Sete mitos sobre o terrorismo disseminados pela mídia ocidental

19 de junho de 2017

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Quando o terror ataca, a mídia é fundamental para garantir que o público tenha acesso a informações corretas e objetivas. Mas, muitas vezes, o noticiário sobre o terrorismo é desproporcional e sensacionalista persuadindo populações inteiras de que estão em perigo iminente quando o nível de risco pode ser relativamente baixo.

Preocupada com o tom alarmista e os exageros da mídia, a Unesco publicou um manual para os jornalistas que fazem a cobertura desses eventos. O texto “Terrorismo e meios de comunicação: um manual para jornalistas” (Unesco, 2017) baseia-se no Índice de Terrorismo Global (Global Terrorism Index, GTI) de 2015 que abrange 162 países. O GTI busca classificar atividades terroristas no mundo indicando tendências e fornecendo dados para análise de pesquisadores e autoridades governamentais. Os resultados de seus estudos já receberam quatro edições: em 2012 (158 países), 2014 (162 países), 2015 (162 países) e 2016 (163 países).

As análises do GTI, por sua vez, baseiam-se nas informações fornecidas pela Base de Dados de Terrorismo Global (Global Terrorism Database, GTD), da Universidade de Maryland, Estados Unidos, que reúne informações de mais de 150.000 ataques terroristas no mundo coletados desde 1970.

Global Terrorism Database, GTD.

Segundo o GTD, entre 1970 e 2016 ocorreram um total de 157.520 atentados terroristas no mundo. Fonte: Global Terrorism Database, GTD.

A publicação da Unesco, alerta que uma mídia despreparada para noticiar as ações terroristas contribui para disseminar equívocos e estereótipos que reforçam preconceitos, xenofobias e racismo – consequências tão desastrosas quanto os atentados pois podem afetar gerações inteiras. Segundo este manual, os seis principais mitos do terrorismo são:

MITO 1: Os países “ocidentais” são os mais afetados pelo terrorismo.

A cobertura da imprensa tende a favorecer tragédias que ocorrem em locais geográfica ou culturalmente próximos a nós. Portanto, ataques na Europa ou na América do Norte acabam recebendo muito mais destaque no noticiário internacional europeu e norte-americano.

Ao discutir o terrorismo é importante manter uma perspectiva global. Os ataques terroristas ocorrem mais comumente em regiões do Oriente Médio, sul da Ásia, África subsaariana e norte da África. Segundo o GTI, a atividade terrorista está concentrada em apenas cinco países – Iraque, Síria, Afeganistão, Paquistão e Nigéria. Em 2015, juntos eles representaram 57% de todos os ataques e 72% de todas as mortes.

Portanto, a maioria das mortes por terrorismo não ocorre no Ocidente. Excluindo o ataque de 11 de Setembro (Estados Unidos, 2001), apenas 0.5% das mortes por terrorismo ocorreram no Ocidente desde 2000. Incluindo o ataque de 11 de Setembro, a porcentagem atinge 2,6%.

Atividade terrorista no mundo

O mapa abrange a atividade terrorista desde 1970. Mais recentemente, ela se concentrou em apenas cinco países: Iraque, Síria, Afeganistão, Paquistão e Nigéria que, juntos, representaram 57% de todos os ataques e 72% das mortes.

MITO 2: Hoje, a Europa Ocidental é mais afetada pelo terrorismo do que no passado.

Na verdade, o período entre 1970 e o início dos anos 1990 registrou um número maior de mortes e ataques na Europa Ocidental promovidos principalmente pelo terrorismo ligado à extrema direita, à esquerda e aos movimentos separatistas que ocorriam naquela região. Embora tal terrorismo não tenha desaparecido completamente, hoje o “terrorismo de inspiração religiosa” tem atraído maior atenção, particularmente os ataques instigados por organizações islâmicas que geram a mais ampla cobertura de mídia.

Deve-se considerar, também, que os avanços na mídia – tecnologia móvel, mídias sociais, informações em tempo real e canais de notícia 24 horas por dia, sete dias da semana – permitem, hoje, que as pessoas estejam permanentemente expostas a coberturas contínuas, o que aumenta o sentimento de insegurança. Os eventos atuais parecem, então, mais comuns do que de fato são.

Ataque terrorista do Boko Haram numa escola na Nigéria, 2009

Desde 2009, o grupo islamista Boko Haram, da Nigéria, matou 15 mil pessoas. Na foto, crianças mortas pelo grupo em uma escola do nordeste do país, naquele ano. Em 2016, uma efetiva campanha militar conseguiu recuperar vastas áreas do território dos insurgentes.

MITO 3: A maior ameaça terrorista vem dos grupos extremistas islâmicos (“jihadistas”) contra cristãos ocidentais

Especialistas contestam fortemente a referência ao Islã como fonte do terrorista. Durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, em 11 de maio de 2016, o representante do Kuwait explicou, em nome da Organização da Cooperação Islâmica (OIC), que a expressão “grupos terroristas de inspiração religiosa” era errônea, justificando que que “nenhuma religião tolera ou inspira terrorismo “, embora existam” grupos terroristas que exploram as religiões”.

