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Como analisar mapas históricos? E o que é “mapa histórico”?

12 de fevereiro de 2026

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O mapa funciona nas aulas de História e Geografia como um elo entre o acontecimento e o espaço, impedindo que a História seja apenas uma sucessão de fatos e datas, e a Geografia apenas uma descrição de paisagens.

Não existe fato histórico no vácuo. O mapa permite ao aluno visualizar onde a História acontece e, mais ainda, perceber que os eventos dependem das características do espaço. Compreender por que a Mesopotâmica foi o “berço da civilização” ou o Egito “é uma dádiva do Nilo” (expressão polêmica, mas ainda presente nos livros) só é possível ao olhar um mapa que mostre a fertilidade entre os rios Tigre e Eufrates e no vale do Nilo em meio a regiões áridas.

A importância do mapa e sua leitura no ensino está expressa na Competência Especifica 7 de Ciências Humanas na BNCC:

  • CE 7 – Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica e diferentes gêneros   textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação no desenvolvimento do raciocínio espaço-temporal relacionado a localização, distância, direção, duração, simultaneidade, sucessão, ritmo e conexão.

Leitura cartográfica e pensamento crítico

É importante lembrar que o mapa – na Geografia e na História – não é um documento neutro. Ensinar com mapas desenvolve o pensamento crítico. O mapa mostra fronteiras que são construções humanas, frequentemente impostas por guerras e tratados, e não barreiras naturais. Quem desenha o mapa define o centro do mundo – discutir o eurocentrismo em mapas-múndi é fundamental para entender a herança colonial.

O uso de mapas estimula o raciocínio espacial e cognitivo. A alfabetização cartográfica (ler legendas, escalas, símbolos etc.) é uma habilidade essencial destacada nas diretrizes da BNCC.

A leitura cartográfica permite cruzar informações como, por exemplo, sobrepor um mapa de relevo a um mapa de ferrovias explica por que certas regiões se desenvolveram mais que outras.

Permite, também, visualizar processos históricos dando materialidade ao que é abstrato. Flechas em um mapa podem representar a trajetória de navios e caravanas, as migrações e o tráfico negreiro, inclusive mensurar a escala desses movimentos.

Mapa historiográfico do comércio escravo com elementos gráficos que facilitam compreender a trajetória dos navios negreiros, a escala de escravizados transportados, as áreas coloniais e a origem dos africanos.

Pontilhados e cores diferenciadas mostram o desmatamento ou recuo de geleiras e da linha costeira. Um mapa da Mesopotâmia antiga mostra Ur como uma cidade portuária, mas hoje suas ruínas estão a 200 km de distância da costa atual do Golfo Pérsico que recuou ao longo dos milênios. Quando Ur foi fundada, o nível da água no Golfo era cerca de 2,5 metros mais alto do que hoje, criando um ambiente de pântanos ao redor da cidade; hoje o lugar está cercado por desertos no sul do Iraque.

Em suma, o mapa permite entender a espacialização do tempo, isto é, a dinâmica de ocupação do planeta ao longo do tempo em diferentes espaços.

Mapa histórico ou mapa historiográfico?

Costumamos chamar de “mapa histórico” aquele que ilustra os livros de História. Mas há diferença entre o mapa de época (fonte primária) e o mapa historiográfico (fonte secundária), e o que os distingue é a intenção e a origem do documento. E a leitura deles é diferente.

Ao ler um mapa do Império Romano (mapa historiográfico) em um livro didático, o aluno deve entender que nenhum romano jamais viu aquele mapa e possivelmente sequer tinha ideia da configuração geográfica do império. Os romanos tinham mapas de estradas, rotas, descrições, mas a visão “de cima” perfeitamente delineada que temos hoje é uma construção moderna para facilitar o aprendizado.

Uma seção da “Tabula Peutingeriana”: mapa romano da vasta rede de estradas do Império Romano (200 mil km de estradas) localizando cidades, mares, rios, florestas e as distâncias em milhas romanas em uma faixa longa e estreita de 6,82 m de comprimento por 34 cm de largura. Roma aparece ao centro; a parte superior é a costa da Dalmácia (atual Croácia); a parte inferior, é o norte da África. O mapa é cópia de um modelo do século IV (cerca de 375 d.C.).

