O Inti Raymi, ou Festa do Sol, é uma celebração religiosa de origem inca e pré-inca em homenagem a Inti, o deus Sol. A palavra pertence ao idioma quéchua (ou quíchua), língua indígena falada hoje por cerca de 10 milhões de pessoas em diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru — territórios que compunham o antigo Império Inca (Tahuantinsuyo) no século XV.
Durante o apogeu do império, o Inti Raymi era o mais importante dos quatro festivais anuais celebrados em Cusco, a capital imperial. A cerimônia ocorria no dia 21 de junho, solstício de inverno no hemisfério Sul, marcando o início de um novo ano agrícola. Era o momento de agradecer pelas colheitas e pedir para que o Sol retornasse, garantindo o calor e a vida.
Em contrapartida, no solstício de verão (21 de dezembro), ocorria o Cápac Inti Raymi (Festa do Grande Sol). Esse segundo festival marcava o momento em que as sementes plantadas começavam a amadurecer, celebrando a máxima fertilidade da terra sob a intensidade do sol estival.

O Inca em uma liteira dourada é levado à esplanada de Sacsayhuamán onde é realizado o Inti Raymi nos dias de hoje.
O Inti Raymi na época dos Incas
A Festa do Sol foi instituída pelo Inca Pachacuti na década de 1430 como parte da reorganização política e administrativa do império. A celebração original durava nove dias, período repleto de danças, rituais e sacrifícios.
O evento central acontecia na Praça Huacaypata (atual Plaza de Armas de Cusco) e reunia cerca de cem mil pessoas. O festival carregava enorme importância por marcar o início do ano novo e legitimar as origens místicas do povo inca. Curacas (líderes políticos locais) de todas as províncias e representantes dos povos conquistados compareciam para reafirmar sua lealdade ao imperador. Dessa forma, o Inti Raymi exercia um papel político crucial na coesão do Estado.
Durante a preparação para a cerimônia eram realizados rituais de purificação com banhos e jejuns quando eram consumidos apenas milho branco e água.
Na alvorada do dia principal, o soberano e seus parentes esperavam descalços pelo nascer do sol. Agachados e com os braços abertos, saudavam a divindade. Neste momento, o Willaq Uma, o sumo sacerdote do Sol, captava os primeiros raios solares por meio de um disco côncavo de ouro conhecido como chipana. A cerimônia do Fogo Novo simbolizava a renovação da vida, da energia cósmica e do ciclo agrícola.
Em seguida, o Inca erguia duas grandes taças de ouro e prata, chamadas aquilas, cheias de chicha (bebida fermentada de milho), oferecendo-as ao deus. Parte da bebida era derramada em um canal conectado ao Qoricancha (Coricancha), o Templo do Sol em Cusco. A segunda aquilla era compartilhada com membros da nobreza e autoridades do império, reforçando assim os laços políticos e religiosos entre o Inca e a elite do Tahuantinsuyo.
O ritual culminava no sacrifício de animais, cuja carne era distribuída a todos os presentes junto a fartas porções de chicha.
O último Wawa Inti Raymi com a presença oficial de um imperador inca ocorreu em 21 de junho de 1535. Em 1572, o vice-rei espanhol Francisco Álvarez de Toledo proibiu o festival por considerá-lo uma cerimônia pagã contrária à fé católica. Apesar da censura, a celebração resistiu na clandestinidade nas aldeias andinas mais isoladas.

Nas ruínas do Coricancha, o Templo do Sol do Império Inca, os colonizadores ergueram a Igreja de Santo Domingo. A parede mais escura pertence à construção original. Hoje, o local é um dos pontos importantes do Inti Raymi de Cusco, no Peru.
A fusão com a festa de São João
Para manter os cultos solares vivos sem enfrentar a repressão colonial, as populações andinas adotaram um estratagema: transferiram sutilmente suas comemorações para o dia 24 de junho, data em que a Igreja Católica celebra a natividade de São João Batista. O santo serviu como um “escudo” cultural por meio de quatro pontos fundamentais de sincretismo:
1. A Fogueira de São João e o Fogo Novo
As tradicionais fogueiras europeias de São João serviram de camuflagem perfeita para o ritual do Fogo Novo. As comunidades indígenas continuaram a acender grandes piras na noite de 23 para 24 de junho, mantendo a intenção ancestral de fornecer calor e energia ao Sol em seu dia mais fraco, estimulando o seu renascimento.

