Muitos conhecem a história do gato astuto que, munido apenas de um par de botas e uma inteligência aguçada, transforma um moleiro pobre no respeitável Marquês de Carabás. No entanto, por trás da fábula de Charles Perrault, estão os bastidores de uma transformação histórica profunda. Mais do que uma lição sobre esperteza, O Gato de Botas funciona como uma metáfora vibrante para a transição do feudalismo e a formação do Estado Moderno.
Neste artigo, exploraremos como as manobras do gato para centralizar o poder, legitimar a posse de terras e criar uma identidade nobiliárquica refletem os pilares da soberania estatal: a monopolização da força, a burocracia e a construção de um aparato político para a fundação de uma nova ordem política.
Contos de Fadas
Os Contos de Fadas são narrativas maravilhosas, de origem popular, transmitidas e herdadas da tradição oral e reescritas a partir do século XVII, com elementos fantásticos, seres sobrenaturais (fadas, ogros, duendes, animais falantes etc.) e, na maioria dos casos, com um herói como protagonista, imerso numa narrativa intemporal num mundo abstrato.
Em sua forma oral, o conto de fadas é uma das manifestações do folclore. Coexiste na tradição oral com outros tipos de narrativas como epopeias, lendas e mitos e, dessa forma, não possui um único autor.
Embora fossem originalmente destinados principalmente ao público adulto, os contos de fadas começaram a ser associados ao público infantil a partir do século XIX desde que os Irmãos Grimm intitularam sua coleção “Contos de Fadas para Crianças e Famílias”.
Em artigo anterior nesse site, apresentamos os contos de fadas como documentos que têm camadas de significados e, como tal, podem servir de recursos didáticos no ensino de História. Aqui, avançamos nessa análise utilizando a célebre narrativa de Charles Perrault como objeto de estudo. O Gato de Botas deixa de ser apenas uma fábula de astúcia para se tornar uma chave de compreensão sobre a formação do Estado Moderno.
Ao observarmos a trajetória do felino que transforma um camponês no Marquês de Carabás, identificamos os elementos centrais da transição do poder feudal para a centralização monárquica. O Gato não apenas engana um Rei; ele atua como um verdadeiro arquiteto político que utiliza a diplomacia, a legitimação territorial e a construção de imagem para consolidar uma nova soberania. Vamos desenvolver como essa trama lúdica ilustra processos históricos complexos, como a burocratização e a unificação do poder sob a figura do soberano.
Origem de “O Gato de Botas”
O Gato de Botas é um conto franco-italiano. O escritor renascentista italiano Giovanni Francesco Straparola transcreveu a versão mais antiga conhecida desta história em seu livro As Noites Divertidas (Le Piacevole Notti), publicado entre 1550 e 1553. A versão clássica deste conto foi escrita em 1695 por Charles Perrault em Contos da Mamãe Ganso. O Gato de Botas foi um sucesso instantâneo e continua popular até hoje, apesar de uma moral ambígua que exalta a astúcia e a trapaça em detrimento do trabalho honesto.

“O Mestre Gato ou o Gato de Botas” na página manuscrita e ilustrada de “Contos da Mamãe Ganso”, de Charles Perrault, 1695.
Resumo do conto
Após sua morte, um velho moleiro deixou toda a sua propriedade para seus três filhos. O mais velho herdou o moinho, o do meio o burro e o mais novo o gato. Sem um tostão e sem saber o que fazer com tal presente, o caçula pensou em comê-lo, mas o gato se revelou capaz de falar. Em troca de uma bolsa e um par de botas, e com muita astúcia, o animal decidiu fazer fortuna para seu mestre. Para isso, o gato capturou um coelho na floresta e o presentou ao rei como um presente de seu dono, o “Marquês de Carabás”. Durante vários meses, ele trouxe caça regularmente para o rei.
Certo dia, sabendo que o rei e sua filha viajavam pelo rio, o Gato persuadiu seu amo a tirar as roupas e entrar na água. Escondeu as roupas do amo atrás de uma pedra e chamou por ajuda. Quando o rei chegou, o Gato explicou que seu amo, o “Marquês de Carabás”, havia sido roubado enquanto se banhava no rio. O rei ofereceu ao jovem roupas valiosas e o convidou para sentar-se em sua carruagem ao lado de sua filha, que imediatamente se apaixonou por ele.