O mapa historiográfico é o mapa produzido hoje ou em tempos recentes para representar um fenômeno do passado como o Império Helenístico, as rotas da Seda ou as frentes de batalha da Segunda Guerra Mundial. Ele é uma ferramenta didática ou científica que utiliza a precisão cartográfica moderna para sobrepor dados históricos a um relevo geográfico correto. Organiza dados complexos com base em dados arqueológicos e documentos históricos de forma visual, clara e precisa.

O mapa histórico é o mapa produzido no passado por cartógrafos que viviam naquele tempo baseado, muitas vezes, em relatos de viajantes. É uma fonte primária que além de mostrar onde situavam-se povos ou reinos, revela a mentalidade, os preconceitos e as limitações de conhecimento de quem o desenhou.

Se um mapa feito por um cartógrafo italiano do século XVI mostra o interior da África preenchido com desenhos de elefantes ou “homens sem cabeça”, ele não apenas está nos informando sobre a fauna africana, mas sobre o desconhecido e o imaginário dos europeus daquela época. A imprecisão ou erros do mapa histórico é uma fonte preciosa de informações do passado: informa sobre o que não se sabia e a visão de mundo que se tinha.

Imago Mundi, um mapa-múndi babilônico gravado em uma tabuinha de argila e datado entre 700 a.C. e 500 a.C. é a mais antiga representação do “mundo” conhecido na época: a planície da Mesopotâmia, o rio Eufrates, as Montanhas Zagros, a cidade da Babilônia, os reinos de Urartur, Assíria e outras regiões e cidades estão aí gravadas e identificadas.

 Ensinando o aluno a ler o mapa histórico

Para transformar um mapa antigo em uma fonte histórica compreensível, o aluno deve seguir cinco passos: observação/identificação, descrição, análise iconográfica, contextualização e análise crítica.

Passo 1: observar e identificar elementos do mapa

A questão norteadora nessa fase inicial é “O que estou vendo? A primeira leitura do mapa histórico é identificar as informações fornecidas por ele:

  • Título: o que o mapa diz representar?
  • Autor e data: quem o desenhou e quando? Isso define o nível de tecnologia e conhecimento geográfico disponível na época.
  • Elementos cartográficos: Rosa dos Ventos (orientação), a escala (proporção) e a legenda (significado dos símbolos).

Passo 2: leitura descritiva do mapa

O aluno deve descrever o espaço representado como se estivesse explicando para alguém que não está vendo o mapa:

  • Limites geográficos: quais continentes, oceanos, países, reinos ou cidades aparecem?
  • Deformações ou omissões: o que está estranho, desproporcional ou não aparece no mapa? Por exemplo, a América do Sul muito larga ou a ausência da Austrália revela os limites do conhecimento da época.
  • Toponímia: observe os nomes dos lugares. Estão em latim? Os nomes são outros hoje?

Passo 3: análise iconográfica do mapa

Mapas antigos raramente são apenas geográficos. Eram, também, veículos de propaganda de reinos ou reis e obras de arte, e por isso é importante observar o que há além do mapa.

Ilustrações como brasões de armas, bandeiras, figura indígenas, monstros marinhos ou castelos têm significados. Brasões e bandeiras indicam quem financiou a expedição ou quem “seria o dono” daquela terra; monstros no oceano sugerem perigo e o desconhecido.

Passo 4: contextualização histórica

Mapas históricos eram artefatos caros que demandavam tempo e dinheiro para serem feitos. A confecção das famosas cartas portulanas, os mapas de navegação dos séculos XVI e XVII, era um processo de fundia ciência náutica, espionagem e arte de luxo.

Os mapas eram feitos a mão, com pergaminho de alta qualidade, com tintas minerais estáveis que podiam incluir pigmentos importados (ouro e lápis-lazúli). Um único exemplar levava 3 a 6 meses para ficar pronto e seu preço era astronômico, sendo comparável hoje ao custo de um software militar de alta tecnologia.

Então, saber por que, para que e para quem o mapa foi feito é relacionar o mapa ao período histórico em que foi confeccionado e qual o seu objetivo. Ele servia para navegação (muitas vezes com informações secretas), para delimitar fronteiras de um tratado (como o de Tordesilhas) ou apenas para mostrar o poder de um rei?

Observar que região está no centro ou no topo do mapa também contextualiza historicamente o mapa histórico. A Europa, por exemplo, geralmente aparece em destaque reforçando a visão eurocêntrica de mundo do cartógrafo.

Passo 5: conclusão e crítica

Ao final, a leitura crítica do mapa possibilita ao aluno perceber que o mapa não deve ser lido como uma verdade absoluta, mas como um testemunho silencioso das complexas camadas da experiência humana sobre a Terra.

