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Socialização da mulher na Rússia: ‘fake news’ que aterrorizou o Ocidente

28 de novembro de 2022

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Por volta de 1918, surgiu na imprensa brasileira uma notícia que apavorou as famílias: na Rússia comunista (a revolução ocorrera no ano anterior) as jovens entre 17 e 32 anos estavam sendo “socializadas” pelo governo revolucionário. Elas se tornavam bens do Estado podendo ser requisitadas por qualquer cidadão.

A notícia já circulava em outros países sem que qualquer autoridade governamental a desmentisse. Não havia também representação russa no exterior que o fizesse. As embaixadas do czarismo haviam sido desmanteladas e o novo regime ainda não havia reorganizado sua representação internacional. Sequer o novo governo russo era reconhecido. Proliferavam assim as notícias da revolução, quase sempre falsas, assustadoras e sem contestação.

A noticia escandalosa sobre a socialização das mulheres inspirou o filme The New Moon (direção Chester Withey, EUA, filme mudo, em preto e branco, 1919) que fez enorme sucesso mundial, inclusive no Brasil com o nome Lua Nova. O filme é um verdadeiro libelo anticomunista, com todos os clichês, e diz mais sobre a política americana da época do que sobre as condições na Rússia.

  • BNCC: 9° ano. Habilidades: EF09HI09, EF09HI11

Filme Lua Nova: sinopse

Cartaz do filme “The New Moon”, EUA, 1919.

Às vésperas da revolução, a princesa Maria Pavlovna está em um grande baile no Palácio Pavlovna, dado em homenagem ao seu noivado com o príncipe Michail Koloyar. Maria mostra-se um lado democrático na forma de tratar os camponeses, e é amada por eles.

No meio do baile, uma turba bolchevique, liderada por Kosloff, invade o palácio para matar e saquear sem piedade, o que deixa o palácio em ruínas. Kosloff é um sujeito a serviço do cruel Theo Kameneff.

O príncipe Michail luta bravamente para salvar Maria e consegue mandá-la embora em uma carruagem. Michail é preso, mas consegue escapar quando estava prestes a ser executado. Maria, por sua vez, vende suas joias para comprar uma mercearia na vila de Volsk, que serve de esconderijo. Ela mudou seu nome para Sonia Sazonoff.

Por acidente, Maria é descoberta pelo inescrupuloso Kameneff, que agora está apaixonado por ela.

Kameneff emite um mandado informando que todas as mulheres entre 17 e 32 anos devem se registrar, o que Maria faz com seu nome falso, presumindo que seja para trabalhar. As mulheres descobrem, então, que o registro as torna propriedade nacional, disponível para os homens, e entram em pânico.

Maria procura ajudar as mulheres e vai ao encontro de Kameneff. Sozinha com ele, ele aceita revogar a ordem se ela se entregar a ele. Com um espírito indomável, Maria o rejeita e passa a ajudar, secretamente, as mulheres a fugirem para a fronteira.

Segue-se uma onda de brutalidade com espancamento e estupros. Maria protege a Nadia Kameneff, irmã do vilão, trancando-a em um quarto. Um dos soldados russos tenta arrombar a porta com um machado. Maria usa um grande chicote e bate nele. Ele lança o machado contra ela que passa a poucos centímetros de seu rosto.

Finalmente Maria é pega ajudando as mulheres a escaparem. É presa e levada para o quartel-general de Kameneff que manda executá-la junto com outras mulheres. Mas o príncipe Michail vem em seu socorro, enquanto Kemenoff comete suicídio. Os amantes se exilam em um novo lar onde possam viver livres e felizes.

Denunciando a fake news

Folheto da Liga Comunista Feminina do Rio de Janeiro denunciando a fake news sobre a socialização da mulher na Rússia, 1918. Arquivo Nacional, RJ.

O filme deu mais força à fake news da “socialização de mulheres” na Rússia o que levou a Liga Comunista Feminina do Rio de Janeiro a publicar um folheto para desmentir a notícia e esclarecer os fatos.

O folheto distribuído nas ruas do Rio de Janeiro em 1919 tinha o título “A Socialização da Mulher na Rússia: esmagando uma infâmia. Chamava os rumores de “infamíssima calúnia” e afirmava que o falso decreto russo seria “obra de propagandistas anti-bolchevistas que têm dinheiro e meios em abundância para o seu ‘trabalhinho’. (…) E aqui está como se combate a revolução russa: com calúnias e infâmias… mas de burgueses não se pode esperar muita coisa.”