Cerimônia do Fogo Novo durante o Inti Raymi contemporâneo.
2. O batismo cristão e o banho de purificação
Na véspera do Inti Raymi, os incas realizavam o Armay Chishi, um banho ritual de purificação à meia-noite. Essa prática foi facilmente associada ao batismo de Jesus realizado por São João nas águas do Rio Jordão. Até hoje, no norte do Equador e em várias regiões do Peru, milhares de camponeses vão a rios e cachoeiras sagradas na madrugada de São João para purificar a alma, conectando-se secretamente com as divindades da água e da terra.

Banho ritual (Armay Chisi), para purificar e limpar espiritualmente, eliminar energias negativas e renovar a conexão com a Pachamama, a “mãe-terra”.
3. O Banquete da colheita e os “Juanes”
Junho marca o fim da colheita do milho nos Andes, período festejado com banquetes comunitários. Na Amazônia peruana e nas bordas andinas, a transição gerou o Juane, prato feito de arroz, galinha e ovos cozidos envoltos em folhas de caeté. Embora o formato redondo do prato faça alusão à cabeça degolada de São João Batista na tradição católica, para os nativos, a geometria esférica e o tom amarelado do alimento evocavam diretamente a imagem do deus Inti.

O Inti Raymi celebra a colheita e a abundância e faz parte das festividades a Pampamesa que significa “comida para todos”, um farto piquenique comunitário.
4. A Dança dos Guerreiros e os mascarados
As autoridades espanholas exigiam que os indígenas dançassem em honra ao santo católico durante as procissões. O povo andino aceitou a imposição, mas introduziu máscaras e personagens carregados de simbolismo pré-hispânico. O caso mais emblemático é o do Aya Uma (chamado de Diablo Uma pelos colonizadores). Trata-se de um personagem com uma máscara de duas faces (que representa a dualidade do dia e da noite) e doze pontas na cabeça (os raios de sol e os meses do ano). Ele dança batendo os pés com força no chão para despertar a Mãe Terra (Pachamama), usando o folclore cristão como disfarce.

Populares com máscaras e figurinos tradicionais dançam durante o Inti Raymi em Quito, Equador.
O retorno do Inti Raymi contemporâneo
Em 1944, por iniciativa do intelectual cuzquenho Humberto Vidal Unda e do artista Faustino Espinoza Navarro, a cerimônia do Inti Raymi foi oficialmente reinstaurada em Cusco. A primeira reconstituição histórica moderna ocorreu na esplanada da fortaleza de Sacsayhuamán no dia 24 de junho daquele ano.
Desde então, o festival deixou de ser um culto clandestino para se transformar no maior evento de identidade cultural e no principal motor turístico do Peru. Atualmente, a encenação monumental atrai entre 100.000 e 150.000 espectadores à cidade de Cusco ao longo de suas festividades. Destes, mais de 45.000 são turistas nacionais e internacionais que viajam exclusivamente para presenciar a ressurreição da Festa do Sol, consolidando o Inti Raymi como a segunda maior festividade de toda a América do Sul.

População local e turistas aguardam o início do Inti Raymi na esplanada de Sacsayhuamán, em Cusco, Peru.
Fonte primárias sobre os incas
- VEGA, Inca Garcilaso de la. Comentarios Reales de los Incas (1609).
Na Parte I, Livro VI, Garcilaso fornece a descrição mais detalhada e célebre do Inti Raymi clássico, narrando o jejum de três dias dos nobres, a postura ritual de saudação ao Sol na praça de Cusco e o uso das aquilas (taças de ouro) pelo imperador.
- MOLINA, Cristóbal de (El Cuzqueño). Relación de las fábulas y ritos de los Incas (1573).
Molina, um padre espanhol que viveu em Cusco, documentou detalhadamente o calendário litúrgico inca e os rituais de sacrifício, sendo uma das fontes mais precisas sobre as orações feitas ao deus Inti para que este não abandonasse a Terra durante o solstício de inverno.
- GUAMÁN POMA DE AYALA, Felipe. El primer nueva corónica y buen gobierno (escrito por volta de 1615).
Esta monumental crônica ilustrada detalha o calendário agrícola andino e descreve como as festividades indígenas continuaram a operar de forma camuflada sob o domínio colonial espanhol, fornecendo pistas fundamentais sobre as primeiras dinâmicas de sincretismo religioso.
Bibliografia
- MURRA, John Victor. A Organização Econômica do Estado Inca. Tradução de Jesus Guinsburg. Siglo Veintiuno, 1999.
- PEASE, Franklin. Los Incas: una aproximación a la historia andina. 4. ed. Lima: Pontificia Universidad Católica del Perú, 2007.
- ROSTWOROWSKI, María. Historia del Tahuantinsuyu. 2. ed. Lima: Instituto de Estudios Peruanos (IEP), 1999.





