Napoleão Bonaparte sob diferentes visões: a construção de um mito

5 de novembro de 2015

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Napoleão Bonaparte (1769-1821) é um dos personagens históricos mais ambíguos do século XIX. Para muitos foi um brilhante estrategista militar, um homem com determinação, iniciativa e liderança. Para outros, foi um tirano arrogante, sanguinário e egoísta.  Seus inimigos o temiam e o respeitavam. O duque de Wellington, que o venceu em Waterloo, alegou que Napoleão Bonaparte, em campo de batalha, valia 40 mil homens.

Inspirou reis, príncipes e líderes, como D. Pedro I e Simón Bolívar. Influenciou na história das Américas desencadeando os movimentos de independência nas colônias espanholas. Levou a família real portuguesa a fugir para o Brasil, fato que mudou os rumos da nossa história. Depois dele, a Europa nunca mais seria a mesma. Hitler, quando ocupou Paris, em 1940, fez questão de visitar o túmulo de Napoleão Bonaparte e de ficar um tempo, a sós, no local.

Milhares de livros foram escritos sobre Napoleão Bonaparte e nenhum deles esgotou o assunto. Sua vida privada e pública, seu governo e campanhas militares continuam inspirando pesquisas, exposições, filmes, jogos e series para televisão. As visões sobre o imperador francês mudaram várias vezes ao longo da História.

Por isso, para trabalhar a chamada Era Napoleônica, é interessante o professor confrontar fontes diversas. Selecionamos algumas entre textos literários, pinturas, música e comentários sobre o imperador francês. Essa coletânea permite ao aluno identificar opiniões opostas e perceber que o herói nacional é uma construção histórica de uma determinada sociedade, produto dos valores dominantes em seu meio e em seu tempo.

Pode-se, dessa forma, estudar esse personagem histórico sob diferentes visões. Veja como Napoleão Bonaparte foi visto:

  1. …por Jacques-Louis David, um pintor da corte.
  2. …por Beethoven, compositor alemão.
  3. …por León Tolstoi, escritor russo.
  4. …por Suchodolsku, pintor polonês.
  5. … por Tchaikovsky, compositor russo.
  6. …por um soldado francês.
  7. …por um militar inimigo.
  8. …pelo Senado francês.
  9. …por ele mesmo.
  10. …pela França.

1. Napoleão Bonaparte por David, pintor da corte

Durante seu governo, Napoleão Bonaparte procurou cuidar de sua imagem pública encomendado a grandes artistas pinturas e esculturas que o representassem em posses heróicas e vitoriosas. Ele mesmo dizia que pertencia à “raça fundadora de impérios”. E dessa forma se fez representar fixando sua imagem de grande líder militar e político.

Observe como isso está presente na tela Napoleão Bonaparte atravessando os Alpes ou Napoleão Bonaparte  na passagem de São Bernardo, de Jacques-Louis David, 1802.

"Napoleão Bonaparte atravessando os Alpes", óleo sobre tela, Jacques-Louis David, 261 cm × 221 cm, 1802.

“Napoleão Bonaparte atravessando os Alpes”, óleo sobre tela, Jacques-Louis David, 261 cm × 221 cm, 1802.

A pintura mostra Napoleão Bonaparte conduzindo suas tropas através dos Alpes na campanha militar de 1800, contra os austríacos que acabaram derrotados na Batalha de Marengo. É essa vitória de que a pintura comemora. Napoleão gostou tanto do quadro que encomendou mais três versões e uma quinta ainda foi produzida. Elas foram realizadas entre 1801 e 1805. Duas versões estão em Paris, uma em Madri e uma em Milão.

