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O espelho do garimpo: Minas Gerais, 1750 e Serra Pelada, 1980 – o que a História tem a nos dizer

30 de abril de 2026

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Enquanto o Brasil ingressa na corrida global pelas “terras raras” — minerais estratégicos para a tecnologia de ponta e para a transição energética — o debate sobre a mineração ganha uma urgência renovada. No entanto, para que esse novo ciclo não seja apenas mais um capítulo de degradação disfarçado de progresso, é imperativo lançar um olhar crítico sobre a nossa trajetória.

A história da mineração no Brasil não é um ciclo repetitivo de ‘fatalidades’, mas um laboratório de adaptações do poder. Ao buscarmos nos contextos das Minas Gerais do século XVIII e de Serra Pelada nos anos 1980 os elementos que os diferenciam, despertamos a consciência crítica necessária: a de que a exploração não é um destino nacional imutável, mas uma construção política que precisamos aprender a transformar para evitar que a história se desfaça em lama e luto, como testemunhamos nas tragédias recentes de Mariana e Brumadinho ou no apagamento de cidades inteiras, como no catastrófico afundamento do solo em Maceió causado pela mineração de sal-gema pela Braskem.

Ao confrontarmos as gravuras das lavras de ouro do século XVIII em Minas Gerais com as icônicas fotografias do ‘formigueiro humano’ de Serra Pelada na década de 1980, o impacto é imediato. Em ambos, vemos corpos curvados, o domínio da lama e a escala monumental do esforço humano em busca da riqueza mineral. Essa semelhança visual, contudo, costuma induzir a um erro comum de interpretação: o fatalismo histórico. A frase “nada mudou no Brasil” surge como um veredito que ignora as engrenagens profundas e distintas que moveram cada um desses contextos.

Este texto propõe uma desconstrução dessa generalização. Embora a dor e o esforço pareçam universais, as relações de trabalho, as lógicas de poder estatal e os impactos químicos e ambientais revelam que a exploração no Brasil não é estática; ela se moderniza, se adapta e se torna mais sofisticada em sua forma de consumir vidas e naturezas.

Escravizados lavando diamantes em Curralinho, “Les laveurs de diamants”, Spix e Martius, século XIX.

Comparação diacrônica  sem generalizações

No imaginário popular, a História é frequentemente percebida como um ciclo repetitivo de eventos. Diante de escravizados no século XVIII ou de garimpeiros em Serra Pelada, a reação comum é o conformismo: “A exploração nunca mudou”,“O Brasil sempre foi assim”.

Embora carreguem uma denúncia moral legítima, tais frases representam uma armadilha intelectual. A História Comparada não serve para atestar que os tempos são iguais, mas para revelar a singularidade de cada época através de suas semelhanças superficiais. Apesar de existirem problemas em comum, existem estruturas, pensamentos e agentes políticos distintos em cada situação.

“Lavagem do minério de ouro nas proximidades da montanha de Itacolomi” (detalhe), Johann Moritz Rugendas, c. 1835.

A comparação diacrônica – feita com a mesma sociedade em tempos distintos – exige o que os historiadores chamam de estranhamento. À primeira vista o trabalho braçal exaustivo e a degradação ambiental aproximam os dois cenários – Minas Gerais de 1750 e Serra Pelada de 1980 –, mas as engrenagens que moviam esses mundos eram radicalmente distintas:

1. Relações de trabalho: no século XVIII, a mineração era o pilar do Império Português, operada por mão de obra escravizada. Já em Serra Pelada, o garimpeiro era juridicamente livre, movido pelo sonho de ascensão social e de acesso ao consumo moderno após o “milagre econômico”. Generalizar essas situações apaga a distinção entre o trabalho compulsório colonial e a precarização do capitalismo tardio.

2. O papel do Estado: enquanto a Coroa Portuguesa exercia um controle burocrático para garantir o “quinto”, o Estado brasileiro dos anos 1980 operou em Serra Pelada uma mistura de repressão policial-militar, sob o comando do Major Curió, e assistência clientelista.

3. Tecnologia e tempo: em Minas, o tempo era o das águas e das colheitas, com danos ambientais mecânicos e locais (assoreamento). Em Serra Pelada, a urgência era mecânica e industrial; o uso massivo de mercúrio envenenou o ecossistema de forma duradoura, alterando a geologia local permanentemente.

O formigueiro humano em Serra Pelada. DMT Goup.

Comparação para educar o olhar

O foco da História Comparada não é buscar “gêmeos históricos”, mas “contrastes reveladores”. Ao confrontar o ouro de Vila Rica com o ouro de Curionópolis, o observador deve perguntar: Por que, apesar de termos mudado tanto como sociedade, ainda persistem formas de trabalho tão degradantes?

A resposta não reside em uma suposta “natureza humana”, mas na capacidade de adaptação das estruturas de poder. A exploração se moderniza, muda de linguagem, de amparo legal e de justificativa ideológica.

Quando generalizamos, deixamos de ver como a opressão se reinventou para sobreviver em um mundo democrático e tecnológico.

Despertar para essas armadilhas é devolver o debate ao campo da responsabilidade política, combatendo a preguiça intelectual do “é tudo igual”.

