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O deslumbrante Manto Tupinambá de penas vermelhas

21 de abril de 2024

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“Seu tesouro são penas de pássaros”, escreveu, em 1557, Hans Staden, o aventureiro alemão que passou nove meses escravo dos índios tupinambás. Em seu detalhado relato sobre os costumes tupinambás, há uma descrição dos adornos plumários usados na cabeça, braços e pernas assim como a pintura corporal em vermelho e preto:

[…] fabricam para si um enfeite de penas vermelhas, que se chama acangatara e que amarram à cabeça. […] Amarram também tufos de penas nos braços e pintam-se de preto. Com uma resina de árvore, grudam sobre o corpo penas vermelhas e brancas, entremeando-lhes o colorido. Passam aquela substância sobre os lugares que querm emplumar e imprensam-lhes as penas que se colam. Pintam também um braço de preto e o outro de vermelho. O mesmo fazem às pernas, e o corpo é igualmente pintado.

Além disso, usam um ornato, feito com plumas de ema, enfeite grande e redondo, que amarram na parte de trás, quando marcham para a guerra contra o seu inimigo, ou quando têm uma festa. Chama-se enduape.  (Hans Staden, livro II, cap. 16.)

Alguns desses artefatos plumários foram mandados para coleções na Alemanha, Suíça, França, Itália, Bélgica, Holanda e Dinamarca. Entre eles onze mantos de penas feitos pelos Tupinambá.

O que é o Manto Tupinambá

O Manto Tupinambá era uma capa feita de penas de pássaros, presas em uma complexa trama de embira, e que cobria os ombros e as costas podendo se estender até os pés. Chamado de assojaba pelos Tupis, o manto era uma vestimenta sagrada, utilizada apenas pelos chefes em rituais diversos e em festividades do grupo como símbolos de poder e prestígio. Há registros de mantos de penas escarlates usados por mulheres durante rituais pós-batalhas (BUONO, 2018, p.15 e 19).

As capas de penas dos Tupinambás aparecem em relatos de viajantes europeus nos séculos XVI e XVII. O escritor francês André Thevet, radicado no Brasil na década de 1550, escreveu a respeito e também informa sobre o destino de um manto tupinambá enviado para a França:

“Ali também existem inúmeros pássaros de diversas espécies e plumagens. Alguns são vermelhos como escarlate fino, outros são brancos, acinzentados ou manchados como os esmerilhões. Dessas plumas os indígenas fazem penachos de vários tipos, usando-os como ornamento quando saem em guerra ou na cerimônia de execução dos prisioneiros. Também fazem com eles mantos e cocares. Quem quiser poderá ver um desses mantos, pois fiz presente de um deles ao Senhor de Troistieux […] grande apreciador de todas singularidades […].”  (André Thevet, cap. XXIV.)

Mantos tupinambás pertencentes a coleções europeias diversas. Eles medem, em média, 2 m de comprimento por 1,80 de altura. Foram feitos com penas de guará, araracanga e japu.

Manto Tupinambá (acima, à direita), detalhe das penas (abaixo) e aquarela do século XVII mostrando o manto original (à esquerda). Pertenceu a um chefe Tupinambá da Bahia que o doou aos jesuítas após seu batismo na fé católica. O manto passou para a coleção de artefatos indígenas do padre jesuíta Alonso de Ovalle que, em 1646, doou para o naturalista milanês Manfredo Settala (1600-1680) que, por sua vez, passou para a Biblioteca Ambrosiana, de Milão, Itália onde se encontra atualmente.

As aves usadas para confeccionar os mantos

Os pássaros eram criaturas sagradas que poderiam encarnar a força dos seres encantados. Ao usar o manto de plumas, um xamã invocava forças poderosas para intermediar o mundo dos vivos e dos mortos.

Para os mantos, usava-se as penas do guará, também conhecido como íbis-escarlate. É uma ave típica do litoral atlântico da América do Sul, com plumagem predominantemente vermelha. A cor é devido a alimentação à base de um caranguejo que possui grande quantidade de betacaroteno.

Penas de araracanga ou arara vermelha também eram utilizadas aproveitando-se não somente as penas vermelhas, mas também as azuis, verdes e amarelas para compor o manto.