O estudante do Fundamental terá condições de refletir sobre três questões básicas:

  • O mapa é uma representação fiel da realidade ou uma ferramenta política?
  • Como este documento ajudou as pessoas daquela época a entenderem o mundo?
  • Essa visão de mundo ainda influencia nossa percepção geográfica?

Com os alunos do Ensino Médio pode-se aprofundar a reflexão discutindo, por exemplo:

  •  A questão da neutralidade: Se todo mapa é uma construção humana e nenhum deles é totalmente neutro, de que forma o mapa que você utiliza hoje na escola ou no trabalho pode estar moldando a sua visão sobre quais países ou regiões são “mais importantes” que outros?
  •  O valor do erro: As deformações geográficas ou figuras fantásticas (como monstros marinhos) do mapa antigo devem ser consideradas como “erros” ou elas expressam as crenças e o estágio de conhecimento da sociedade que o criou?
  •  O futuro da cartografia: Com o advento do GPS e dos mapas digitais em tempo real, o que a nossa geração está perdendo ao deixar de produzir mapas artísticos e manuscritos que revelam a nossa subjetividade e os nossos medos atuais?

As respostas a essas perguntas não buscam um “certo ou errado”, mas sim o desenvolvimento do raciocínio crítico.

Conclusão

Analisar um mapa histórico é muito mais do que localizar coordenadas; é realizar uma forma de arqueologia visual. Ao percorrer as linhas de um planisfério do século XVI ou as fronteiras de um mapa didático contemporâneo, o estudante não está apenas observando a geografia, mas decifrando as intenções, os medos e as ambições de quem o produziu.

Enquanto o mapa antigo nos serve como uma janela para a subjetividade do passado — revelando o que era desconhecido, o que era sagrado e o que era segredo de Estado —, o mapa moderno nos oferece a síntese científica necessária para compreender grandes processos temporais. Ambos, no entanto, compartilham uma característica fundamental: nenhum mapa é neutro. Cada traço é uma escolha política e cultural que molda nossa percepção do mundo.

Em última análise, o domínio da leitura cartográfica capacita o aluno a ser um observador crítico da realidade. Compreender como o espaço foi desenhado no passado é o primeiro passo para entender como ele é disputado no presente.

Por fim, refletindo sobre a última reflexão proposta aos estudantes do Ensino Médio, hoje o GPS é funcional e focado no “eu” (o ponto azul no centro), isto é, na posição do indivíduo no mundo, enquanto os mapas antigos mostravam o mundo e convidavam o leitor a percorrê-lo e a surpreender-se perante o conhecido e o desconhecido. Perdemos a arte da iconografia e a visão de conjunto, ganhando precisão, mas sacrificando a capacidade de registrar nossas aspirações e imaginação espacial em um suporte físico duradouro.

Trabalhando o mapa histórico com os alunos

Elaboramos um roteiro completo, com respostas para o professor, de leitura crítica de um mapa histórico famoso: o Planisfério de Cantino, de 1502. A atividade foi elaborada em dois níveis escolares: para o 7º ano do Fundamental e para o Ensino Médio.

O recurso leva o aluno a explorar todas as etapas da análise crítica e ao final propõe um fórum de debate que explora a intencionalidade desse documento e as tensões geopolíticas da época.

Planisfério de Cantino, de 1502 – o mapa-múndi secreto de Portugal que caiu nas mãos dos italianos e revelou as terras descobertas e o caminho para as Índias.

Para acessar esse recurso didático, clique abaixo e você será encaminhado ao site Stud História.

ACESSAR

Fonte

  • MENEZES, Paulo Márcio Leal de; FERNANDES, Manoel do Couto. Roteiro de cartografia. São Paulo: Oficina de Textos, 2013.
  • JACOB, Christian. L’Empire des cartes: approche theórique de la cartographie à travers l’ histoire. Paris: Albin Michel, 1992.
  • WOOD, Denis; FELS, John. The Power of Maps. Guilford Press, 1992.
  • JOLY, Fernand. A Cartografia. Campinas: Papirus, 2004.
  • NOGUEIRA, Magali Gomes; BIASI, Mario de. Fontes e técnicas de cartografia medieval portulano. Terra Brasilis, 2015.
  • DOMINGUES, Joelza Ester. Imago Mundi: decifrado o mapa do mundo mais antigo conhecido. Ensinar História, 2024.

Recursos didáticos com mapas

 

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