As sociedades da Antiguidade e da Idade Média desconheciam a ideia de tempo que temos hoje, isto é, o tempo unificado, padronizado, controlado e medido em intervalos de horas, minutos e segundos perfeitamente iguais em sua duração. A ausência da consciência de tempo era a regra entre as pessoas comuns na idade média. Sequer as datas de nascimento eram registradas e a maioria desconhecia o ano em que estava, uma vez que isso dependia de cálculos feitos pela Igreja e que não era usado no cotidiano.
O tempo da Idade Média é, em primeiro lugar, um tempo de Deus e da terra, depois dos senhores e dos que estão sujeitos ao senhorio, depois – sem que os tempos precedentes tenham deixado de ser presentes e exigentes –um tempo das cidades e dos mercadores, e, finalmente, um tempo do príncipe e do indivíduo. (LE GOFF, 2002.)
O tempo litúrgico
Assim como na Antiguidade, o tempo, na Idade Média, era determinado pelos ritmos naturais e pela marcha do sol. A Igreja introduziu períodos e datas que definiram o calendário cristão: a semana de sete dias em que o domingo é o dia do Senhor. Dia de descanso marcado por uma sociabilidade religiosa na qual homens e mulheres se encontram para participar de ofícios religiosos.
Na Idade Média, o tempo era essencialmente o tempo circular da liturgia, marcado pela vida de Cristo: Advento, Natal, Quaresma, Semana Santa (com o Domingo de Ramos, Eucaristia, Paixão culminando na Páscoa, a ressurreição), Domingo de Pentecostes etc.
Outras festas religiosas, em particular, as dos santos, também eram marcadores temporais da sociedade cristã, entre eles: Candelária (2 de fevereiro), Corpus Christi (segundo domingo após o Pentecoste), São Joao (24 de junho), Todos os Santos (1º de novembro) e Dia dos Mortos (2 de novembro).
O tempo litúrgico regulava também o tempo do corpo e da sexualidade determinando os dias em que as relações sexuais estavam interditadas, especialmente durante a Quaresma. O castigo podia cair até sobre a descendência dos infratores: os leprosos eram considerados como concebidos por pais que tiveram relações sexuais na Quaresma.
Havia ainda um tempo linear dominado pelo registro obsessivo de eventos relacionados aos senhores (sucessões, dinastias, fundadores, genealogias, combates) e também de fenômenos naturais, signos no Céu, tremores de terra etc.
O controle do tempo pela Igreja na Idade Média
Os monges introduzem duas novidades para o controle do tempo cotidiano: o toque dos sinos e as horas canônicas. Desde o século XII, um manual de comportamento do bom cristão, o Elucidarium propõe a hora de despertar, de trabalhar, de alimentar-se, de repousar.
A Igreja medieval herdou do calendário latino a denominação de cada intervalo de tempo: prima (corresponde às 6h), terça (9h), sexta (12h) e nona (15h). Acrescentou mais quatro intervalos: louvor (alvorecer), véspera (pôr do sol) e completa (antes do repouso, quando a jornada está “completa”) e matina (meia noite). As horas variavam segundo as estações, sendo mais breves no inverno e mais longas no verão.
As horas canônicas eram anunciadas à comunidade pelo toque dos sinos. A contagem de cada intervalo podia ser medida pela clepsidra (relógio de água), ampulheta, vela marcada ou por orações ritmadas. Nos mosteiros, monges vigilantes passavam a noite recitando ritmicamente o número exato de salmos que lhes dessem a medida do tempo transcorrido. Ao término da recitação, tocavam o sino. O controle do tempo foi uma das principais atribuições da Igreja na Idade Média.
O advento do relógio mecânico
O primeiro relógio mecânico do mundo surgiu na China, em 725. Na Europa, ele demorará ainda quinhentos anos para aparecer. Foi por volta do século XIII, que surgiram os primeiros relógios mecânicos inaugurando a marcação de um tempo novo, com horas teoricamente iguais.
Os historiadores acreditam que o estímulo para o desenvolvimento do relógio mecânico tenha nascido pela exigência da disciplina nas tarefas cotidianas nos mosteiros medievais. A pontualidade era uma virtude rigorosamente prescrita e o atraso ao serviço divino ou a uma refeição era punido. As demandas advindas do desenvolvimento urbano e mercantil reforçaram a necessidade de marcar e regular o tempo.
Especialistas afirmam que os relógios mecânicos europeus são descendentes da tecnologia do mecanismo de Antikythera.
A precisão dos relógios mecânicos era pequena; em razão do atrito dos mecanismos, a defasagem acumulada era, geralmente, de pelo menos uma hora por dia. O ponteiro de minutos, aliás, só foi introduzido em 1577, pelo alemão Jost Burgi. Sem ele, pode-se supor a larga tolerância com que se via o passar do tempo e a imprecisão com que era medido naquela sociedade do “daqui a pouco”.
Os primeiros relógios não tinham nem mostradores nem ponteiros e limitavam-se a marcar as horas canônicas: eram comparáveis aos sinos, tanto que o termo inglês clock (relógio) é muito próximo do alemão glocke e do francês cloche, que significam, justamente, sino.