O Gato corre à frente da carruagem e ordena a todos que encontra pelo caminho que digam ao rei que aquelas terras pertencem ao Marquês de Carabás. Ele então entra em um castelo habitado por um ogro que pode se transformar em diversas criaturas. O ogro o recebe com a maior cortesia possível e se transforma em um leão para demonstrar suas habilidades. O Gato então pergunta se ele pode se transformar em um rato. Quando o ogro o faz, o Gato o ataca e o devora. O rei chega ao castelo do ogro e, impressionado com a riqueza do “Marquês de Carabás “, oferece a mão de sua filha em casamento ao jovem filho do moleiro. Logo depois, o Gato se torna um grande senhor e passa a caçar ratos apenas por diversão.
Arquitetura da Soberania
Cinco elementos chamam a atenção no Gato de Botas: 1) a primogenitura, o ponto de partida da trama; 2) o Gato como articulador político; 3) as botas do gato; 4) o ogro; 5) a construção da imagem do Marquês de Carabás. Esses componentes podem ser interpretados como metáforas das transformações políticas e sociais que deram origem ao Estado Moderno.
1. A Primogenitura
O filho do moleiro é o caçula de três filhos e herdou apenas um gato do pai falecido. Este detalhe é de grande importância: de fato, na época em que Perrault escreveu seus contos, a primogenitura garantia apenas ao filho mais velho herdar todos os bens de seus pais. Seu sustento estava, portanto, garantido. Em contraste, o filho mais novo tinha que trabalhar arduamente para construir sua própria fortuna, chegando até a se tornar uma espécie de vagabundo que percorria o mundo em busca de fama e riqueza.
No conto, as rígidas leis de herança são confrontadas pela necessidade de novas formas de ascensão em um mundo em transição. De forma astuta, o Gato vai conduzir a construção da imagem de seu mestre em um marquês burlando a linhagem de sangue.
2. O Gato
Assim como seu dono, o Gato é um marginalizado. Nenhum dos dois tem nada a perder, sendo o gato aparentemente a força motriz da dupla, enquanto o jovem permanece bastante passivo.
O Gato não possui bens mas possui o “saber-fazer”, a astúcia que permite a ascensão de classe.
Segundo Jack Zipes, o Gato é a personificação do secretário burguês culto, que serve seu mestre com devoção e diligência. O Gato demonstra educação e boas maneiras suficientes para impressionar o rei, possui inteligência para derrotar o ogro e habilidade para arranjar um casamento real para seu mestre de origem humilde. Ele é o articulador político ou “conselheiro” que domina a diplomacia e a estratégia, essenciais na burocracia estatal. A carreira do Gato de Botas culmina com seu título de “Grande Senhor” e, como tal, a caça deixa de ser sobrevivência para se tornar a diversão de um fidalgo.
3. As botas do Gato
O Gato pede ao filho do moleiro um par de botas e uma sacola – símbolos aristocráticos em uma sociedade onde as roupas significam status social. Calçar um par de botas confere dignidade humana e capacidade de transitar entre esferas sociais, representando a autoridade e o movimento do novo servidor do Estado.
Junto com as botas, o Gato adquire o direito de caçar, que até a Revolução Francesa era um privilégio aristocrático, sendo a caça furtiva punível com o serviço nas galeras.
Assim equipado, o Gato se autodenomina “Mestre Gato”, após ter se apropriado descaradamente do direito de caçar às custas de algumas vítimas inocentes — “um coelho jovem e tolo” seguido por duas perdizes — transforma-se em um cortesão e oferece presentes de lealdade ao poder dominante, confirmando assim o início de sua ascensão social.

“O Gato de Botas”, ilustração de Gustav Doré, 1867.
4. O Ogro
O Ogro ocupa uma posição social elevada e possui inúmeras riquezas, mas é um obstáculo ao sucesso do herói. O Ogro representa o poder feudal arcaico, brutal e descentralizado que precisa ser superado pela astúcia e pela nova ordem jurídica e política. Ele é a antiga nobreza latifundiária, possuidora de uma riqueza feudal imerecida e que a burguesia ascendente (representada pelo gato e seu mestre) suplanta por meio da manipulação das aparências.
O Ogro, porém, é estúpido, vaidoso e cruel, e deve desaparecer diante da modernidade. Seu castelo transferido ao Marquês de Carabás simboliza a transferência da terra da nobreza feudal para uma nova classe social ascendente, a burguesia, capaz de manipular os camponeses e o Rei a seu favor. Uma crítica à nobreza tradicional sugerindo que o status social no século XVII era uma questão de aparências e manipulação, e não de mérito.