Observe os detalhes da pintura:

  • Napoleão Bonaparte foi representado desproporcionalmente grande em relação ao soldados, no fundo da tela, o que destaca seu protagonismo como condutor da nação francesa. A alusão à França está nas cores predominantes do quadro: vermelho, azul e branco.
  • Ele mantêm o controle da montaria mesmo com o cavalo empinado, segurando suas rédeas somente com a mão esquerda. Olha de frente e direto para o espectador apontando para o alto, os Alpes prestes a serem atravessados. O gesto alude, também, à liderança política e militar de Napoleão Bonaparte. É ele quem indica o caminho vitorioso aos seus súditos.
  • Nas pedras (nos pés do cavalo) está escrito em letras douradas o nome Bonaparte e de dois heróis: Aníbal, general que enfrentou Roma Antiga,  e Carlos Magno, rei dos francos que conquistou um império. Napoleão associa-se, então, a um herói da Antiguidade e a um imperador medieval, colocando-se como herdeiro e sucessor desses grandes líderes do passado.
"Napoleão atravessando os Alpes", detalhe, Jacques-Louis David, 1802.

“Napoleão atravessando os Alpes”, detalhe, Jacques-Louis David, 1802.

2. Napoleão Bonaparte por Beethoven, compositor alemão

O compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) admirava Napoleão Bonaparte, considerando-o o Grande Libertador, o Herói do Povo na luta pelos ideais de liberdade e igualdade. Dedicou-lhe a Sinfonia no 3, chamada Heroica (1804), mas, ao saber que Napoleão Bonaparte se coroara imperador, ficou indignado retirou a homenagem.

Anos depois, em 1814, celebrou a derrota de Napoleão Bonaparte em Waterloo com a sinfonia A Vitória de Wellington (nome do almirante inglês que venceu Napoleão Bonaparte). Nela inseriu tiros de canhões e hinos militares.

Ouça a sinfonia A Vitória de Wellington (segunda parte)

O filme Eroica (abaixo), produzido pela BBC para a televisão é uma reconstituição artística da história dessa sinfonia. É ambientado em Viena, em 9 de junho de 1804, data da primeira apresentação da Sinfonia no 3, mais tarde conhecida como “Heróica”. A data ficou conhecida como “o dia que mudou a música para sempre” – expressão usada por Haydin que assistiu aquela apresentação no palácio de um príncipe alemão, patrono de Beethoven. Nos minutos finais do filme, quando a sinfonia é executada pela segunda vez, o filme faz um salto para futuro e mostra Beethoven em uma taberna onde é informado que Napoleão Bonaparte havia se declarado imperador. Furioso, o músico amassa a página da partitura onde estava o título de sua sinfonia que, originalmente, era “Bonaparte”.

Cena do filme Eroica, dirigido por Simon Cellan Jones, 2003. Legendado em espanhol

3. Napoleão Bonaparte por León Tolstoi, escritor russo

León Tolstoi (1828-1910) não foi contemporâneo de Napoleão Bonaparte mas as lembranças de seus feitos militares ainda eram bem vivas. A Rússia infringiu uma humilhante derrota ao imperador francês quando este tentou conquista-la, em 1812.

Esse episódio inspirou Tolstoi a escrever sua célebre obra Guerra e Paz. O enredo abrange o período de 1805 a 1820 e traça um admirável perfil da aristocracia russa mostrando o preconceito e a hipocrisia da nobreza, as tradições religiosas, a vida cotidiana dos servos e dos soldados.

Com centenas de personagens e mais de mil páginas na versão original, Guerra e Paz, levou sete anos de trabalho intenso até sua publicação, em 1869. É um clássico da literatura russa e uma das maiores obras da literatura universal pela maneira como aborda a condição humana em seus momentos mais difíceis e dolorosos.

Um trecho dessa obra trata da invasão da Rússia pelo exército francês. O fragmentado abaixo, descreve a entrada de Napoleão Bonaparte em Moscou, em setembro de 1812, com milhares de soldados. Vaidoso e confiante, o general francês imagina-se já senhor de todo Império Russo. Aguarda a chegada do czar ou seu representante para negociar a paz. Mas ninguém aparecerá.