Os relógios europeus mais antigos que se têm notícia foram desenvolvidos na abadia de Saint Albans, Inglaterra, durante a década de 1330 e no mosteiro de Pádua, Itália, entre 1348 e 1364. Mas eles não existem mais, só restando descrições detalhadas de sua construção. O relógio da Catedral de Salisbury, na Inglaterra, datado de 1386, é considerado o relógio mecânico mais antigo da Europa em funcionamento.
Autômatos: figuras movidas pelos relógios
Os relógios geralmente movimentavam também os autômatos, tão apreciados pelo público que acabaram sendo uma das maiores razões de seu sucesso, mais até que a possibilidade de saber as horas.
Na Itália, o primeiro relógio com um autômato foi instalado em 1351, na catedral de Orvieto e funciona até hoje. Trata-se do chamado Maurizio, provável corruptela do antigo dito “ariologium de muriccio”, ou seja, relógio do canteiro de trabalho, o primeiro relógio mecânico que assinala as horas de trabalho – em princípio todas iguais – para a construção do edifício sacro.
O autômato, fundido em 1348, indica ser, pelas roupas que usa, um servente leigo da Obra do Domo. A pátina escura do metal manteve o nome, através da associação maurizio/mourisco/moreno.
Com um martelo, o autômato bate as horas no sino maior e traz escrito em seu cinto: “Da te a me, campana, fuoro i parti / tu per gridar et io per fare i fati” (De ti para mim, sino, fizemos os pactos / tu para gritares e eu para pôr em obra os atos).
No sino lê-se a resposta: “Se vuoi ch’attenga i pati, dammi piano /se no io cassirò e darà invano” (Se queres que respeite os pactos, bate devagar / pois baterás em vão se eu me quebrar).
Relógios astronômicos
Muitas vezes os relógios eram também astronômicos, mostrando o movimento do céu com as posições relativas do sol, as fases da lua, constelações zodiacais e até mesmo grandes planetas. Marcar a passagem do tempo era apenas uma função acessória do instrumento basicamente destinado a ser uma representação mecânica do universo, uma espécie de planetário. Relógios fabulosos foram construídos nos séculos XIV e XV, alguns deles ainda em funcionamento, como se pode ver nos exemplos abaixo.
Show de luz e som em comemoração aos 600 anos do relógio de Praga, 2010.
O tempo laico
Até o século XIV, somente a Igreja tinha interesse na medição e na divisão do tempo. Mesmo depois da introdução do relógio mecânico, a maioria das pessoas não tinha consciência nem preocupação com a passagem do tempo. Um exemplo impressionante é fornecido por Jean Fusoris, famoso fabricante de instrumentos astronômicos. Preso sob suspeita de traição em 1415, foi interrogado duas vezes num único ano; na primeira ocasião afirmou “ter mais ou menos 50 anos”, e na segunda vez, “mais ou menos 60”! (WHITROW, 1993.)
Na metade do século XIV, quando os grandes relógios públicos passaram do campanário para a torre do palácio municipal, nasceu o tempo laico, pela primeira vez separado do tempo de Deus. Enquanto os sinos das igrejas anunciavam os vários ofícios religiosos, o relógio comunal era um instrumento secular que batia as horas que marcava a jornada de trabalho e não mais as horas do ofício religioso.
A Igreja começa a perder o controle do tempo. Na França, o rei Carlos V ordenou, em 1350, que todos os sinos de Paris tocassem de hora em hora segundo o relógio recém-instalado do palácio real.
O desenvolvimento urbano e mercantil criou novas necessidades na mediação e racionalização do tempo. Logo surgiu a necessidade de mecanismos menores e facilmente transportáveis. Para atender essa demanda, no início do século XV começou-se a usar molas no lugar de pesos. O relógio impulsionado por mola possibilitou a invenção do relógio doméstico e também do relógio de algibeira. Tornou-se estímulo e chave da realização e da produtividade individuais.
No século XVI, o domínio do relógio já era suficiente para suscitar no Irmão Jean, em Gargantua (1545), de Rabelais, o protesto de que “as horas são feitas para o homem e não o homem para as horas!” Duzentos anos depois, a Revolução Industrial sepultou de vez o tempo rítmico da natureza na vida humana; esta passou a ser regulada pelo tempo da fábrica, do trabalho incessante, o tempo do relógio e da produtividade.
Fonte
- LE GOFF, Jacques. Tempo. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente Medieval. V. II. Bauru, SP: EDUSC; São Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado, 2002.
- FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
- MICELI, Paulo. O feudalismo. São Paulo: Atual; Campinas: Unicamp, 1986.
- WHITROW, G. J. O tempo na História. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
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[…] O tempo na Idade Média e a invenção do relógio […]
ajude me lá aqui numa coisa, eu preciso de uma ampulheta do século XVI encontrada na Europa, consegue me indicar tal peça?
Publicação muito interessante. Para nós, cujas vidas são medidas por calendários e agendas eletrônicas, com alarmes infalíveis e de total precisão, é quase impossível pensar numa vida onde não se media o tempo.
Muito obrigado, Professora por mais esse artigo para trabalharmos em sala de aula.