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Atentado a bomba no Riocentro, Rio de Janeiro

30 de abril de 1981

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Na noite do dia 30 de abril de 1981, véspera de feriado, realizava-se um show de música no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, com público de 9.892 pessoas que passaram na catraca (os jornais falavam em 20 mil pessoas). De repente, do lado de fora, no estacionamento, uma bomba explodiu em um carro onde estavam os dois militares, matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que a trazia no colo, e ferindo gravemente o capitão paraquedista Wilson Dias Machado. 

Uma segunda explosão ocorreu 30 minutos depois a alguns quilômetros de distância, na casa de força responsável pelo fornecimento de energia do Riocentro. A bomba foi jogada por cima do muro, mas explodiu no pátio e a eletricidade não chegou a ser interrompida.

Corpo do sargento Guilherme do Rosário, que morreu após uma bomba explodir no veículo em que ele estava, no estacionamento do Riocentro, em 30 de abril de 1981.

  • BNCC: 9º ano – Habilidades: EF09HI19, EF09HI20, EF09HI22

O atentado do Riocentro: versão oficial

O atentado foi imediatamente noticiado pela imprensa e telejornais. A repórter Leila Cordeiro, do Jornal Nacional, da rede Globo, pediu explicações ao  general Waldyr Muniz, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Ele foi taxativo: os comunistas eram culpados pelo atentado do Riocentro. A imprensa não podia apresentar outras versões. Desde 1968, as redações dos jornais e noticiários da TV estavam ocupadas pelos militares que impunham a censura prévia às notícias.

Dois meses depois, em 30 de junho, o coronel Job Lorena de Santana, responsável pela condução do Inquérito Policial Militar (IPM) que apurava o caso, apresentou o resultado de suas investigações. A sessão foi aberta para a imprensa, mas os jornalistas estavam proibidos de fazer perguntas. Só deviam ouvir o relatório e divulgar o relatório oficial.

O IPM concluiu que os dois militares estavam no local em missão de informações e que tinham sido vítimas de uma armadilha, com uma bomba colocada entre a porta e o banco direito do automóvel. O inquérito não negava que o crime era de competência militar, mas dizia que não era possível identificar sua autoria, uma vez que havia “vários grupos radicais – de esquerda e direita – interessados em provocar o descrédito dos órgãos de informações.” Segundo o IPM, as bombas teriam sido obra de “terroristas de esquerda ou de um grupo de direita chamado Comando Delta”.

Essa foi a versão autorizada a ser exibida na imprensa e na TV, como o Jornal das Sete e o Jornal Nacional, da Globo, os telejornais de maior audiência do país.

No dia 2 de outubro de 1981, o Superior Tribunal Militar, por maioria de votos, 9 a 4, decidiu pelo arquivamento do inquérito, sem que fossem apontados os autores da ação. O episódio acabou levando o chefe do Gabinete Civil, Golbery de Couto e Silva – tido como o principal estrategista político do governo e defensor do processo de abertura política – a pedir demissão.

Informações paralelas contradizem a versão oficial

Apurou-se depois, que o planejamento do atentado envolveu muitas pessoas, civis e militares, e abrangeram diversos preparativos. Entre eles, a suspensão do policiamento pouco antes do espetáculo e o afastamento da equipe de segurança do local. Só autoridades militares poderiam dar essa ordem.

Placas de trânsito no trajeto que levava ao Riocentro e painéis de propaganda foram pichados com a sigla VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), um grupo de luta armada de extrema-esquerda, atuante entre 1966 a 1971. Dentre seus integrantes, destacaram-se Carlos Lamarca e Dilma Rousseff. O grupo, porém estava extinto há dez anos, quando optou pela auto-dissolução após a morte de seu comandante, José Raimundo da Costa, em 1971. Portanto, as pichações com a sigla VPR tinham a clara intenção de responsabilizar os “comunistas”.

Quando começou o espetáculo, na noite do dia 30 de abril, apenas cinco dos 28 portões estavam abertos. Os outros teriam sido trancados, o que impediria uma saída rápida dos espectadores em caso de emergência, provocada, por exemplo, por um corte de luz.

Felizmente a segunda explosão não chamou muita atenção e o show não foi interrompido. Caso as bombas cortassem a força no Riocentro, o pânico dos milhares de espectadores, com a escuridão, o barulho das explosões e os portões fechados, poderia ter provocado uma tragédia.