“Napoleão Bonaparte, a cavalo no meio das suas tropas, examinava do alto de uma colina o panorama que se lhe desenrolava aos pés. A luz matutina inundava Moscou de uma claridade fantástica. Com os seus jardins, igrejas, o rio, as cúpulas brilhantes como lingotes de ouro aos raios do Sol, as construções de uma arquitetura estranha, a cidade parecia viver a sua existência habitual. Ao contemplá-la, Napoleão Bonaparte sentia uma curiosidade inquieta e cheia de cobiça (…).

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– “Esta cidade asiática, com as suas inúmeras igrejas, aqui a tenho finalmente! Cidade famosa! Já era tempo.”

Desceu da montaria e mandou que lhe desdobrassem o mapa de Moscou. Comovido, quase assustado com a certeza da posse, observava à sua volta e estudava a planta comparando os pormenores com o que via.

– “Ei-la, pois capital orgulhosa, ei-la à minha mercê! Bastar-me-ia fazer um gesto e a cidade dos czares seria destruída para sempre. Mas a minha clemência está sempre pronta a descer sobre os vencidos. Por isso serei misericordioso: inscreverei nos seus antigos monumentos de barbárie e despotismo palavras de justiça e de paz. Do alto do Kremlin ditarei leis prudentes; lhes farei compreender o que é a verdadeira civilização, e as gerações futuras de boiardos serão forçadas a lembrarem com amor do nome de quem conquistou Moscou. Daqui a pouco lhes direi: Boiardos, não quero aproveitar-me do triunfo para humilhar um soberano que estimo; proporei condições de paz dignas da Rússia e dos meus povos! A minha presença os exaltará, pois, como sempre, falarei com nitidez, majestade e grandeza. Tragam os boiardos!” – exclamou voltando-se para a comitiva. E logo um general os foi buscar.

Decorreram duas horas. Napoleão almoçou e regressou ao mesmo lugar para receber a delegação. Tinha o discurso preparado, cheio de dignidade majestosa, pelo menos segundo o seu conceito. Extasiado pela generosidade com que queria oprimir a capital, a imaginação já lhe mostrava uma reunião no palácio dos czares com os grandes senhores russos a confraternizarem com os notáveis da sua corte. Nomeava um prefeito que lhe alcançaria o coração das populações, distribuía benesses e esmolas, pensando que, se em África achara útil vestir-se de albornoz e orar numa mesquita, aqui em Moscou devia mostrar-se generoso, a exemplo dos czares.”

Adaptado de TOLSTOI, León. Guerra e Paz. Lisboa: Verbo, 1990. p. 178-180.

 Vocabulário

  • Kremlin: acrópole com igrejas e palácios e cercada por muralhas; o Kremlin de Moscou, construído no século XII, era o centro político e religioso da Rússia imperial.
  • boiardos: aristocratas rurais que formavam a classe social dominante da Rússia imperial.
  • benesses: vantagens, favorecimentos.
  • albornoz: manto de lã com capuz usado pelos árabes.

4. Napoleão Bonaparte por Suchodolsk, pintor polonês

Napoleão Bonaparte encontrou Moscou deserta e sem provisões. Nem o czar nem seu representante apareceram para negociar a paz. Semanas depois, diante da proximidade do inverno (era, então, 18 de outubro) e sem roupas apropriadas e alimentos suficientes, o general francês ordenou a retirada do Exército. Encontraram cidades despovoadas, incendiadas e plantações destruídas. Os soldados franceses morreram de frio, fome e doenças.

Em Borondino, o exército francês foi surpreendido pelo exército russo. Seguiram-se dezesseis horas de combate ininterrupto que causou pesadas perdas aos franceses. A campanha napoleônica na Rússia foi um desastre completo. Dos 500 mil soldados do início da campanha, somente 10% voltaram para casa.

Um registro da dramática saída da Rússia é a tela Retirada de Berezina, de January Suchodolsk, c. 1858. Ela representa a travessia do rio Berezina pelo exército francês, ocorrida em 28 de novembro de 1812, quando foi necessário construir pontes flutuantes para atravessá-lo.  Os construtores trabalharam com água gelada até os ombros, o que custou a vida da maioria deles. Cerca de 40 mil soldados conseguiram sobreviver à travessia, mas aproximadamente 25 mil morreram sob o pesado bombardeio russo.