As penas pretas eram retiradas do japu, um pássaro típico do sudeste do Brasil. As penas azuis eram retiradas da araruna ou arara-azul-grande, a maior espécie de arara.

Acima, a araracanga ou arara vermelha em uma gravura de Albert Ekchout, século XVII e foto da araracanga à direita. Abaixo, o guará pintado por Ekchout e foto recente da ave.

O japu é conhecido por seu curioso ninho pendente, de até 1 m de comprimento, que fica balançando ao vento. Uma única árvore pode conter 20 a 50 ninhos de japus.

Tapiragem: técnica indígena de tingir as penas de aves vivas

Os indígenas brasileiros desenvolveram a tapiragem, uma técnica para alterar a coloração das penas de aves vivas. Isso envolvia arrancar as penas mais longas nas asas ou na cauda dos papagaios e araras e depois esfregar um composto na pele e nos poros abertos do pássaro. As penas voltam a crescer com uma cor que vai do amarelo ouro ao laranja brilhante, ou mesmo amarelo com manchas avermelhadas.

O composto pode ser um corante vegetal, sangue de sapo ou rã, a gordura de um peixe ou outra mistura. Uma vez feito o procedimento, dizem que as penas continuam a crescer com a mesma cor desejada, elas são novamente arrancadas voltando a crescer (McMICHAEL, 2008).

A “assojaba”, como os Tupis chamavam o manto de penas, era utilizada em importantes rituais da comunidade, como mostra essa gravura do século XVI, onde vemos três pajés no centro do círculo usando o manto e tocando a maraca. Os demais indígenas têm os corpos pintados e cobertos com penas, e, sobre as nádegas, usam o “enduape” feito de plumas de ema. Dança dos pajés, desenho de Theodore de Bry para o livro de Hans Staden, 1552.

O Manto Tupinambá nas festas europeias

Em 1599, uma grande festa abriu os trabalhos da Dieta (assembleia) do ducado de Württemberg, um dos mais importantes estados germânicos protestantes. A procissão “Rainha da América” percorreu as ruas de Stuttgart, a maior cidade do ducado, com os membros da corte fantasiados de indígenas americanos para um público de 6.000 pessoas.

A procissão de Stutttgart foi documentado em uma série de aquarelas que, possivelmente, eram esboços no planejamento das festividades. As aquarelas, feitas sobre pergaminho, formam um longo friso que mostram a sequência de personagens da procissão, cada um marcado com o nome da pessoa que usou a fantasia, muitas delas vestimentas indígenas originais. Há figuras usando mantos e adereços de plumas de indígenas brasileiros, e outras portando escudos e estandartes astecas, também feitos de plumas.

Um nobre europeu segura um papagaio e usa um manto Tupinambá (segundo da esquerda para a direita) na procissão “Rainha da América”, aquarela sobre pergaminho, século XVI, autor desconhecido.

O período do Domínio Holandês no Brasil (1630 a 1654) também rendeu artefatos indígenas, incluindo mantos de penas, para as coleções europeias. Segundo John Manuel Monteiro, especialista em história indígena, Maurício de Nassau, governador do Brasil Holandês, teria recebido dois mantos de líderes Potiguares. É provável que um dos mantos tenha sido presente de Antônio Paraupaba, líder potiguar convertido ao calvinismo e membro do Parlamento Holandês.

Ao regressar à Holanda, Nassau levou os mantos consigo e incorporou-os à sua coleção de curiosidades. Em seu palácio em Haia, Nassau organizou recepções à nobreza protestante do norte da Europa para exibir seus pertences exóticos. Chegou a apresentar um espetáculo de danças com índios Tapuias e Potiguares que causou espantou e curiosidade entre a elite da região.

Posteriormente, Nassau deu os mantos de presente às suas sobrinhas, as princesas Sofia de Hanôver, filha do rei da Boêmia Frederico V, e Maria Henriqueta, condessa de Nassau. Ambas foram retratadas vestidas com mantos de penas feita por índios Tupi.

Hoje, os mantos de pena levados por Nassau pertencem ao acervo da coleção etnográfica do Museu de Copenhagem, Dinamarca, onde estão desde 1699.