5. A investidura real: a construção da imagem
O título nobiliárquico Marquês de Carabás é uma invenção do Gato para criar uma falsa identidade nobre para seu mestre, o filho pobre de um moleiro. É uma nobreza emprestada ou fantasiosa, mas que aos poucos vai se revestindo de outros símbolos do poder: os trajes dados pelo rei, as terras que os camponeses dizem lhe pertencer, o castelo tomado do Ogro e, por fim, o casamento com a princesa que consagra a ascensão social. De aparência em aparência, a nobreza do falso marquês acaba sendo legitimada pelo rei ao oferecer a mão da princesa ao Marquês de Carabás.
Observe que o Rei em nenhum momento questiona a nobreza do Marquês de Carabás. Fica impressionado com a extensão das terras e o esplendor do castelo. A aparência de riqueza e poder eram suficientes para confirmar o status de nobreza, sem a necessidade de verificação minuciosa dos títulos. Ostentar os sinais exteriores de riqueza e nobreza já era um passo rumo às esferas do poder.
Pontos-chave do conto no contexto da Monarquia Nacional
O conto gira em torno da criação de uma burocracia astuta (o Gato) que inventa uma tradição para legitimar o soberano (o Marquês) perante o povo e outros monarcas. Se ele tem o título, as terras e o reconhecimento de outro Rei, ele é o Estado. Observe que o Gato não usa a força física, mas o protocolo, a ferramenta da burocracia e diplomacia.
A narrativa da nobreza construída pelo Gato fornece uma linhagem, ainda que falsa, para o Marquês. As Monarquias Nacionais precisaram “inventar” uma nova legitimidade para superar o caos feudal. Para isso, elas criaram burocracias, símbolos e protocolos rígidos. Assim como o moleiro precisa de roupas finas dadas pelo Rei para parecer um Marquês, os reis absolutistas usavam a etiqueta e a ostentação (como Versalhes, mais tarde) para convencer a todos de que seu poder era absoluto e inquestionável. O poder era teatral.
Ao exigir dos camponeses “digam que as terras pertencem ao Marquês de Carabás”, o Gato unifica territórios, delimita fronteiras e estabelece um reino. Quem está dentro desses limites está sob a jurisdição/domínio do Rei (o Marquês). Na Monarquia Nacional a “identidade” de um povo era definida a quem ele pertencia. O camponês era apenas um súdito de quem estava no trono. Sua identidade não vem debaixo (da cultura, língua, tradições), mas de cima (do contrato dinástico).
A ameaça aos ceifadores – “serão picados como carne de linguiça”, diz o Gato – é uma alegoria da força coercitiva do Rei (o Marquês) que intimida os poderes locais (nobres feudais ou camponeses). O Exército Nacional não era apenas para defesa externa, mas para a pacificação interna e imposição da vontade real sobre os antigos feudos. O Rei detém o monopólio da força sem o qual não conseguiria unificar leis, pesos e medidas.
O clímax do conto ocorre quando o Gato convence o Ogro (o verdadeiro dono do castelo) a se transformar em um rato e o devora. Engolir o rato é acabar com o poder local, tomar seus castelos e estabelecer uma administração centralizada. O castelo do Ogro passa a ser o castelo do Marquês, sob o reconhecimento do Rei. O Rei (Gato/Marquês) não destrói a nobreza pela força bruta de uma vez, mas pela astúcia e centralização.
O novo Estado é construído de cima para baixo, baseado na posse da terra e no reconhecimento mútuo entre monarcas (o Rei reconhece o Marquês, e o Marquês reconhece o Rei). O Gato (que não é nobre, mas um esperto prestador de serviços) representa a nova classe de administradores – a burguesia que financia e organiza a ascensão do Rei em troca de estabilidade. A aliança rei-burguesia é um dos pilares da Monarquia Nacional.
Trabalhando “O Gato de Botas” em aula
A leitura crítica e contextualizada do Gato de Botas permite compreender a formação do Estado Moderno/Monarquia Nacional, tema central no 7º ano e no Ensino Médio. Para isso, preparamos uma atividade e uma dinâmica com o conto em que os alunos aprofundam seu conhecimento e utilizam os conceitos de Estado, legitimação, burocracia e territorialidade. O material traz, também, uma proposta de debate que conecta a farsa do Gato com o mundo de aparências das redes sociais digitais.
Esse material está disponível no site Stud História. Clique no botão abaixo para ser encaminhado.
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