"Retirada de Berezina", January Suchodolsk, c. 1858.

“Retirada de Berezina”, January Suchodolsk, c. 1858.

5. Napoleão Bonaparte por Tchaikovsky, compositor russo

O compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893) inspirou-se na campanha militar de Napoleão Bonaparte na Rússia para compor uma de suas obras-primas: Abertura 1812. Composta em 1880, essa sinfonia faz uma descrição musical da invasão francesa.

É possível perceber, pela melodia e ritmo, as seis etapas daquele episódio:

  • a marcha do exército napoleônico até Moscou, ao som da A Marselhesa, o hino francês;
  • o canto de paz dos camponeses russos;
  • a chegada do inverno que pega os franceses sem agasalhos suficientes;
  • a retirada desastrosa dos franceses em meio ao frio e ao ataque russo;
  • os canhões russos abafando o hino francês;
  • o toque dos sinos de Moscou e o coro em júbilo cantando a libertação dos russos.

 Ouça a  Abertura 1812  (segunda parte), de Tchaikovsky

6. Napoleão Bonaparte por um soldado francês

“Nossas marchas eram forçadas e cansativas, mas o imperador partilhava de nossa fadiga, dia e noite a cavalo, repleto de lama como nós e nos conduzindo como uma luz para todo lugar onde ele achava ser necessária sua presença estimuladora (…).

O imperador discursava para nós à maneira dos imperadores romanos, falava da situação do inimigo, do projeto de uma grande batalha e da confiança que ele depositava em nós.

Apesar da chuva, da neve, enfim de um tempo horrível, um frio cortante, a maior parte dos soldados de pés descalços punha-se diariamente em marcha. Nada os impedia aos gritos de “Viva o imperador!” (…). Apesar de nossa miséria, a presença de nosso imperador e o nosso sucesso nos faziam suportar tudo.”

Diário do capitão François. In: CASTA, M.; DOUBLET, F. (Coord.) Histoire Géographie. 4. ed. Paris: Magnard, 1998. p. 75.

7. Napoleão Bonaparte por um militar inimigo

“Você não devorará mais nossas crianças: nós não queremos mais seu alistamento militar, sua milícia, sua censura, seus fuzilamentos noturnos, sua tirania. E não é apenas nós, mas a espécie humana que o acusa. Ela nos pede vingança em nome da religião, da moral e da liberdade. Onde você não levou a desolação? Em que canto do mundo uma família escapou de suas devastações?

A voz do mundo o declara o maior culpado que jamais houve sobre a terra, pois não foi sobre as pessoas bárbaras e sobre as nações degeneradas que você verteu tanto mal; foi no meio da civilização, num século de luzes, que você quis reinar pela espada de Átila e pelas sentenças de Nero.”

François-René de Chateaubriand. De Buonaparte et des Bourbons, 1814. In: CASTA, M.; DOUBLET, F. (Coord.) Histoire Géographie. 4. ed. Paris: Magnard, 1998. p. 75.

"A Retirada de Napoleão Bonaparte de Moscou", de Adolph Northen, c1860. Uma imagem do imperador francês muito diferente aquela feita por David.

“A Retirada de Napoleão Bonaparte de Moscou”, de Adolph Northen, c1860. Uma imagem do imperador francês muito diferente aquela feita por Jacques-Louis David.

