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Conto de Fadas nas aulas de História: entre o imaginário e o documento histórico

6 de março de 2026

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Desde o início do século XX, os contos de fadas deixaram o terreno exclusivo da tradição oral para se tornarem fontes valiosas de pesquisa e objeto de estudo interdisciplinar de numerosos pesquisadores. História, Sociologia, Mitologia Comparada, Psicanálise, Crítica Literária, Antropologia, Pedagogia e outros campos do conhecimento analisaram os contos de fadas sob diferentes abordagens.

Hoje, estudar os contos de fadas significa reconhecer que, sob a capa do “era uma vez”, escondem-se camadas de significados políticos, éticos e históricos que continuam a moldar nossa visão de mundo.

Na escola, os contos de fadas estão presentes nas aulas da Educação Infantil como linguagem simbólica para o desenvolvimento socioemocional, ampliação do repertório e letramento, estimulação do imaginário e da criatividade na criança. Estão, inclusive, expressos nas diretrizes da BNCC.

Neste artigo, propomos a desconstrução da ideia de que os contos de fadas são “infantis”, apresentando-os como estruturas narrativas complexas que podem ser exploradas nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio para desenvolver o pensamento crítico, a análise histórica e a compreensão sociológica.

Há uma extensa bibliografia de importantes pesquisadores que fizeram dos contos de fadas seu objeto de estudo.

Pesquisadores que analisaram os contos de fadas

O estruturalista russo Vladimir Propp, em seu clássico Morfologia do Conto Maravilhoso (1928) identificou 31 funções nos contos de fadas. Em As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso (1946), ele demonstrou como as estruturas narrativas dos contos de fadas se conectam com antigos ritos de passagem e estruturas sociais tribais e feudais.

Para o psicoterapeuta suíço Carl Jung, fundador da psicologia analítica, os contos de fadas são a expressão mais pura e reduzida dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. São “esqueletos” psíquicos que revelam a estrutura básica da alma humana. Sua principal colaborada, Marie-Louise von Franz, sistematizou a análise junguiana em obras como A Interpretação dos Contos de Fada (1987).

Para Joseph Campbell, famoso por seus estudos de mitologia e religião comparada e autor de O Herói de Mil Faces (1949), os contos de fadas são “mitos em miniatura” ou “mitos domésticos”. Segundo ele, enquanto o mito trata de questões macrocôsmicas (criação do mundo, destino das nações), o conto de fadas concentra-se no microcosmo (amadurecimento individual, superação de traumas familiares e integração na sociedade).

Ítalo Calvino, embora mais conhecido como escritor, também se debruçou nos contos realizando uma monumental coleta em Contos de Fadas Italianos (1956). Segundo ele, os contos são o catálogo de todos os destinos que podem caber a um homem e a uma mulher, sendo úteis para estudar a cultura imaterial e as tradições regionais.

Sob o enfoque da história cultural ou “etnografia histórica”, o historiador Robert Darnton em O Grande Massacre de Gatos (1984)  analisou a mentalidade e a visão de mundo das classes populares na França do Antigo Regime (século XVIII). Segundo ele, os contos de fadas oferecem uma via de acesso à cultura popular que os documentos oficiais muitas vezes calam.

A historiadora e romancista inglesa Marina Sarah Warner em Da Fera à Loira: sobre contos de fadas e seus contadores (1994) realizou uma análise histórica, literária e feminista dos contos de fadas, mostrando como essas narrativas refletem as condições sociais e as vozes femininas ao longo dos séculos.

O pesquisador Jack Zipes, um dos maiores especialistas contemporâneos na história social dos contos de fadas, em sua obra Os Contos de Fadas e a Arte da Subversão (1983) argumenta que os contos não são narrativas inocentes, mas ferramentas de socialização e controle político que serviram para moldar comportamentos e valores de acordo com a classe dominante de cada época.

Maria Tatar em Os Fatos Cruéis dos Contos dos Grimm (1987) analisou a violência e a crueldade nos contos originais explicando que essas histórias eram formas de processar traumas e perigos reais (como infanticídio ou a fome), elementos que refletem a mentalidade da época sobre a infância.

Entre os estudiosos brasileiros, destaca-se Nelly Novaes Coelho, ensaísta, crítica literária e professora de Teoria da Literatura na USP. Escreveu, entre muitas obras, O conto de fadas: símbolos, mitos, arquétipos (1987). Analisou a evolução dos contos desde a tradição oral até a literatura infantil contemporânea, focando na formação de valores.

Em suma, os contos de fadas transcendem a simples contação de história. No ensino de História para os anos finais do Fundamental e Ensino Médio, os contos de fadas são uma poderosa ferramenta de interpretação e contextualização que revelam camadas de significado histórico ocultas sob a magia. Nesse sentido, podem ser tratados como documentos históricos que preservam mentalidades, medos e estruturas sociais de épocas passadas.

