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Papai Noel executado em holocausto

8 de dezembro de 2015

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BNCC

Depois de um julgamento sumário, Papai Noel foi enforcado e queimado no átrio da catedral de Dijon, na França, diante de centenas de crianças. Isso aconteceu de verdade! E seu algoz não foi o Estado Islâmico, mas o clero católico, protestantes, os conservadores franceses e até trabalhadores anticapitalistas.

O fato

O fato ocorreu na tarde de 24 de dezembro, nos degraus da catedral de Saint Bénigne, na cidade de Dijon, na França. Era o ano de 1951. O jovem vigário Jacques Nourissat estava indignado com a enorme popularidade de Papai Noel entre as famílias e os comerciantes. E não poupava críticas ferozes ao velho de barba branca e roupa vermelha.

O vigário não estava sozinho em seus ataques. Havia meses que autoridades católicas denunciavam uma preocupante “paganização” da festa do Natal que desviava a atenção pública do sentido cristão dessa comemoração. Papai Noel, diziam, era um intruso e usurpador que se roubava a festa do verdadeiro homenageado, o menino Jesus.

O assunto virou polêmica dividindo opiniões. Cartas de leitores e artigos de jornais expunham opiniões favoráveis e contrárias à posição eclesiástica. A Igreja Protestante, com maior discrição, mas igual firmeza, apoiou a Igreja Católica.

O ponto culminante ocorreu em 24 de dezembro, durante uma manifestação no átrio da Catedral de Dijon. Um Papai Noel, com 3 metros de altura, foi julgado e acusado de herege. Censuram-no, sobretudo, por ter-se introduzido em todas as escolas públicas ocupando o lugar do presépio (que havia sido banido) e, por conseguinte, tomado o lugar do menino Jesus.

Condenado ao suplício, Papai Noel foi enforcado nas grades da catedral e queimado publicamente em seu átrio. O fogo consumiu suas barbas e ele desapareceu na fumaça. A execução espetacular foi assistida por 250 crianças, internas de orfanatos.

Papai Noel na fogueira, Dijon, 24 de dezembro de 1951.

Papai Noel em chamas, Dijon, 24 de dezembro de 1951.

Ao final da execução, distribuiu-se um comunicado cujos principais termos eram:

“Não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. A mentira não pode despertar sentimentos religiosos em crianças e não é, de maneira nenhuma, um método educativo. (…) Para nós, cristãos, a festa de Natal deve continuar sendo a festa de aniversário do nascimento do Salvador.”

O contexto histórico

O holocausto de Dijon é melhor compreendido se contextualizado historicamente. Passaram-se apenas seis anos do final da Segunda Guerra. A reconstrução da França, assim como de outros países europeus, contou com apoio material e financeiro dos Estados Unidos, através do Plano Marshall. A partir de 1948, o país dava sinais de recuperação econômica.

Junto com os milhões de dólares para recuperar sua economia, a França foi inundada de produtos norte-americanos: roupas, música, aparelhos elétrico-eletrônicos e os ícones da cultura norte-americana – Coca-Cola e McDonald’s. Filmes produzidos em Hollywood entre 1939 e 1944 foram comercializados na Europa a preços baixíssimos trazendo consigo novas maneiras de viver, outros valores e costumes.

“Na França, os acordos Blum-Byrnes, firmados em 1946, abriram o mercado francês aos produtos norte-americanos inclusive filmes. Enquanto 38 filmes foram exibidos durante o primeiro semestre de 1946, no ano seguinte, só no primeiro semestre, o número de filmes subiu para 338.” (LUCAS, 1998, p. 110)

Nas semanas que antecediam o Natal, o comércio francês oferecia aos compradores as novidades importadas da América: papeis de presente coloridos, cartões e enfeites de Natal, brinquedos produzidos em série, enquanto personagens vestidos de Papai Noel recebiam os pedidos das crianças nas lojas de departamento. A dominação do mercado francês dava-se, assim, pela promoção e exportação de modelos culturais norte-americanos (Tolila, 2007).

Papai Noel na parada de Natal da Coca-Cola, Curitiba, 2014.

Papai Noel na caravana de Natal da Coca-Cola, Joinville, SC, 2015.

Não é de se estranhar, portanto, que boa parte da sociedade francesa, se sentisse em uma nova Vichy: não mais a ocupação militar inimiga, mas a dominação do poder econômico e cultural estrangeiro. Nesta atmosfera, Papai Noel – figura transformada em garoto-propaganda da Coca-Cola, tornou-se o grande catalizador da raiva e humilhação acumuladas desde a guerra às quais se uniram as críticas do conservadorismo católico francês e o movimento anticapitalista dos sindicatos operários, sempre dispostos a desacreditar tudo que tivesse a marca by United States.

O suplício público de Papai-Noel teria sido, então, o resultado da convergência de todas essas forças em um cenário histórico de pós-guerra.

O grande paradoxo estava na acusação feita à Papai Noel de transformar o Natal em festa pagã já que esta remonta às tradições herdadas do Império Romano. No início da Idade Média, a Igreja, para arrebanhar fiéis, apropriou-se de muitas festas e rituais pagãos dando-lhes um novo sentido mais afeito aos valores e dogmas cristãos. Assim foram com as festas juninas, o Finados e o Carnaval.

Depois do holocausto do Papai Noel

A cidade continuou dividida entre os contrários e os favoráveis a Papai Noel. O jornal France Soir, junto à notícia da incineração de Papai Noel anunciava: “a ofensiva clerical não cancela a festa oficial promovida pela Câmara Municipal para as crianças e marcada para o dia 25 de dezembro, às 18 horas”.

No dia e hora marcada, centenas de crianças se aglomeraram na Praça da Libertação, em Dijon, para ver a “ressurreição” de Papai Noel, nos telhados da Prefeitura, sob holofotes e queima de fogos.

O padre Jacques Nourissat não se pronunciou sobre o assunto. Depois do suplício de Papai Noel, naquele Natal de 1951, ele passou muito anos longe da França, trabalhando no Canadá, Haiti e Tahiti. Retornou à Dijon, somente em 1998, vindo a falecer em 2014 aos 97 anos de idade.

Papai Noel continua aparecendo no telhado da Prefeitura de Dijon, desde 1951. Virou tradição e faz parte do calendário oficial da cidade. Este ano, a apresentação está marcada para o dia 24 de dezembro, às 18h30.

Interessante pensar que as crianças de hoje são, possivelmente, netos daquelas que um dia viram o bom velhinho ser acusado de herege e ser consumido pelo fogo. Para as crianças, o símbolo era (e continua sendo) mais forte do que o discurso religioso e político. Por que Papai Noel desperta tanta emoção?

Descida de Papai Noel no telhado da Prefeitura de Dijon, França.

Descida de Papai Noel no telhado da Prefeitura de Dijon, França.

Fonte

  • LUCAS, Meize Regina de Lucena. Imagens do Moderno. O olhar de Jacques Tati. São Paulo: Annablume, 1998.
  • TOLILA, Paul. Cultura e economia. Problemas, hipóteses, pistas. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras / Itaú Cultural, 2007.
  • LEVI-STRAUSS, Claude. O suplício do Papai Noel. Cosac & Naify, 2008.
  • Calendário de eventos de Dijon, 2015.
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