A mídia internacional geralmente enfatiza que esses grupos estão envolvidos em uma guerra contra o Ocidente, o que contradiz o fato que o terrorismo também tem atingido populações muçulmanas. É o caso, por exemplo, do que ocorre no Iraque e na Síria e, também, de forma indireta, nos ataques de 2016 em Bruxelas (22/3) e Nice (14/7) quando, entre as vítimas, havia muitos muçulmanos.

A mídia ocidental pode, inclusive, distorcer os fatos como por ocasião do ataque em Munique em 2016, feito por um jovem alemão de origem iraniana. A menção ao Irã/Islã foi tão insistente que desviou a atenção da causa do crime motivado por uma ideologia de extrema direita enraizada em teorias arianas de certos grupos iranianos. Grupos de extrema-direita, anarquistas e etno-nacionalistas são considerados tão suspeitos quando os extremistas de inspiração religiosa e, por isso, são monitorados pela Europol (Serviço Europeu de Polícia).

Nos Estados Unidos, desde os ataques de 11 de setembro de 2001, as ações violentas perpetradas pela extrema-direita e grupos anti-governo causaram, até 2015, mais mortes do que as atribuídas aos “jihadistas”. Nota-se, porém, um tratamento diferente dado pela mídia aos ataques de extrema direita promovidos por brancos cristãos: eles são, quase sempre, atribuídos a doentes mentais e sem motivação política. Quando Jo Cox, deputado trabalhista britânico foi assassinado em junho de 2016, os jornais The Sun e The Daily Mail enfatizaram que o assassino era um “solitário enlouquecido” ou um “solitário com histórico de doença mental”.

Polícia alemã prende ativistas de uma marcha neonazista.

Polícia alemã prende ativistas de uma marcha neonazista sob a bandeira “Berlim para nós – Alemanha para nós”.

MITO 4: Estamos vivendo sob o risco de um ataque terrorista iminente.

O medo é uma das emoções mais fortes e viscerais que existe, e pode levar pessoas abertas e tolerantes a reagirem de forma contrária adotando atitudes preconceituosas e intolerantes. Esse é um dos objetivos do terrorismo: criar medo e angústia instigando reações irracionais e discriminatórias que desestabilizam a sociedade.

O terrorismo tenta expor o que ele considera a “hipocrisia das democracias” disseminando insegurança ou mesmo pânico e paranoia que levam as pessoas a exigirem medidas autoritárias e xenófobas interferindo, inclusive, no resultados das eleições favorecendo candidatos defensores de uma política ultranacionalista ou populista contra os “inimigos da nação”.

Embora o terrorismo tenha o poder de chocar e amedrontar, o risco real para um cidadão é relativamente pequeno, especialmente se comparado com outros índices. A taxa de mortalidade global por terrorismo, em 2015, foi de 0,39 por 100 mil pessoas. Já os acidentes de trânsito foram responsáveis por 18,2 mortes por 100 mil pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. Em outra comparação, pelo menos 437 mil pessoas foram vítimas de homicídio em 2014, o que é 13 vezes maior que o número de vítimas do terrorismo que, naquele ano, totalizou 32.685.

MITO 5: Refugiados e migrantes recentes são a causa do terrorismo.

Os ataques terroristas têm revelado os preconceitos que reinam nos meios de comunicação e na sociedade em geral que estigmatizam ou mesmo incriminam todo o grupo religioso, étnico, nacional ou político que os terroristas afirmam seguir.

O recente aumento de refugiados para a Europa ocupa um lugar de destaque na retórica anti-imigrante dos partidos de direita em todo o continente. Para a maioria dos europeus existe uma relação direta entre a crise dos refugiados e os ataques terroristas. Contudo, a maioria dos atentados nos últimos anos não foram feitos por recém-chegados mas por pessoas nascidas nos países onde esses casos aconteceram.

Em 2015, Antonio Guterres, ex-secretário-geral das Nações Unidas para os Refugiados, afirmou ser um absurdo absoluto acusar os refugiados pelos ataques terroristas, esclarecendo que “não são os fluxos de refugiados que causam o terrorismo; é o terrorismo, a tirania e a guerra que criam refugiados”.

Um relatório de 2016 do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos informava que “há pouca evidência (…) de que os terroristas aproveitaram os fluxos de refugiados para realizar atentados. Tais percepções não têm base analítica nem estatística e devem mudar”. Ter medo e demonizar os refugiados , culpando-os por atos terroristas pode piorar sua situação já altamente vulnerável.

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Atirador muçulmano, negro, militar e branco

Estereótipos da mídia: conforme a origem do atirador, uma explicação para o ataque. Um atirador muçulmano culpabiliza 1,3 bilhão de muçulmanos; um negro, a violência relaciona-se a gangues urbanas; se militar, é um herói nacional; branco, trata-se de um “lobo solitário” ou um doente mental.

MITO 6: Pessoas em muitas cidades “ocidentais” estão vivendo em zonas de guerra permanentes.