O conto como ferramenta hermenêutica no ensino de História

A hermenêutica busca o sentido por trás das palavras. Em História, isso significa tratar o conto como um testemunho involuntário. Quando um aluno analisa O Gato de Botas, ele pratica a hermenêutica (interpretação) ao perceber que as botas e as roupas luxuosas não são apenas acessórios, mas signos de status social cruciais na transição da Idade Média para a Moderna, onde a aparência determinava o acesso ao poder.

O conto de fadas traduz a mentalidade de uma época. Como afirma Robert Darnton, os contos permitem “ler” a visão de mundo de camponeses que não deixaram memórias escritas. Isso se expressa por meio de metáforas:  a “floresta sombria” não é apenas um cenário, mas a representação do perigo real e do desconhecido no mundo medieval. Expressa-se, também, nos silêncios:  o que o conto não diz sobre o trabalho braçal revela como a aristocracia e a burguesia viam o esforço.

Interpretar os contos em seu próprio tempo possibilita um exercício de contextualização e alteridade. Em vez de julgar o pai de João e Maria como “mau” por tê-los abandonado na floresta, a interpretação histórica leva o aluno a compreender a ética da sobrevivência em períodos de fome sistêmica na Europa pré-industrial.

A hermenêutica histórica permite, ainda, comparar as versões de Perrault (focada na corte de Luís XIV) com as dos Irmãos Grimm (focada na identidade nacional alemã). Essa análise mostra ao aluno que o mesmo conto muda para se adaptar às necessidades políticas de cada contexto histórico.

Enfim, usar o conto como ferramenta de interpretação histórica é ensinar o aluno a “ler nas entrelinhas” da cultura, transformando o maravilhoso em evidência concreta de como os seres humanos sentiam, temiam e organizavam suas sociedades.

O herói Ivan Tsarevich em “O Pássaro de Fogo e o Lobo Cinzento”, conto de fadas russo, 1889.

Importância pedagógica: imaginário e criatividade

Como afirma Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas, essas narrativas ajudam a criança a dar ordem ao seu caos interno e a compreender dilemas universais.

No ensino de História, essa “alfabetização do imaginário” permite que o aluno projete cenários do passado, desenvolvendo a empatia histórica — a capacidade de compreender as motivações de sujeitos que viveram em contextos temporais distintos. O desenvolvimento do imaginário é fundamental para o pensamento histórico.

E a fantasia, por sua vez, é um motor para o desenvolvimento intelectual, pois permite à criança lidar com conceitos abstratos, como destaca Vygotsky (1998). Já Paulo Freire (1979) reforça que “a contação de histórias pode ser um ato de libertação” se promove um diálogo crítico com o compromisso de formação de um ser humano digno, fraterno e justo.

Importante lembrar, também, que, para além de um recurso didático, o conto de fadas é um ato pedagógico poderoso para o desenvolvimento da inteligência emocional, servindo como ponto entre saberes, emoções e inteligências. Em um mundo cada vez mais acelerado e tecnológico, resgatar o poder das histórias é uma maneira de educar com sensibilidade, empatia e respeito ao outro.

“O Pequeno Polegar”, ilustração de 1865.

Contos de fadas como documentos históricos

Ao levar o conto de fadas para a sala de aula, o professor de História promove a reflexão crítica mostrando ao estudante que os contos não são fantasias lúdicas e neutras. O aluno deixa de ser um espectador passivo para se tornar um investigador capaz de identificar nos elementos mágicos as marcas de permanências e rupturas sociais, políticas e culturais da humanidade.

Para propiciar essa atitude historiadora, é importante trabalhar com os contos em suas versões originais (veja abaixo indicação de coletâneas) fugindo da disneyficação que transformou os contos em entretenimento comercial com versões suavizadas, focadas no romance, com finais felizes (“felizes para sempre”) e personagens moralmente definidos (MACHADO, 2024). Como observa Marina Warne a respeito dos contos de fadas produzidos pela indústria cultural: “Essas histórias estão sendo contadas de uma forma menos rica, e os vampiros estão sendo domesticados” (MAROSEVIC, 2014).

Como aplicar os contos de fadas nas aulas de História compreendendo sua historicidade no tempo e no espaço? O que eles podem nos revelar sobre o contexto histórico em que foram produzidos e publicados? Que elementos presentes nos contos permitem identificar estruturas sociais e políticas do passado? Cada conto de fadas é um arquivo particular do passado e a riqueza de informações que podemos extrair dele depende das perguntas que fazemos. Mas, damos alguns exemplos a seguir.