A fake news refletia a conjuntura de tensões e disputas ideológicas marcada pela vitória da revolução de 1917 na Rússia e pela difusão de ideias anarquista e socialistas ao redor do globo. Era uma resposta contra-revolucionária.

Nessa mesma época, o movimento feminista das sufragistas na Europa e nos Estados Unidos era combatido como uma aberração, e muitas sufragistas foram presas por isso. Em contrapartida, na Rússia revolucionária, as mulheres conquistaram o direito de votar já no Governo Provisório.

Após a revolução de outubro de 1917, Aleksandra Kollontai foi nomeada Comissária do Povo para Assuntos do Bem-Estar Social, a primeira ministra mulher no mundo. Ela também defendeu a noção de “amor livre”, no sentido de que as mulheres emancipadas eram livres para escolher seus parceiros.

Em 1918, foi aprovado na Rússia o Código da Família que tornou o casamento civil, legalizou o divórcio e fornecia direitos iguais a todas as crianças incluindo as nascidas fora do casamento registrado. Se uma mulher não soubesse quem era o pai de seu filho, todos os seus parceiros sexuais compartilhariam as responsabilidades de pensão alimentícia.

Essa legislação familiar progressista era um atentado ao patriarcalismo e sexismo da sociedade capitalista. Nesse contexto, a fake news da socialização de mulheres na Rússia servia para desviar a atenção das feministas, enfraquecer seu movimento, difamar a revolução russa e difundir medo entre as famílias tradicionais.

Transcrição do documento (em grafia atual)

A SOCIALIZAÇÃO DA MULHER NA RÚSSIA

Esmagando um infamia

Sendo levada à tela no “Eden Cinema” a célebre LUA NOVA que tantos protestos têm causado no Rio, por parte de homens conscientes e sinceros, nós comunistas, residentes em Barra Mansa lavramos o nosso protesto contra essa infâmia que pretendem lançar à Revolução Russa querendo impingir ao público um decreto que tem por fim ocultar a verdade dos fatos. Para destruir essa infamíssima calúnia transcrevemos o protesto da Liga Comunista Feminina do Rio, por ocasião da publicidade do referido decreto.

Os nossos jornalistas burgueses muito têm escrito sobre o pomposo “decreto” da socialização das mulheres na Rússia. E aquilo é que é escrever… chegam a afirmar tudo quanto lhes dá na veneta, com o fim, já se sabe, de desprestigiarem tudo o que não sair da cozinha burguesa. Ouçamos, porém, o que sobre o tão decantado “decreto” nos diz o jornalista francês Alfredo Rosnier.

“Entre as calúnias inventadas e espalhadas pela imprensa de todos os países com o fim de tornara odiosos os bolchevistas, não há nada mais absurdo, nem mais estúpido do que a pretensa socialização das mulheres na Rússia, com que os jornalistas burgueses têm feito calembures [jogo de palavras] e chiado [barulho] de indignação. E calculem: mesmo quando já se sabia duma maneira positiva que tudo aquilo não passava de pura fantasia, a senhora Sigefredo escreveu “horrorizada” a Clémenceau [ministro francês], suplicando-lhe que defendesse as mulheres russas das atrocidades bolchevistas…

Hoje ainda a galga [mentira, notícia falsa] corre mundo aumentando de dia para dia. Até nos próprios jornais alemães apareceu há pouco uma notícia sobre a “nacionalização das mulheres na Baviera comunista”!

Na revista americana “The New Republica”, publicou o sr. Olivier Sayler um artigo, de que extraímos o que segue:

“Quaisquer que sejam os erros cometidos pelos quais os bolchevistas tenham de responder, hoje, perante a opinião pública, e amanhã, perante a barra da história, o que é certo é que eles não podem, em verdade ser os responsáveis pelo chamado “decreto sobre a socialização das mulheres”, “decreto” que, sob diversas formas, foi impresso nos nossos jornais, durante esses últimos meses. A origem do decreto, que eu vi afixado, em Samara [cidade russa], na última primavera, não é bolchevista, e mesmo a autenticidade da sua origem anarquista deve ser acolhida com todas as reservas. Mas, qualquer que seja a sua origem, este incidente é um comentário sardônico [sarcástico] de inexatidões e de insuficiências da informação americana na Rússia”.