As escadas de madeira (chamadas pelos garimpeiros de “adeus-mamãe”) de Serra Pelada e os caminhos tropicais das Minas Gerais não são uma repetição enfadonha, mas contextos distintos. Generalizar esses tempos como “iguais” esconde o fato de que a exploração moderna é mais sofisticada: ela não precisa da posse física do corpo para consumi-lo e utiliza tecnologias que tornam o dano ambiental muito mais profundo e invisível.

Portanto, revisitar o “espelho do garimpo” é fundamental para enfrentarmos o horizonte das “terras raras” com a seriedade que o momento exige. Se no século XVIII buscávamos o metal para sustentar impérios e, em 1980, para mitigar crises inflacionárias, o novo ciclo mineral que se desenha não pode repetir a lógica do lucro imediato às custas da soberania ambiental e humana.

Compreender as diferenças entre o chicote da colônia e o mercúrio da modernidade nos permite identificar as novas faces da precarização que podem surgir disfarçadas de “tecnologia limpa”. Somente o olhar crítico sobre o passado nos dará o suporte teórico para exigir que a transição energética do presente não seja construída sobre as mesmas bases de exploração que o Brasil, de 1750 a 1980, ainda luta para superar.

Lago formado na cratera deixada pelo garimpo em Serra Pelada. A água está contaminada por mercúrio. Wikipedia.

Trabalhando esse tema na sala de aula

Comparar a mineração do ouro de Minas Gerais, século XVIII com a de Serra Pelada em 1980 é um exercício eficiente para apurar o olhar crítico e despertar a atitude historiadora do estudante. A atividade pode ser aplicada no 7º ano e no Ensino Médio atendendo as habilidades:

  • EF07HI12 – Identificar a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas.
  • EF07HI13 – Caracterizar a ação dos europeus e suas lógicas mercantis visando o domínio do mundo atlântico.
  • EF07HI14 – Descrever as dinâmicas comerciais das sociedades americanas e africanas.
  • EM13CHS106 – Utilizar a linguagem cartográfica, gráfica e iconográfica de forma crítica, significativa reflexiva e ética para acessar e produzir conhecimentos e resolver problemas.
  • EM13CHS302 – Analisar e avaliar os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais.
  • EM13CHS401 – Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos e classes sociais diante das transformações técnicas e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços e contextos.
  • [EM13CHS404] – Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e contextos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações.

Preparamos um material completo que traz a gravura Lavagem do minério de ouro em Itacolomi, de Rugendas e fotografias online da mineração em Serra Pelada, de Sebastião Salgado. Os alunos são estimulados a observar, identificar e comparar as imagens.

Na etapa seguinte, o professor aplica a dinâmica “O Cofre do Governo” na qual é realizada uma simulação da cobrança do quinto e da compra do ouro pela caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. O objetivo da dinâmica é levar os alunos a perceberem como se dava o controle e a repressão do Estado assim como o destino do ouro em dois contextos históricos diferentes.

A dinâmica prepara os alunos para o debate final focado na questão: “Hoje, com as grandes mineradoras, o lucro vira escola e hospital para a região, ou a lógica continua a mesma?”

Esse material estará disponível na loja do Stud História a partir do dia 2 de maio de 2026.

Fonte

  • BOXER, Charles R. A Idade de Ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • HOLANDA, Sérgio Buarque de. “O Brasil Colonial: o ciclo do Ouro, c.1690-1750” em História Geral da Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
  • MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil-Portugal, 1750-1808. São Paulo: Paz e Terra, 1977.
  • REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos; CARVALHO, Marcus J. M. de. O Alufá Rufino: Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico negro. Revista Brasileira de História (USP), 31 (61), 2011. (Trabalho excelente para entender a mobilidade e as relações de trabalho no contexto urbano/minerador).
  • GONÇALVES, Andréa Lisly. Estilo de minerar ouro nas Minas Gerais escravistas, século XVIII. Revista de História (USP), 2013.
  • SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do Ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1986. (Indispensável para entender o impacto social da mineração).

Serra Pelada (Anos 1980 e Legado)

  • MATHIS, Armin. Serra Pelada: a intervenção do Estado no garimpo.   Publicado em periódicos da Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Belém: UFPA, 1995.
  • SILVA, Tallyta Suenny Araujo da. Áureo carmesin: conflitos e disputas pela exploração de ouro em Serra Pelada. Secuencia [online]. 2021, n.109.
  • MOURA, Salvador Tavares de. Experiência, memórias e disputas pela exploração de ouro em Serra Pelada. Tese (PUC-SP), 2021.
  • BARBOSA, Lívia; LOBATO, Ana Lúcia; DRUMMOND, José Augusto (orgs.) O garimpo, meio ambiente e sociedades indígenas. Rio de Janeiro: CETEM; Niterói: EDUFF, 1992
  • CAVALCANTI, R. B. Análise dos aspectos e impactos socioambientais do garimpo na região de Serra Pelada.
  •  MOLINA, Luísa Pontes (org.). Terra rasgada: como avança o garimpo na Amazônia brasileira. Acervo Socioambiental, Brasília, 2023.

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