Cinderela, ilustração de Jenny Nystrøm, Noruega, por volta de 1890.

Cinderela, na versão clássica de Charles Perrault, de 1697 ou dos Irmãos Grimm, de 1812, é uma metáfora para a sociedade feudal: no “feudo da casa”, as posições são fixas e determinadas pelo nascimento ou casamento. Cinderela é mostrada como uma serva vinculada à terra (a casa) que tem a obrigação de trabalhar para sustentar o luxo da nobreza em troca de moradia e proteção (subsistência). O próprio nome “Cinderela” (borralheira) remete à sujeira do trabalho manual, que era visto como degradante pela nobreza medieval. E como foi possível o casamento com o príncipe sendo uma sociedade estamental? Na versão original, Cinderela não nasceu serva, era filha de um fidalgo o que, na lógica medieval, lhe confere o sangue e a linhagem necessários para casar-se com um príncipe.

Já a fábula Os Músicos de Bremen, recolhida pelos irmãos Grimm e publicada em 1819, permite discutir a crise do sistema feudal e a busca por liberdade. Os animais idosos, descartados por seus donos após uma vida de trabalho, fogem para Bremen, que simboliza a atração exercida pelos centros urbanos na Idade Média, onde “o ar da cidade liberta”. Entretanto, em uma segunda leitura que considera o contexto de sua publicação, em pleno nacionalismo romântico alemão, o conto transforma-se em uma alegoria para o Estado-Nação do século XIX.

O conto francês O Gato de Botas, de Charles Perrault, publicado em 1697, no auge da monarquia absolutista de Luís XIV, sugere os “bastidores” da construção do Estado Moderno. O Gato atua como um verdadeiro Conselheiro Real ou um Ministro de Estado (como um Richelieu) que está criando uma Monarquia Nacional para o seu senhor, o “marquês de Carabás”. Representa os valores da burguesia em ascensão e o papel da aristocracia na transição para a modernidade.

Trabalhando o conto de fadas nas aulas de História

Estamos preparando duas dinâmicas para você trabalhar os contos O Gato de Botas e Os Músicos de Bremen com seus alunos do 8º e 9º anos e Ensino Médio. Publicaremos em breve.

Fonte

  • BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra S/A, 2009.
  • CANTON, Kátia. Era uma vez um mito: o conto de fadas revisitado na literatura e nas artes contemporâneas. Cadernos de Subjetividade. PUC-SP, v.3, n.1, 1995.
  • CALVINO, Ítalo. Sobre o Conto de Fadas. Lisboa: Teorema, 1999.
  • CHARTIER, Roger. Leituras e leitores na França do Antigo Regime. São Paulo: Editora Unesp, 2004.
  • COELHO, Nelly Novaes. O Conto de Fadas. São Paulo: Editora Ática, 1991.
  • COELHO, Nelly Novaes. O Conto de Fadas: símbolos, Mitos, Arquétipos. São Paulo: Paulinas, 2012.
  • MACHADO, Júlio César. Ler contos de fadas e superar a disneyficação: uma proposta argumentativa, discursiva e freireana. Campinas: Pontes Ed., 2024.
  • MAROSEVIC, Zeljka. Pensamento crítico n.5: Marina Warner. Prospect Magazine, 8 maio 2014.
  • TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo, Perspectiva, 2012
  • VALENZUELA, Sandra Trabucco. “Conto de fadas: origens, conceitos e reflexões sobre o gênero.” São Paulo: Revista USP, n. 140, janeiro/fevereiro/março 2024, p. 89-106.
  • VOLOBUEF, K. “O conto de fadas”. Revista de Letras, vol. 33. Unesp, 1993, pp. 99-114
  • WARNER, Marina. Da Fera à Loira: sobre contos de fadas e seus narradores. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Contexto, 2003.
  • ZILBERMAN, R. A Literatura infantil na escola. 1.ed. São Paulo: Global, 2003.
  • ZIPES, Jack. Os Contos de Fadas e a Arte da Subversão: o gênero clássico para crianças e o processo civilizador. São Paulo: Perspectiva, 2023.

Coletânea de Contos de Fadas

  • PERRAULT, Charles. Contos e Fábulas. São Paulo: Iluminuras, 2009.
  • GRIMM, J.; GRIMM, W. Contos maravilhosos infantis e domésticos, 1812-1815, vols. 1-2. São Paulo, Cosac Naify, 2012.
  • BORGES, Maria Luiza X. de A. (trad.) Contos de fadas de Perrault, Grimm e Andersen. Rio de Janeiro, Zahar, 2010.
  • GRIMM, J.; GRIMM, W.; ANDERSEN, Hans C.; PERRAULT, Charles et ali. Contos de fadas em suas versões originais. Campinas (SP): Ed. Wish, 2019.

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