Investigações posteriores

Só depois do fim da ditadura, o atentado do Riocentro pode ser investigado. Foram ouvidas testemunhas ignoradas pelo inquérito oficial, como os agentes de segurança do Riocentro. As bombas foram levadas num carro esportivo civil Puma GTE para serem plantadas no local. Os dois militares que as transportavam eram integrantes do DOI-Codi ( Departamento de Operações Internas – Centro de Operações para a Defesa Interna  do I Exército do Rio de Janeiro. Dentro do carro tinham, ainda, duas granadas que o exército afirmou serem extintores de incêndio. A bomba explodiu antes do previsto, matando o sargento e estripando o capitão, as únicas vítimas do atentado fracassado que poderia ter matado centenas de pessoas.

Em novas investigações realizadas em 2014, o ex-delegado de polícia Cláudio Guerra, informou ao Ministério Público que havia a intenção de lançar uma bomba no palco para matar os artistas e causar maior comoção.

O atentado – na época atribuído à esquerda – partira, na realidade, dos próprios militares, isto é, da ala radical que não aceitava a abertura democrática que vinha sendo feita pelo governo do presidente João Baptista Figueiredo.

O radicalismo de direita pretendia causar pânico e mortes, lançando a culpa nas organizações de esquerda e, com isso, convencer a ala moderada dos militares que o país ainda estava sob “ameaça do comunismo”. A direita radical fabricava inimigos para justificar a necessidade de se manter a a ditadura e seu aparato repressivo.

1980: o ano explosivo

Havia precedentes do atentado do Riocentro: desde o ano anterior a ala radical das Forças Armadas vinha tentando tumultuar a abertura política com atentados que ela atribuía a grupos de esquerda. Entre janeiro de 1980 e abril de 1981, foram 74 atentados com bombas, boa parte deles contra bancas de jornal que vendiam publicações consideradas subversivas.

Em 27 de agosto de 1980, uma carta bomba enviada à sede da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), no Rio de Janeiro, matou a secretária Lyda Monteiro da Silva.

Naquele mesmo dia, três outras bombas foram ativadas no Rio. Uma delas, na Câmara Municipal, explodiu e tinha como alvo o vereador Antônio Carlos de Carvalho, ligado à esquerda. O general Waldyr Muniz, na época chefe do SNI carioca, ao saber explosão na Câmara Municipal foi informado por um tal coronel Campos (pode ser cognome), da Aeronáutica, que “o homem está todo ensanguentado no banheiro”. Ao que o general Waldir Muniz, preocupado, respondeu: “Então precisamos tirar ele de lá”. O diálogo demonstra que a pessoa “ensanguentada” fora a autora do atentado e tinha ligações funcionais com aqueles militares.

O general Waldyr Muniz foi em seguida nomeado secretário da Segurança Pública do Estado do Rio, posto que ocupava quando ocorreu o atentado do Riocentro.

Desdobramentos

Logo após o fracasso do atentado, a linha dura do Exército e o SNI (Serviço Nacional de Informação) iniciou um esforço conjunto para encobrir o caso. Continuou mantendo a versão de que os militares no carro estavam no local a serviço e que foram vítimas de bombas colocadas por grupos terroristas.

O atentado do Riocentro, contudo, causou estragos no interior do governo.O ministro-chefe do Gabinete Civil, o general Golbery do Couto e Silva, idealizador do processo de abertura política, pediu exoneração cerca de três meses após o atentado. Defensor de uma apuração rigorosa, percebeu que o governo caminhava em direção oposta. Deixou o cargo e rompeu com o presidente que nunca mais avistaria pessoalmente.

O presidente Figueiredo que, em público, dizia que “prenderia e arrebentaria” quem se opusesse à abertura, recolheu-se timidamente e nada fez para esclarecer o atentado. Desde então, não conseguiu reaver a autoridade moral que o cargo lhe conferia. As pressões que certamente sofreu custaram-lhe a saúde: em 19 de setembro de 1981 sofreu um infarto que o afastou temporariamente da Presidência, assumindo o comando do país o vice presidente, o civil Aureliano Chaves.

As investigações sobre o atentado do Riocentro foram reabertas em 1999 e novamente arquivadas em 2000 sem apontar culpados.