Oliver Sayler não é um bolchevista. É apenas um repórter dos jornais americanos. Por isso, depois de ter lido, com toda a população de Samara, o extraordinário documento, dirigiu-se ao Clube Anarquista para se informar, visto que lhe disseram que o “decreto” em questão era da autoria dos libertários.

Os anarquistas, assim que viram aproximar-se o jornalista perguntaram-lhe logo por Tom Moneey, Emma Goldman, Ben Retman e Alexandre Berkmann [anarquistas e socialistas nos Estados Unidos] – o que prova que nesta parte longínqua da Rússia se está bem ao que vai pelo mundo.

Sobre o “decreto”, os anarquistas protestaram contra ele com a mais viva indignação, assim como repeliram a paternidade que o vulgo [povo em geral] lhe atribuí. Mas este protesto não foi só verbal. Redigiram um manifesto, assinado pela Federação Anarquista de Samara, denunciando esse documento como uma provocação absurda e grosseira. E de fato. Como é que os anarquistas, que não admitem leis, nem decretos, nem poderes haviam de ser autores dum trabalho daqueles?

Agora, que já se conhece toda a história, chega-se a esta conclusão bastante cômica: o decreto, que “horrorizou” todo mundo, não tem autor! Os bolchevistas dizem que não é deles; e os anarquistas, a quem o vulgo atribui a paternidade dele, rejeitam-no em absoluto e indignamente. Logo, aquilo não é senão uma “blague” [piada] para desacreditar e ridicularizar os adversários.

Há, porém, ainda uma conclusão a tirar. É a de que o “decreto” é obra dos propagandistas antibolchevistas que têm dinheiro e meios em abundância para o seu “trabalhinho”.

Os bolchevistas e os anarquistas, longe de pensarem em socializar as mulheres, o que desejam é que tanto para elas, como para os homens haja inteira liberdade e independência.

Agora, o que tem sua graça é que os jornalistas burgueses, em presença dum perigo imaginário, se revoltam tão indignamente, quando defendem a ordem social presente, que engendrou [criou], reconhece e legaliza a prostituição.

E aqui está como se combate a revolução russa: com calúnia e infâmias… Mas de burgueses não se pode esperar outra coisa.

A família no comunismo

A família no regime burguês organiza-se tendo como base o interesse e as conveniências e se conserva unida por liames [vínculos] artificiais, compromissos vergonhosos, traições mal encobertas, litígios, ofensas pessoais, transações e violências.

E quando nas classes pobres se dissolve, os filhos são abandonados à caridade pública e, faltando esta, são atirados à rua.

Ao lado da família burguesa prospera o infanticídio, a prostituição, o proxenetismo [lenocínio, exploração sexual] e o crime.

No regime comunista e anarquista, a base única da família é o amor e mantêm-se pela amizade, pelo respeito mútuo, livre de preocupações econômicas.

E se o amor que determinou a união vem a desaparecer e o convívio se transformar em opressão recíproca, dissolvendo-se a família, os filhos ficam amparados pela comunidade.

Assinado

Partido Comunista do Brasil (Núcleo Barra Mansa)

O Secretário

Analisando o documento

Chama atenção alguns elementos neste caso de 1918 que são característicos do fenômeno das fake news, mais de um século depois:

  • O anonimato: a notícia não tem assinatura e isso pode servir para acusar adversários mesmo que o conteúdo da notícia seja incoerente com as ideias e ações desse grupo.
  • A divulgação através da mídia impressa e, posteriormente, em outras, como o cinema, ainda mais convincente.
  • O uso da fake news para destruir uma reputação e difamar o adversário mostrado como cruel, insensível, desumano, perigoso.
  • Se o adversário é o comunismo, a fake news vai enfocar aquilo que é mais sensível às pessoas: a propriedade e a família, como neste caso, a “socialização das mulheres” como bens do Estado.
  • O patrocínio de grupos endinheirados para a divulgação da fake news.

Para desmontar a fake news, a estratégia usada, neste caso, foi confrontar a notícia com dados reais e apresentar depoimentos de testemunhas. Mas não temos notícia se isso surtiu efeito, uma vez que a fake news toca na subjetividade humana, afeta emoções e medos que nem sempre se deixam vencer por argumentos racionais. Neste sentido, é exemplar o horror da senhora Sigefredo que suplica ao ministro francês para que “defendesse as mulheres russas das atrocidades bolchevistas” – um comportamento que ainda assistimos de mulheres apavoradas com um comunismo fantasioso criado pelas fake news.

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