8. Napoleão Bonaparte condenado pelo Senado francês

“Considerando que Napoleão Bonaparte levou a cabo uma série de guerras em violação ao artigo 50 da Constituição que estabelece que a declaração de guerra deve ser proposta, discutida, decretada e promulgada como uma lei; (…)

— Procurando fazer considerar como nacional uma guerra que não tinha outra motivação senão o interesse de uma ambição desmedida; (…)

— Considerando que a liberdade de imprensa, estabelecida e consagrada como um dos direitos da nação, foi, constantemente, submetida à censura arbitrária de sua polícia (…);

— Pelo abuso que fez de todos os meios que lhe foram confiados, humanos e financeiros;

— Pelo abandono dos feridos sem remédios, sem socorro e sem meios de subsistência;

— Por diversas ações cujas consequências eram a ruína das cidades, o despovoamento dos campos, a fome e as doenças contagiosas;

(…) O Senado declara e decreta o seguinte:

Artigo 1o  Napoleão Bonaparte é deposto do trono e o direito de hereditariedade é abolido para sua família.”

Decreto do Senado, 3 de abril de 1814. In: FREITAS, G. 900 Textos e Documentos de História. Lisboa: Plátano, 1978. v. III. p. 62.

9. Napoleão Bonaparte por ele mesmo

“Na minha carreira se encontrarão erros, sem dúvida; mas (…) eu soterrei o abismo anárquico e pus ordem no caos. Eu limpei a Revolução, enobreci os povos e fortaleci os reis. (…) Minha ambição foi a de consagrar o império da razão (…). Milhares de séculos decorrerão antes que as circunstâncias acumuladas sobre minha cabeça encontrem um outro na multidão para reproduzir o mesmo espetáculo.”

Napoleão Bonaparte. O Processo Napoleão. In: FREITAS, G. op. cit., p. 124.

10. Napoleão Bonaparte para a França

Napoleão Bonaparte faleceu em 5 de maio de 1821, na ilha de Santa Helena onde estava exilado havia cinco anos e meio. Ao morrer, estava onze quilos mais magro em consequência do câncer no estômago e dos remédios utilizados na época, à base de arsênio e solventes.

Sua morte não provocou, inicialmente, uma comoção na França. No entanto, ao longo daquela década, um verdadeiro culto a Napoleão foi ganhando força. Passou a circular, entre o povo, estampas do imperador falecido, relatos e canções populares que contribuíram para a formação do mito do herói militar, do salvador da pátria, do herdeiro da Revolução Francesa.

Cortejo fúnebre dos restos mortais de Napoleão Bonaparte, gravura, 1840.

Cortejo fúnebre dos restos mortais de Napoleão Bonaparte, gravura, 1840.

Foi durante o reinado de Luís Filipe (1830-1848) que se obteve a aprovação do governo britânico para transferir os restos mortais de Napoleão para a França. O esforço fazia parte da política de Luís Filipe de exaltar “todas as glórias da França”. Para isso, ele já tinha transformado o Palácio de Versalhes em museu nacional e mandara esculpir em um de seus frontões “A todas as glórias da França”.

Decidiu-se que os restos mortais do imperador seriam trazidos por um esquadrão militar e não por um navio isolado. Na imprensa, começou uma acalorada discussão sobre onde sepultá-los. Foram sugeridos muitos locais: a basílica de Saint-Denis onde estavam enterrados os reis da França, o Panteão onde estão sepultados os heróis nacionais, aos pés do Arco do Triunfo ou da Coluna de Vendome, a igreja de Madeleine.

Ao final, votou-se fazer o sepultamento no Hôtel des Invalides (Palácio dos Inválidos), edifício onde o imperador realizou as cerimônias oficias de entrega das condecorações da Legião de Honra aos oficiais. Decidiu-se, também que ninguém mais, no futuro, seria enterrado nos Invalides, que permaneceriam reservados para Napoleão. O retorno de Napoleão foi saudado por escritores, artistas e poetas:

França, você o viu de novo! seu grito de alegria, ó França,
Cubra o barulho de seu canhão;
Seu povo, um povo inteiro que se precipita em suas praias,
Estenda seus braços a Napoleão

(Casimir Delavigne, 1840)

 

Céu congelado! sol puro! Oh! brilha na história!
Do triunfo fúnebre, a tocha imperial!
Que o povo guarde você em sua memória para sempre.
Dia tão belo quanto a glória,
Frio como o túmulo.

