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A polêmica origem de Cleópatra: a quem interessa?

27 de abril de 2023

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Cleópatra VII, a última rainha do Egito, voltou às mídias sob uma nova problematização: ela seria negra africana ou branca grega macedônica? Desde a Antiguidade, Cleópatra tem suscitado curiosidade e fascínio. Com o advento do cinema, a rainha egípcia ganhou numerosas representações que, seguindo as convenções estéticas de Hollywood, sob a aparência de mulher branca europeia.

A partir dos estudos sob uma perspectiva africana e das teses do afrocentrismo e da afrocentridade, ganhou destaque a questão da africanidade do Egito Antigo e, com ela, a ascendência de Cleópatra. Sob esse olhar, a Netflix lançou, em abril de 2023, o drama documental Rainha Cleópatra retratamdo a rainha egípcia como uma negra africana, interpretada pela atriz britânica Adele James.

Adele James como Cleópatra no documentário da Netflix (à esquerda) e estátua de basalto negro do período ptolomaico identificada como Cleópatra VII, 105 cm de altura (à direita).

O historiador, arqueólogo e egiptólogo Duane W. Roller foi consultado a respeito da polêmica sobre a origem de Cleópatra. Ele é professor emérito de grego e latim na Universidade de Ohio (EUA) e autor de vários livros entre eles Cleopatra: a Biography (2011) e Cleopatra’s Daughter  (2011).

Em seu artigo publicado no portal da Universidade de Oxford, ele discorre sobre a ascendência de Cleópatra mas, de imediato, deixa a pergunta “isso realmente importa?”

Segue a transcrição.

“Tem sido sugerido – embora geralmente não por fontes acadêmicas confiáveis ​​– que Cleópatra era racialmente negra africana. Para ser franco, não há absolutamente nenhuma evidência para isso, mas é uma daquelas questões que parece ganhar vida própria, apesar de todas as indicações em contrário. O que se segue apresenta as evidências da ascendência racial de Cleópatra, mas não se deve esquecer que isso é de pouca importância na avaliação do legado da rainha na história mundial.

Consideremos exatamente a evidência da origem racial de Cleópatra. É um pouco complicado, então acompanhe de perto! Ela nasceu no início de 69 a.C. como descendente de uma linhagem de reis egípcios de uma dinastia que remontava a 250 anos. 

Seu ancestral Ptolomeu I, um companheiro de Alexandre, o Grande, fundou a dinastia no final do século IV a.C. Ptolomeu era de origem grega macedônia (ele cresceu na corte real do pai de Alexandre na Macedônia, a parte norte da península grega) e se estabeleceu como rei do Egito nos anos convulsivos após a morte de Alexandre. 

A descendência passou por seis Ptolomeus sucessores até chegar ao pai de Cleópatra. Portanto, Cleópatra não estava a mais de oito gerações de ser um grego macedônio puro.

E as mães da dinastia ptolomaica? As mulheres são sempre difíceis de encontrar, mesmo nas dinastias reais, e é aqui que as questões sobre sua origem racial foram levantadas. Nas primeiras seis gerações, as esposas dos governantes Ptolomeus também vieram da mesma origem macedônia de seus maridos. Assim, até a época do bisavô de Cleópatra, a composição étnica da dinastia ainda era pura macedônia grega. De fato, dois de seus ancestrais se casaram com suas irmãs, reforçando assim a etnia macedônia.

É com o avô de Cleópatra que surgem as incertezas. Embora tivesse duas esposas de origem macedônia tradicional, ele parece ter tido pelo menos uma concubina de origem incerta, que pode ter sido a avó de Cleópatra. Mas isso não está claro, e algumas fontes indicam que ela era irmã de seu marido e, portanto, macedônia pura.

Assumindo, no entanto, que a avó de Cleópatra não era do tradicional tronco grego macedônio, surge a questão de saber exatamente o que / quem ela era. Fontes sugerem que, se ela não era macedônia, provavelmente era egípcia. Assim, na época dos avós de Cleópatra, pode ter havido um elemento egípcio na origem racial.

