobre o culto romano a Mitra e sua mitologia. Sendo uma religião de mistérios, seus seguidores eram proibidos de contar ou escrever qualquer coisa sobre crenças e rituais. Além disso, o cristianismo vitorioso, a partir do Edito de Teodósio, em 380, procurou suprimir a memória do culto mitraico.

Os mitraístas foram perseguidos pelos cristãos e o mitraísmo foi posteriormente suprimido e eliminado no Império Romano, no final do século V.

O Sol Invicto foi absorvido e transformado pelos cristãos como representação simbólica do “nascimento da luz do mundo”, Jesus Cristo, o “verdadeiro” Sol Invicto.

Jesus, a luz do mundo: um Sol Invicto disfarçado?

Jesus representado sob o disfarce de Mitra-Sol Invicto (reconhecido pelos sete raios em sua cabeça) conduzindo uma biga. A imagem de Jesus foi deduzida pelas folhas de videira que contornam a figura. Mosaico do séc. III na Necrópole do Vaticano, sob a Basílica de São Pedro

A metáfora da luz símbolo da verdade, do conhecimento, da consciência que se opõe às trevas da ignorância e da mentira é muito antiga. Já entre os povos da Mesopotâmia, atribuia-se ao deus do sol Shamash a tarefa de garantir a justiça e o cumprimento dos acordos. Na estela de Hamurabi, mostra o rei babilônico recebendo as leis de Shamash.

A relação entre o Deus judaico e o Sol como Justiça aparece nos profetas do Velho Testamento:Para vós que temeis meu nome, levantar-se-á o Sol da Justiça e seu raios trarão cura… no dia em que eu manifestar meu poder, você esmagará os ímpios (Malaquias, 3: 20-21). A imagem da justiça de Deus como estrela brilhante repete-se em Isaías (30: 26 e 62: 1) e no livro da Sabedoria (5: 6).

O simbolismo de Jesus como luz reaparece no Novo Testamento, Jesus é dito como astro nascente para iluminar os que vivem nas trevas (Lucas 1:78), repete-se em Mateus 4:16 e é confirmado pelo próprio Jesus que se apresenta como Eu sou a luz do mundo (João 8: 12 e 9:5).

O Sol, propriamente dito, serve de comparação ao esplendor de Jesus na transfiguração: “...seu rosto brilhava como sol e sua roupa tornou-se alva como a luz (Mateus 17: 2) e repete-se no Apocalipse: “seu rosto brilhava como o sol, brilhando com toda a força (Apocalipse 1: 16).

A iconografia cristã primitiva usou sistematicamente temas pagãos para associar Cristo a um deus solar – Mitra, Sol Invicto ou mesmo Hélio. Era uma maneira de disfarçar a fé cristã quando o risco de perseguição impedia o uso de símbolos cristãos explícitos.

Em 336, nos tempos de Constantino (306-337), os cristãos comemoraram, pela primeira vez, o Natal no dia 25 de dezembro. Com isso eles queriam significar Cristo como o verdadeiro Sol Invictus. Aos poucos foi entrando nas tradições oficiais da Igreja Cristã, até que no século V, foi oficialmente ordenado, eclipsando completamente a festa do Sol Invictus.

No decreto de 8 de novembro de 392, de Teodósio, o culto a Mitra-Sol Invicto foi considerado ilegal. No entanto, ainda havia numerosos adoradores do Sol no século V, inclusive entre cristãos.

Na cidade síria de Baalbek (Heliópolis), um reduto de cultos pagãos, o culto ao Sol no templo principal só terminou depois que este santuário com a imagem do Sol invictus Mithras foi destruída por um raio em 554 ou 555 – ou seja, por influência divina como se considerou na época.

Fonte

  • ALVES, Leonardo Marcondes. O culto de Mitra e sua pesquisa acadêmica. Ensaios e notas, 2018.
  • SPALDING, Tassilo Orpheu. Dicionário de Mitologia germânica, eslava, persa, indiana, chinesa, japonesa. São Paulo: Cultrix, 1980.
  • ELIADE, Mircea; COULINO, Ioan P. Dicionário das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

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