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“Guernica”: a arte de Picasso em repúdio à guerra

30 de março de 2017

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Pablo Picasso residia em Paris quando ocorreu o bombardeio da pequena cidade espanhola de Guernica em 26 de abril de 1937. O ato criminoso estarreceu o mundo. Nunca na história moderna uma população urbana havia sido conscientemente abatida. A imprensa internacional divulgou fotos da tragédia e relatos dramáticos dos sobreviventes. Em Paris, o massacre provocou indignação geral levando milhares de pessoas às ruas na maior manifestação de Primeiro de Maio já ocorrida na cidade.

As fotos em preto e branco estampadas nos jornais impressionaram o pintor espanhol e, em cinco semanas, ele pintou “Guernica” onde representou toda a dor e desespero causados pelo bombardeio.

Anos depois, Herman Göering, comandante-chefe da Luftwaffe (força aérea alemã) durante seu julgamento justificou-se: “A Guerra Civil Espanhola foi uma oportunidade para experimentar minha jovem força aérea e um meio para meus homens ganharem experiência”.

Guernica, alvo de uma ação terrorista, tornou-se símbolo das destruições maciças da guerra moderna.

A tragédia de Guernica inspirou Picasso

 “A pintura não foi feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo” – disse Pablo Picasso referindo-se ao papel da arte na sociedade atual. A frase é particularmente marcante em relação à Guernica (1937), possivelmente a obra mais célebre do século XX.

Desde o começo da guerra, Picasso colocou-se ao lado do governo republicano que o nomeou para a direção do primeiro museu nacional espanhol, o Prado de Madri, em julho de 1936. Em janeiro do ano seguinte, o governo da Frente Popular encomendou-lhe um mural destinado ao Pavilhão Espanhol da Exposição Universal programado para ocorrer em Paris.

Picasso estudava o novo projeto quando ocorreu o bombardeio de Guernica, fato que levou-o mudar o tema de seu trabalho. A tela monumental (3,49 m x 7,76 m) ficou pronta em cinco semanas e foi apresentada na exposição de Paris. Inicialmente, ela atraiu pouca atenção e muita crítica. Mas aos poucos, a tragédia imortalizada por Picasso ganhou destaque e viajou pelo mundo servindo de bandeira contra a ditadura franquista e de repúdio à guerra.

Picasso Guernica

Picasso trabalhando sua tela.

 

Picasso ao lado de Guernica

Picasso diante de sua obra.

 Guernica: leitura da obra símbolo do terror militar

Há muita especulação sobre o significado das figuras de Guernica. Quando pediram a Pablo Picasso para explicá-las, ele respondeu: “Não cabe ao pintor definir os símbolos. O público que olhar para a imagem deve interpretá-la como a entendem.”

Guernica, Picasso.

“Guernica”, 1937, óleo sobre tela, 3,49 m x 7,76 m, Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, Madri.

Apesar do título e das circunstâncias em que a obra foi feita, não há na tela nenhuma referência específica que identifique a cidade ou à Guerra Civil Espanhola. Não é, portanto, uma pintura narrativa, mas simbólica.

Em estilo cubista, a obra apresenta uma composição horizontal que agrupa sete figuras ou três grupos de figuras. Dois grupos estão nas laterais, tendo o grupo central disposto em um grande triângulo. Ao centro está um cavalo ferido com o pescoço dolorosamente contorcido para a esquerda. Por uma abertura quadrada, entra uma cabeça humana segurando uma lamparina; aflita, procura sobreviventes.

A pintura tem apenas as cores branco, preto e uma gama variada de cinzas. Essas cores e o efeito de colagem de jornal no centro da tela fazem alusão às fotografias e matérias publicadas pela impressa na época. A tela serve, neste sentido, como uma reportagem para manter viva a lembrança da tragédia e despertar nas pessoas o repúdio à guerra.

As figuras são estilizadas e esquematizadas, quase infantis no traço e, por isso, universalmente compreensíveis, o que fortalece a linguagem simbólica da obra que denuncia a violência e a agressão da guerra impingidas ao povo, independentemente de bandeiras políticas.

