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Desenhos para colorir no Fund-2? Que função pedagógica eles têm?

3 de fevereiro de 2026

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Você aplica atividade de colorir no 7º ou 9º ano? Por que não? A importância do desenho na Educação Infantil está, há tempos, consolidada em numerosos estudos e farta literatura científica. O ato de desenhar e colorir é uma via de experimentação que desenvolve competências e habilidades cognitivas além de ser um espaço de desenvolvimento pessoal e psicossocial. Para Vygotsky, o desenho é “signo, atividade simbólica, linguagem que tem papel fundamental no desenvolvimento da capacidade cognitiva e semiótica da criança, bem como em sua capacidade criadora e imagética”.  Esta imaginação é componente basilar de toda atividade criadora humana.

Todas essas evidências pedagógicas positivas do desenho de colorir deixam de ser destacadas no Fundamental 2: atividades desse tipo desaparecem dos livros didáticos e das aulas do 6º ao 9º ano. E não estou me referindo a gravuras do coelhinho da Páscoa, mas sim a desenhos de colorir de artefatos arqueológicos na aula de História, ou do sistema digestivo na aula de Biologia, ou um gráfico de pizza do IDH na aula de Geografia.

Há uma forte resistência ou mesmo rejeição com esse recurso pedagógico no Fundamental 2 (e mais ainda no Ensino Médio) por um conjunto de fatores:

  1. O estigma da “infantilização”

Existe uma percepção comum de que colorir é uma atividade de “passatempo” restrita à Educação Infantil. Muitos professores temem que, ao propor isso, os alunos do Fundamental 2 (que estão em uma fase de afirmação da maturidade) se sintam subestimados ou que os pais questionem a seriedade acadêmica da disciplina.

  1. Prioridade ao conteúdo denso

No Fundamental 2, a carga horária de História e Geografia é focada na transição para o pensamento abstrato e crítico. O professor muitas vezes sente que “perde tempo” com uma atividade de colorir — algo visto como mecânico — em vez de dedicar esses minutos à análise de fontes escritas ou debates, que são as competências mais cobradas em avaliações formais.

  1. Falha na formação docente

Muitos educadores não são treinados para utilizar o desenho como ferramenta de análise técnica. Sem a mediação correta, o colorir torna-se apenas preenchimento de espaços. Quando o professor não conhece a função pedagógica da ilustração arqueológica ou do desenho científico, ele descarta a atividade por não enxergar seu valor investigativo.

  1. O preconceito do “desenho pronto”

Na pedagogia moderna, há uma valorização do desenho autoral (onde o aluno cria do zero) em detrimento do desenho pronto. Professores podem evitar desenhos para colorir por acreditarem que eles limitam a criatividade, ignorando que, no caso da Arqueologia, a reprodução fiel é necessária para a compreensão da morfologia do objeto.

A estratégia de colorir na aula de História

Utilizar desenhos para colorir baseados em artefatos arqueológicos não é entretenimento, mas uma ferramenta de análise iconográfica e cartográfica, Educação Patrimonial e desenvolvimento cognitivo.

O objetivo não é o preenchimento estético, mas a decupagem do artefato: usar cores para separar camadas de informação que, em preto e branco, parecem uma coisa só, ou em uma imagem colorida, escapam à investigação.

Não se trata de uma atividade de “tempo livre”, mas de uma metodologia onde o professor atua como mediador técnico ou “curador de evidências” orientando a leitura do objeto, guiando a percepção visual do estudante e estimulando a imaginação histórica.

Exemplos de estratégias com atividade de colorir

Ao transpor objetos do acervo museológico e documental para o papel, o desenho para colorir atua como um simulacro técnico que permite ao aluno “manipular” o passado.

Sob a mediação do professor, o ato de colorir se tornar um exercício de análise iconográfica. Por meio de orientações precisas, o estudante é provocado a identificar hierarquias sociais, reconhecer tecnologias de escrita e compreender a cultura material de diferentes épocas. A cor, neste contexto, funciona como um marcador analítico que ajuda a separar camadas de informação, transformando a imagem em um documento vivo e passível de investigação.

Abaixo, apresentam-se exemplos de estratégias que demonstram como aplicar essa metodologia em diferentes contextos históricos e geográficos:

1. “Nesta reprodução da Pedra de Roseta, pintem de azul apenas a seção do texto em grego e de vermelho a seção em demótico. O que vocês notam sobre o espaço que cada uma ocupa?”

  • Resultado: O aluno percebe a estrutura do artefato antes de se preocupar com a estética.