O pai de Cleópatra também teve várias esposas. Uma era sua irmã, mas novamente há evidências de que alguns de seus cinco filhos tiveram outra mãe. Já o geógrafo e historiador grego Estrabão (c.63-23 a.C.) – uma das poucas fontes contemporâneas sobre a vida de Cleópatra – escreveu que todas as esposas de seu pai eram mulheres de status significativo, o que exclui quaisquer escravas ou concubinas e torna possível que a mãe de Cleópatra fosse da tradicional linhagem grega macedônia. 

Mas pode não ter sido esse o caso, então pode ser necessário procurar em outro lugar a origem étnica da mãe de Cleópatra. No entanto, há apenas um outro grupo étnico que produziu mulheres de status no Egito contemporâneo: a elite religiosa egípcia, que na verdade tinha uma longa história de casamentos mistos com a dinastia ptolomaica. Portanto, a mãe de Cleópatra pode ter sido egípcia, mas provavelmente também tinha algum passado macedônio.

Há três outras questões dignas de consideração. Uma delas é que Cleópatra foi a única governante de sua dinastia que sabia, além de seu grego nativo, a língua egípcia. Isso sugere associação próxima com um falante egípcio, talvez sua mãe. 

Em segundo lugar, a filha de Cleópatra, que se tornou rainha da Mauritânia (e ela mesma era mestiça, já que seu pai era romano), homenageou a elite religiosa egípcia em sua distante capital, a Cesareia mauritânia (na moderna Argélia). Isso faz sentido se eles fizessem parte de sua família ancestral. 

E terceiro – especialmente relevante para demolir qualquer sugestão de que Cleópatra tinha sangue negro africano – as representações dela na arte grega e romana e nas moedas não mostram nada além da tradicional etnia mediterrânea, embora os artistas fossem perfeitamente capazes de mostrar outros grupos étnicos.

Resumindo: é bem possível que Cleópatra fosse uma grega macedônia pura. Mas é provável que ela tivesse algum sangue egípcio, embora a quantidade seja incerta. Certamente não era mais da metade, e provavelmente menos. A melhor evidência é que ela era três quartos grega macedônia e um quarto egípcia. Não há espaço para mais nada, muito menos para qualquer sangue negro africano.

No entanto, toda essa argumentação é bastante tola. O que é importante sobre Cleópatra é que ela se tornou uma das governantes mais poderosas de sua época. Ela era uma linguista habilidosa, uma comandante naval, uma administradora especialista, uma líder religiosa vista por alguns como uma figura messiânica e uma adversária digna dos romanos. 

Ela foi adorada no Egito por mais de 400 anos após sua morte. A raça parece irrelevante em tal situação, e nem é preciso dizer que as pessoas devem ser julgadas por suas habilidades, não por sua raça. Mas, infelizmente, mesmo na América do século XXI, isso está longe de ser o caso. É improvável que Cleópatra se importasse com sua composição racial, mas as pessoas, mais de 2.000 anos depois, ainda ficam obcecadas banalizando assim suas realizações.”

Fonte

Outras leituras

  • OLIVA, Anderson Ribeiro. Desafricanizar o Egito, embranquecer Cleópatra: silêncios epistêmicos nas leituras eurocêntricas sobre o Egito em manuais escolares de História no PNLD 2018. Romanitas – Revistas de Estudos Grecolatinos, n.10, p. 26-63, 2017.
  • SHOHAT, Ella. Des-orientar Cleópatra: um tropo moderno da identidade. Unicamp, Cadernos Pagu (23), dez 2004.
  • SAGREDO, Raisa. Miradas afrocêntricas em torno da africanização do Egito Antigo. Assis-SP, Faces da História, v.4, n.2 p. 6-27, jun-dez 2017.
  • MAZZEI, Paula Tôgo. Rainha, amante audaciosa e sedutora: representações de Cleópatra nos portais educacionais da Web. Monografia. Brasília-DF, Universidade de Brasília, 2016.

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Ana
Ana
8 meses atrás

Este foi o quarto artigo que acabei de ler relacionado a esse tema e foi o que mais deixou claro para mim. <a href=”https://acmarket.net.br/”>baixe no link</a>

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