A pintura não tem perspectiva, nem jogo de sombras que permita determinar um foco de luz preciso. Isso contribui para expressar a ideia de que a cena não se desenrola nem no interior nem no exterior, mas em toda a parte.

Leitura de cada detalhe da pintura

Lâmpada. É uma das imagens mais intrigantes. Está estranhamente acesa sendo que a cidade ficou sem energia depois do bombardeio. Pode ser relacionada à explosão das bombas e ao fogo destruidor, ou uma espécie de olho divino com uma lâmpada no lugar do olho. É um objeto representativo da modernidade e do avanço científico que tanto pode trazer um avanço social como uma forma de destruição em massa. A figura está deslocada para a esquerda em relação ao eixo central.

Guernica, detalhe

Detalhe cavalo ferido, lâmpada e mulher com lampião.

Estátua de guerreiro quebrada. Na parte inferior da tela, uma estátua partida mostrando a cabeça decepada, um braço com a mão aberta e outro empunhando uma espada quebrada e segurando uma flor, que pode ser interpretada como um raio de esperança nesse cenário de dor e morte.

Guernica, detalhe

Detalhe estátua quebrada.

Mãe com o filho morto. Com o rosto voltado para o céu, a mãe grita com o filho morto nos braços. Sua língua é afiada como um estilete e seus olhos têm a forma de lágrima. Os olhos da criança não têm pupilas, pois ele está morto. O modelo iconográfico faz alusão à Pietá, isto é, a representação da arte cristã da Virgem Maria com Jesus nos braços.

Detalhe mãe com o filho morto.

Casa em chamas. Uma figura (homem ou mulher?) ergue os braços ao céu como se implorasse aos aviões que parassem o bombardeio. Tem a boca aberta num grito debatendo-se dentro de uma casa em chamas.

guernica

Detalhe casa em chamas com figura implorando.

Touro. Tem o corpo escuro e cabeça branca. Ele parece impassível ao que está acontecendo ao seu redor. É a única figura sem expressão de dor, provavelmente simbolizando a frieza e crueldade do ataque fascista. Quando questionado sobre o simbolismo do touro, Picasso indicou que simbolizava “brutalidade e escuridão”. O touro, importante símbolo da cultura espanhola, inspirou muitas pinturas  anteriores de Picasso (como a Minotauromaquia de 1935).

Cavalo. Ocupa o centro da composição e, diferente do touro, ele parece desnorteado, em pânico e retorcendo-se de dor. Tem uma ferida vertical em seu lado e está perfurado por uma lança. Tem a cabeça erguida e a boca aberta, de onde sobressai a língua, terminada em ponta. Para os especialistas, o cavalo simbolizaria o povo inocente que se viu massacrado.

"Guernica", detalhe.

Detalhe touro, cavalo e, entre eles, a pomba.

Pomba. Entre o touro e o cavalo há uma pomba em traços leves e da qual se vê apenas a asa, uma faixa branca. A figura não é visível a olho nu, pois é da mesma cor do fundo e apenas sua silhueta é traçada. Tem a asa caída e a cabeça voltada para cima com o bico aberto. Tem sido considerada um símbolo de paz quebrada.

Mulher da lamparina a óleo. Ela ilumina a sala com a lamparina (ou vela?) e avança com um olhar vazio, como se estivesse em choque. Tem a mão no peito, um gesto que simboliza profunda dor. É interpretada como uma alegoria da República, horrorizada com o que vê.

Detalhe mulher com lamparina.

Mulher ajoelhada ou ferida. À direita da tela, a mulher arrasta a perna que está visivelmente deslocada ou cortada, com sangramento que ela tenta estancar com a mão esquerda. Essa interpretação é reforçada pela cor esbranquiçada do pé que arrasta (devido a perda de sangue), em comparação com o outro que tem uma cor mais forte.

Detalhe mulher ajoelhada ou ferida.