 

2. “As estátuas gregas antigas eram originalmente policromadas, mas, com o tempo, as cores se apagaram e restou apenas o mármore branco. O artista grego extraia as cores de minerais, óxidos metálicos, plantas e materiais orgânicos para obter o vermelho, azul, verde, preto, amarelo e branco. Use essas cores para restaurar o colorido dessa estátua.

  • Resultado: A atividade estimula a imaginação histórica e a pesquisa para mais informações sobre o objeto original.

 

3. “Debret registrou em aquarelas cenas da vida brasileira no começo do século XIX. Nesta aquarela, “Jantar Brasileiro”, identifiquem e pintem os objetos de poder (talheres, sapatos, copos de cristal, louça, mobiliário, joias); agora pintem a elite branca e por fim os escravizados da casa.”

  • Resultado: O desenho deixa de ser somente uma arte ou uma ilustração do passado para ser tornar um diagrama histórico-sociológico, destacando a hierarquia social, a cultura material, as relações escravocratas.

Funções pedagógicas do ato de colorir no ensino de História

1. Alfabetização cultural e memória

Ao colorir a reprodução de um objeto real, o aluno pratica o que especialistas chamam de “alfabetização cultural”. Essa atividade:

  • Aproxima o passado: transforma um item abstrato ou distante (muitas vezes visto apenas em vitrines de museus) em algo tátil e manipulável.
  • Fortalece a Identidade: ajuda a construir um sentimento de pertencimento e valorização da história local ou global.
  • Evita interpretações erradas: o uso da arte linear simples (fiel ao traço técnico arqueológico) garante que a representação seja precisa, servindo como um substituto educativo do objeto real.
  • Favorece a imaginação do passado: o aluno pode tentar reproduzir as cores ou usar a imaginação para dar novo significado ao objeto.

2. Desenvolvimento cognitivo e observação

O formato de arte linear (line art) exige que a criança ou estudante foque nos detalhes estruturais do artefato desenvolvendo:

  • Percepção visual: colorir áreas delimitadas por linhas precisas estimula a observação de formas, proporções e texturas que passariam despercebidas em uma foto.
  • Coordenação motora: a atividade desenvolve o controle muscular fino, essencial para a escrita e outras habilidades práticas.
  • Concentração e aprendizado: o processo de preencher o desenho facilita a sistematização de ideias e a memorização das características do artefato.

Desenhos para colorir no Stud História

O site Stud História oferece numerosos desenhos para colorir que são reproduções de artefatos arqueológicos, pinturas históricas e iluminuras medievais. Eles trazem orientações para o professor trabalhar o material de maneira significativa orientando a percepção visual do estudante na observação de detalhes e na coleta de informações históricas, o que torna a atividade um estudo  iconográfico eficiente.

Idade Antiga

Idade Média

Brasil colonial

Desenhos para colorir fornecidos por faculdades e museus

Centenas de bibliotecas e museus transformam seus acervos em livros de colorir gratuitos. Alguns endereços com bons recursos para o professor utilizar:

  • Arqueologia e Pré-História: Portal brasileiro que reúne desenhos para colorir, materiais didáticos, jogos e animações para o público infantil e jovem. O foco é arqueologia brasileira e pré-colombiana.
  • MSU Campus Archaeology Program: site da Universidade Estadual de Michigan, possui páginas específicas para colorir artefatos arqueológicos e ferramentas de escavação.
  • Museum of Archaeology & Ethnology (SFU): museu da Universidade Simon Fraser, do Canadá, oferece desenhos de artefatos líticos (ferramentas de pedra) e animais pós-glaciais da América do Norte em traços lineares simples.
  • Tennessee State Museum: oferece PDFs com desenhos lineares de artefatos reais de sua coleção como indumentárias femininas e masculinas, automóveis antigos etc.
  • University of Cambridge: o Museu de Arqueologia Clássica disponibiliza desenhos em arte linear de esculturas e artefatos gregos e romanos: a Coluna de trajano, altares, .
  • Smithsonian Institution: centraliza links de mais de 116 museus que oferecem ilustrações históricas para download.

Fonte

  • GARDNER, Howard. As artes e o desenvolvimento humano. Porto Alegre: ArtMed, 1997.
  • VYGOTSKY. Imaginação e criação na infância. Trad. Zoia Prestes. Ana Luiza Smolka (Comenta). São Paulo: Ática, 2009.
  • BRITO, Laura. Traços, cores e formas na infância: da BNCC à perspectiva vigotskyana do desenho infantil.

 

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