Quando se fala em terrorismo, a palavrra “guerra” está presente em muitos pronunciamentos. Após os ataques de Paris de 14 de novembro de 2015, os comentaristas falavam de “cenas de guerra”, de uma “situação de guerra”, de feridos socorridos em uma “medicina de guerra”. Da mesma forma, o presidente francês François Hollande falou de uma “guerra contra o terrorismo”. Chamar a ação terrorista de “guerra” significa dignificar sua causa e considerar seus executantes como soldados e não como criminosos.

É crucial manter um sentido de perspectiva sobre o significado real das palavras que usamos. Dominique Faget, da Agência France-Presse (AFP), que cobriu vários conflitos pelo mundo, dá a sua definição de guerra:

“Guerra é viver o medo diário da morte, viver com os dias contados, não ter segurança em lugar algum, em hora alguma. É ver as pessoas caindo ao seu redor todos os dias, por causa de balas ou bombas que chovem sobre cidades inteiras. É ter cadáveres abandonados na rua, porque as pessoas têm medo de sair para levá-los. A guerra é quando você não pode contar com a polícia para garantir a segurança. Medicina de guerra é quando você tem que amputar com pressa um membro que em circunstâncias normais seria salvo”.

Para orientar os jornalistas a manterem imparcialidade em seus comentários sem cair na armadilha de propagandas ideológicas e em “batalha de ideias”, Roy Peter Clark, do Poynter Institute for Media Studies, São Petersburgo, Estados Unidos, sugere que palavras ou expressões sejam submetidas às seguintes perguntas:

  1. Qual é o significado literal dessa palavra ou da frase em questão?
  2. Essa palavra ou expressão possui conotações que são positivas ou negativas?
  3. Ela corresponde ao que realmente está acontecendo no momento?
  4. Que grupo (às vezes chamado de “comunidade discursiva”) favorece uma locução ou outra, e por quê?
  5. Essa palavra ou expressão é imparcial? Até onde ela nos afasta de um tom neutro?
  6. Essa palavra ou frase ajuda-me a ver ou entender o fato, ou dificulta, distorce e me impede de compreender o fato?

“Terrorismo” também é uma palavra a considerar: quando um ataque deveria ser classificado como terrorista e quando não deveria?

MITO 7: O Ocidente está perdendo a “guerra” contra o terrorismo.

A mídia ocidental costuma dar um enorme destaque aos atentados: enfatiza a quantidade de mortos e feridos, entrevista testemunhas ainda sob o impacto do atentado, publica comoventes fotos de crianças e jovens vitimadas. A destruição do patrimônio cultural e a decapitação das vítimas também recebem forte atenção da mídia que divulga as imagens e os vídeos disponibilizados pelos terroristas. Esse tipo de jornalismo deixa a sensação de que o Ocidente está perdendo a “guerra” contra o terrorismo.

Por outro lado, campanhas vitoriosas contra o terror não recebem cobertura jornalística equivalente. A conquista de territórios ocupados pelo grupo Boko Haram na Nigéria e a libertação de Palmira sob domínio do Estado Islâmico, por exemplo, tiveram pouca cobertura da mídia internacional.

Já as fotografias e os vídeos mostrando atrocidades coreografadas amplificam o alcance dos terroristas fornecendo a atenção que eles buscam e, portanto, servindo de propaganda aos seus propósitos. Um contraponto seria validar as informações recebidas buscando, por exemplo, imagens de satélites e fontes confiáveis como instituições internacionais credenciadas.

É importante lembrar que o terrorismo avança mais em ambientes de conflito político do que em democracias estáveis. A atividade terrorista está intrinsecamente relacionada com a violência política. Segundo a GTD, 92% dos ataques terroristas entre 1989 e 2014 ocorreram em países de governos tiranos ou ditatoriais e 88% em países que enfrentavam conflitos internos violentos.

A falta de respeito aos direitos humanos, inexistência de liberdade religiosa, instabilidade política, corrupção e instituições frágeis são também fatores propícios para desencadear atividades terroristas.

Os países mais ricos com democracias estáveis não estão totalmente protegidos do terrorismo. Fatores socioeconômicos como desemprego juvenil, insegurança social com escala crescente de homicídios, furtos etc., corrupção e desconfiança nas instituições estão correlacionados com ações conduzidas pelo extremismo de direita, nacionalismo e movimentos radicais antigoverno. Essa forma de terrorismo tem se mostrado mais atuante no Ocidente do que os ataques de grupos islâmicos extremistas.

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Andries Viljoen
Andries Viljoen
3 anos atrás

Terrorismo vai muito além do que uma pessoa matar várias outras. É uma conduta obsessiva, uma crença religiosa, em que se acredita na vida eterna, na gratificação divina. Não se pode acabar com isso de uma ora pra outra, e não quero ser pessimista, mais acho muito dificil isso acontecer em pouco tempo. É uma questão cultural, de devoção e fanatismo, amor e ódio.
Somente uma renovação mundial de costumes e artificios de tolerância entre os povos, pode mudar essa questão que ja ganhou proporções gigantescas.

Joelza Ester
Joelza Ester
3 anos atrás

Li recentemente que há psiquiatras propondo tratar o fanatismo religioso como doença mental.

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