Guernica: quatro décadas longe da pátria

Pablo Picasso residia na França quando pintou Guernica e ali continuou residindo até o fim de sua vida. A vitória dos falangistas e de Franco, na Espanha, e a ocupação da França pelos alemães em junho de 1940 cortaram o contato direto de Picasso com seu próprio país condenando-o ao isolamento.

A fama de Picasso, porém, ultrapassava as fronteiras político-ideológicas e ele foi visitado, em seu estúdio, por oficiais alemães que queriam conhecer o gênio e sua arte. Nessas oportunidades, Picasso longe de se intimidar, distribuía fotografias de Guernica aos visitantes nazistas. A um oficial alemão que lhe perguntou “Foi o senhor que fez isto?”, ele respondeu: “Não. Foi o senhor”.

Desde 1939, Guernica estava nos Estados Unidos onde foi exposta em uma grande perspectiva no Museu de Arte Moderna (MoMa), em Nova York, que reuniu 344 obras de Picasso. Continuou sob a guarda do museu e, atendendo pedido de Picasso, só voltou à Espanha quando a democracia foi restaurada no país.

"Guernica", Picasso

A monumental tela “Guernica”, de Pablo Picasso, foi exposta em São Paulo, em 1953.

Guernica e outras obras de Picasso participaram de exposições itinerantes em diversas cidades do mundo, entre as quais, São Paulo, onde esteve em 1953 e foi o principal destaque da Segunda Bienal de São Paulo. A obra influenciou artistas brasileiros como Cícero Dias e Cândido Portinari. Este último, pintou oito painéis que ficariam conhecidos como ‘Série Bíblica” onde é visível a influência da temática da dor e das questões sociais advindas da representação de Guernica.

Picasso faleceu em 1973, aos 91 anos de idade, em Mougin, na região de Provença, na França. Foi enterrado no jardim do palacete de Vauvenargues. Dois anos depois, morria o general Francisco Franco, em Madri, abrindo caminho à democratização do país.

Guernica retornou à Espanha em 9 de setembro de 1981, no centenário de nascimento do pintor. Atualmente está exposta no Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madri.

O horror da guerra continua rondando a humanidade. O cerco de Sarajevo (1992-1996), o mais longo da história da guerra moderna, durante a guerra da Bósnia, e a devastação da cidade de Aleppo (2012-2016) na guerra da Síria são exemplos da brutalidade insana contra o ser humano que ainda persiste no mundo.

Inspirado em Guernica, o artista português Vasco Gargalo criou uma obra para denunciar o massacre de Aleppo. Colocou na tela os principais atores dessa cena trágica: o líder russo Vladimir Putin na figura do touro, o então presidente dos Estados Unidos Barack Obama como o cavalo, e o chefe do governo sírio Bashar al-Assad com uma bomba na mão. Refugiados com seus filhos buscam a Europa (representada pelo símbolo da União Europeia na mala) enquanto um homem-bomba (à direita) ameaça mais destruição. O barril de petróleo caído à direita lembra o motivo desencadeador do drama.

Guernica e Aleppo

Sob a inspiração de “Guernica”, o artista português Vasco Gargalo denunciou o massacre de Aleppo.

Fonte

  • WARNCKE, Carsten-Peter. Picasso. Colônia, Alemanha: Taschen, 2006.
  • HENSBERGEN, Gijs Van. Guernica, a tela de Picasso. São Paulo: José Olympio, 2009.
  • Repensando Guernica. Site do Museu Rainha Sofia.

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Therezinha Tomassini
Therezinha Tomassini
9 anos atrás

Picasso fo,é e sempre será GENIO !

Cristiano Freyddni
Cristiano Freyddni
9 anos atrás

Eu li numa revista que rascunhos dessa pintura foram encontrados em 1934 na casa de Picasso. Logo, não se poderia dar a este quadro a interpretação que comumente lhe é dada, uma vez que o atentado à cidade de Guernica só ocorreu em 1937. Picasso não poderia ter previsto o atentado. A matéria falava sobre a importância do que o professor fala aos alunos. Todos os professores nos dizem a mesma coisa, fazem a mesma análise deste quadro, e todos nós cremos na mesma justificativa.

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