Retrato da princesa Sofia de Hanôver (Sophie van de Palts) vestida com um manto de penas Tupi preso por um broche e, na cabeça, um cocar de penas de guará; óleo sobre tela, por Louise Hollandine van de Palts, 1652.

Retrato de Maria Henriqueta, princesa real da Inglaterra, princesa de Orange e condesa de Nassau vestida com um manto de penas Tupi preso por um broche e, na cabeça, um turbante oriental de seda branca enfeitado de pérolas e plumas vermelhas; óleo sobre tela, por Adriaen Hanneman, 1664.

Os mantos Tupinambá hoje

Atualmente, sabe-se da existência de onze mantos Tupinambás no mundo, produzidos entre os séculos XVI e XVII, todos conservados em museus etnográficos europeus como importantes artefatos arqueológicos. Muitos deles, devido a sua fragilidade, não podem ser vistos ou transportados.

 Quando das celebrações dos 500 Anos da chegada dos portugueses em terras brasileiras, um dos exemplares conservados em Copenhagen foi exposto na Oca do Parque Ibirapuera, em São Paulo, na Exposição Brasil +500, Mostra do Redescobrimento (Fundação Bienal de São Paulo, 2000).

Naquela ocasião, uma delegação da aldeia Tupinambá de Olivença, no litoral sul da Bahia, viajou à capital paulista para encontrar este manto. Ao retornarem à aldeia, os indígenas reivindicaram a permanência do manto em solo brasileiro. O pedido não foi contemplado, mas foi um catalisador decisivo para a comunidade Tupinambá.

Em julho de 2023, a Dinamarca anunciou que vai devolver ao Brasil um Manto Tupinambá pertencente ao seu acervo desde 1699. Conforme anunciou Rane Willerslev, diretor do Museu Nacional da Dinamarca:

“As heranças culturais têm um papel decisivo nas narrativas das nações sobre si mesmas e na autocompreensão das pessoas. É assim no mundo inteiro. Por isso, é importante para nós ajudar na reconstrução do Museu Nacional do Brasil [no Rio de Janeiro] depois do incêndio devastador de alguns anos atrás [em 2018].”

O Museu Nacional do Rio pretende exibir o manto a partir de 6 de junho de 2024, quando o museu completará 206 anos.

Manto Tupinambá do Nationalmuseet, Dinamarca, devolvido ao Brasil. Ele mede 1,2 m de altura e 60 cm de largura.

Fonte

  • STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil (século XVI). Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1988.
  • THEVET, André. As singularidades da França Antártica. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1978.
  • BUONO, Amy. “Seu tesouro são penas de pássaros”: arte plumária tupinambá e a imagem da América. Chapman University Digital Commons, 2018.
  • FRANÇOZO, Mariana de Campos. De Olinda a Olanda: Johan Maurits van Nassau e a circulação de objetos e saberes no Atlantico holandes (seculo XVII). Tese (doutorado), Unicamp, SP, 2009. Disponível em: <http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/280434>. Acesso em: 14 ago. 2018.
  • CHIARELLI, Tadeu. O Manto Tupinambá como matéria e símbolo. Algumas anotações. Revista A.B.C.A. Arte & Crítica, São Paulo, ano XXI, n. 66, junho 2023.
  • CAFFÉ, Juliana; CONTIJO, Juliana Coelho. Expor o sagrado: o caso do manto tupinambá na exposição kwá Yepé Turusú Yuririr. Revista de História da Arte, v. 4, n.2, maio-agosto 2023.
  • COSTA, Caroline Mendes Pinto Rocha da. O retorno do manto Tupinambá: diálogos para a construção de uma história indígena. UFRJ, Rio de Janeiro, 2022.
  • DANIELA BLEICHMAR. A stunning and sacred cape. The Huntington, 18 set 2017.
  • McMICHAEL, John. Tapiragem and feather color alteration on live parrots by the peoples of Amazonia. AFA Watchbird Magazine Archive. V. 35, n. 2, 2008.
  • ROXO, Elisangela. A volta do Manto Tupinambá. Revista piauí, 27 jun 2023.

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