Comissão Estadual da Verdade

Em 2013, a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, braço da Comissão Nacional da Verdade (CNV) retomou as investigações sobre o caso Riocentro. Em fevereiro de 2014, uma nova confissão levou o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro a denunciar à Justiça seis pessoas por envolvimento no caso, por crimes de tentativa de homicídio e associação criminosa armada. Foram denunciados:

  • Nilton Cerqueira, general reformado, era comandante da Polícia Militar do Rio, na época, e foi quem deu a ordem de suspender o policiamento do show;
  • Edson Sá Rocha, general reformado, chefe de seção do Destacamento de Operações de Informações (DOI) e quem teve a ideia de explodir o Riocentro;
  • Cláudio Antônio Guerra, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), estava incumbido de efetuar as prisões de indivíduos que seriam falsamente relacionados às bombas;
  • Divany Barros, major reformado, que foi enviado por seus superiores ao local para apagar provas que incriminassem os militares envolvidos na operação;
  • Wilson Luiz Chaves Machado, era capitão na época e dono do carro onde a bomba explodiu;
  • Newton Cruz, general reformado, chefiava a Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI), sabia do atentado e tinha autoridade para ordenar sua interrupção.

Newton Cruz denunciado pelo Ministério Público Federal

Em 1999, o general Newton Cruz admitiu à Comissão de Direitos Humanos da Câmara que havia sido avisado, com duas horas de antecedência, de que militares saíram do DOI-Codi carioca para detonar uma bomba no Riocentro, onde ocorria um show pelo Dia do Trabalho. Agentes do governo lhe informaram que seria apenas “um protesto” no estacionamento do Riocentro, e que tinham planejado colocar “uma bombinha vagabunda”, sem a intenção de “matar”. A ação seria apenas para “marcar presença“.

Newton Cruz afirmou também,  que, estando em Brasília, não tinha como impedir explosões à distância e que não tomou nenhuma atitude por entender que a explosão ocorreria na casa de força do Riocentro, sem machucar ninguém.

Em 2014, Newton Cruz foi denunciado pelo MPF pela suposta prática de quatro crimes: tentativa de homicídio doloso, associação criminosa armada, transporte de explosivos e favorecimento pessoal. O MPF acusou o general de coautor do atentado por não ter tomado atitudes para evitá-lo e pediu que ele fosse condenado a 36 anos e seis meses de prisão.

Newton Cruz, contudo, dizia que não poderia ser acusado pois estava protegido pela Lei de Anistia que perdoou os crimes da ditadura. Em julho de 2014, ele recebeu habeas corpus emitido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, por este ter considerado que o crime já estaria prescrito. Os procuradores do caso, entretanto, afirmam que a Lei de Anistia não se aplica ao caso Riocentro, já que foi promulgada em 1979, dois anos antes do atentado. Além disso, argumentam que o episódio foi um crime de lesa-humanidade, que não prescreve, segundo normas do direito internacional.

Situação do processo hoje

Em 2019, o MPF enviou recurso ao STF para reabrir o processo criminal sobre o atentado do Riocentro, qualificando-o como crime contra a humanidade. O STF analisou e descartou o recurso. Por por 5 votos a 2, a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça rejeitou o recurso.

Desde então, o processo do atentado do Riocentro permanece paralisado. Dos seis denunciados, três já faleceram: Edson Sá Rocha, em 25 de março de 2020, Nilton Cerqueira, em 1 de janeiro de 2022, Newton Cruz, em 15 de abril de 2022.

Cláudio Antônio Guerra, o delegado do DOPS que queimava corpos em uma usina de açúcar desativada em Campos e Goytacazes, no Rio de Janeiro, é hoje pastor da Assembleia de Deus, em Vila Velha, Espírito Santo. Prefere ser chamado de Pastor Cláudio. Cumpre prisão domiciliar condenado pela morte de sua esposa e cunhada, ambas encontradas em um lixão em 1980. Nunca negou nenhum de seus crimes, e afirma ter matado pelo menos vinte pessoas (Memorial da Resistência).

Fonte

  • RIBEIRO, Belisa. Bomba no Riocentro. O fim de uma farsa. Rio de Janeiro: Codecri, 1982.
  • GRAEL Dickson. Aventura, corrupção e terrorismo: a sombra da impunidade. Rio de Janeiro: Vozes, 1985.
  • BIERRENBACH, Júlio de Sá. Riocentro: quais os responsáveis pela impunidade. Domínio Público, 1996.
  • ARGOLO, José; RIBEIRO, Kátia; FORTUNATO, Luiz Alberto. A direita explosiva no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1996.
  • Memorial da Resistência de São Paulo.

 

 

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