(Victor Hugo, 1840)

Na manhã do dia 15 de dezembro de 1840, os restos mortais de Napoleão Bonaparte chegaram a Paris. Sob um frio de –10 graus, uma multidão ocupou as ruas por onde passou o cortejo fúnebre. Das janelas e dos telhados, muita gente acenou para a carruagem puxada por 16 cavalos que levava o corpo de Napoleão Bonaparte.

O cortejo passou sob o Arco do Triunfo, construído em 1806 por ordem de Napoleão Bonaparte, em comemoração ás suas vitórias militares. Seguiu para o Hôtel des Invalides onde foi sepultado. Por nove dias (de 16 a 24 de dezembro), a igreja de Les Invalides permaneceu aberta ao pública e iluminada como o dia da cerimônia. O corpo do imperador permaneceu ali até ser concluída sua tumba monumento em 1861.

Para alojar o enorme sarcófago, foi feita uma escavação circular sob a cúpula dos Les Invalides. O sarcófago de quartzito vermelho da Finlândia, esculpido com coroas de louro, foi colocado sobre uma base de granito verde. Ao redor do túmulo, estão doze “Vitórias”, figuras femininas simbolizando as campanhas militares de Napoleão Bonaparte. O nome das oito vitórias mais famosas estão gravados no chão de mármore policromado que rodeia o túmulo.

O retorno do corpo de Napoleão à França teve dois objetivos: melhorar a imagem da Monarquia de Julho e garantir uma certa glória para os organizadores, Thiers e o rei Luís Filipe. O sucesso do empreendimento, contudo, foi efêmero. A popularidade do rei diminuiu nos anos seguintes e ele foi forçado a abdicar em fevereiro de 1848.

Cem anos após o retorno das cinzas de Napoleão Bonaparte, em 1 devolveu à França os restos mortais do filho do imperador com Maria Luísa, Napoleão Francisco Carlos José Bonaparte. Morto em 1832, ele havia sido enterrado em Viena. A iniciativa de Hitler, em plena Segunda Guerra Mundial, era um esforço para melhorar sua imagem junto aos franceses, cujo país estava, então, ocupado pela Alemanha nazista. Os restos do filho de Napoleão foram sepultados nos Les Invalides, ao lado do sarcófago do pai. Na ocasião, os parisienses sussurram: “Eles nos tiram o carvão e nos devolvem as cinzas!”. Em 18 de dezembro de 1969, o túmulo de Napoleão Francisco foi removido para a cripta de Les Invalides e encontra-se, hoje, sob uma placa de mármore.

Napoleão Bonaparte ajudou a criar as bases da França atual. No entanto, esse modelo de Estado organizado foi alcançado por meio de vitórias militares e trabalho escravo. Os que criticam o legado napoleônico lembram que o  imperador cancelou a abolição da escravidão, em 1802, e criou um Código Civil que colocava as mulheres em posição subalterna. Os historiadores, contudo, consideram essas críticas como um anacronismo, um olhar do passado com os olhos do presente, quando deveríamos compreender as ações das pessoas pelos olhos do seu tempo (Zamoyski, 2020).

Fonte

  • ENGLUND, Steve. Napoleão: uma biografia política. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
  • BERTAUD, Jean-Paul. A queda de Napoleão. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
  • COLSON, Bruno (org) e BONAPARTE, Napoleão. Sobre a guerra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileria, 2015.
  • LENTZ, Thierry. Napoleão. São Paulo: Editora Unesp, 2008.
  • ZAMOYSKI, Adam. Napoleão, o homem por trás do mito. São Paulo: Crítica, 2020.
  • _________. 1812, a marcha fatal de Napoleão rumo a Moscou. Rio de Janeiro: Record, 2014.
  • Entrevista de Andrew Roberts, autor de Napoleon a life. Leia aqui.
  • NEVES, Lúci Maria Bastos Pereira. O imperador e o monstro. Revista de História de Biblioteca Nacional. Leia aqui.

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