O pau-brasil, caesalpinia brasiliensis ou echinata, segundo a taxionomia botânica atual, ou simplesmente ibirapitanga, em tupi, teve importância extraordinária na história do Brasil. Seu comércio foi a principal atividade econômica dos portugueses na América até cerca de 1530, mas sua exploração continuou ativa durante todo o período colonial, figurando com destaque nas exportações brasileiras ainda na segunda metade do século XIX.
1. O pau-brasil antes do Brasil
Desde a Idade Média, o pau-brasil era conhecido na Europa, sob outra variedade originária da Sumatra, no Oriente, em malaio, de sapang (do sânscrito patanga ou “vermelho”). Era usado para tingir sedas e linhos usados pelos nobres do Oriente. Como tintura sua cor variava do marrom ao castanho-claro e, conforme a diluição e as misturas, podia resultar em tons de rosa, castanho e púrpura.
Na Europa, os maiores consumidores do pau-de-tinta eram a França, onde era chamada de brezil, e a Itália que a denominava bracire ou brazili. Com o nome de brasil, a árvore já era conhecida em Portugal e Espanha por volta de 1220.

Tintureiros tingindo tecidos com pigmento extraído do pau-brasil. Iluminura francesa, séc. XVI
Cristóvão Colombo foi o primeiro a ver árvores de pau-brasil crescendo em meio às florestas do Caribe, e registrou sua existência na carta que enviou aos Reis Católicos, em 1495. Em sua terceira viagem à América, em 1498, Colombo recolheu 20 quintais (pouco mais de uma tonelada) da madeira nas matas do golfo de Pária, na Venezuela, e os levou para Sevilha.
Em janeiro de 1500, o espanhol Vicente Pinzón carregou seus navios com 350 quintais (ou 21 toneladas) de pau-brasil, recolhidos nas praias do nordeste do Brasil, ou talvez na região de Pária, levando-os à Espanha.
2. A exploração do pau-brasil na América portuguesa
O pau-brasil crescia em meio à Mata Atlântica, entre o Rio Grande do Norte e o Rio de Janeiro, concentrando-se nas costas que hoje correspondem ao Rio de Janeiro, sul da Bahia e Pernambuco.
A própria expedição de Cabral parece ter embarcado alguma quantidade de toras de pau-brasil e quase todas as expedições de reconhecimento ou guarda-costas enviaram toneladas de pau-brasil para Portugal que seguiam daí para Amsterdam, onde o pó da madeira raspada era transformado em corante.
Em 1501, a exploração de pau-brasil foi arrendada ao mercador Fernando de Noronha ou Loronha que, em 1504, foi agraciado com a donataria no arquipélago que traz hoje o seu nome. O contrato de arrendamento foi renovado até 1511, depois transferido a Jorge Lopes Bixorda. De 1513 em diante, permitiu-se a livre exploração mediante o pagamento do quinto (20%) ao rei.
A exploração do pau-brasil foi feita num ritmo tão feroz que só no primeiro século de exploração, cerca de 2 milhões de árvores foram derrubadas – uma espantosa média de 20 mil por ano ou quase 50 por dia. Cada navio podia levar cerca de 5 mil toras por viagem. Não é de se estranhar, portanto, que já em 1558, as melhores árvores só pudessem ser encontradas a mais de 20 km da costa.
3. Feitorias, “brasileiros” e regimentos
O negócio do pau-brasil estimulou a fundação de feitorias em toda a costa brasílica. As feitorias eram simples galpões de madeira, cercado por uma paliçada de toras pontiagudas, tendo por mobília apenas arcas e caixotes e onde, ao longo do ano, ficavam apenas três ou quatro homens. Eles eram chamados de brasileiros. O nome dado a esses traficantes ou coletores de pau-brasil acabaria se estendendo a todos os nascidos no futuro país.
Em 1519, havia três feitorias no Brasil: em Cabo Frio, Rio de Janeiro e Pernambuco. Provavelmente havia uma quarta, na baía de Todos os Santos. A exploração do pau-brasil e a disciplina dos “brasileiros” eram reguladas por normas rígidas estabelecidas pela Coroa lusitana. O primeiro desses regulamentos parece datar de 1511. Trata-se do famoso Livro da viagem e regimento da nau Bretoa, descoberto por Adolfo Varnhagen na Torre do Tombo, em Lisboa, em 1844.
A Bretoa pertencia a um consórcio de mercadores formado por Fernando de Noronha, pelo banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni, Benedeto Moreli e Francisco Martins. A tripulação do navio era constituída por 36 homens. De acordo com o regimento real, a missão da Bretoa era “obter a maior carga de pau-brasil de boa qualidade, com a menor despesa possível”.
A nau partiu de Lisboa em fevereiro de 1511 e aportou em abril na baia de Todos os Santos onde permaneceu por 27 dias. Depois rumou para Cabo Frio onde se erguia a mais antiga feitoria do Brasil, fundada por Américo Vespúcio sete anos antes. Em agosto, a Bretoa zarpou do Brasil levando 5.008 toras de pau-brasil pesando cerca de 100 toneladas, além de mais de 60 animais entre eles 15 papagaios, 12 felinos e 6 macacos.
O regimento da nau Bretoa incluía uma vasta lista de proibições impostas aos marujos como a proibição de ultrapassar os limites da feitoria, de adentrar a terra firme, de falar ou negociar com os índios, de pernoitar fora da nau, de praguejar etc. As normas rígidas e as punições severas aos infratores não conseguiram evitar o roubo de machados e machadinhas por tripulantes que foram usados para trocar por aves, penas e macacos com os índios.
4. Piratas e corsários franceses
Piratas e corsários agiam da mesma maneira: abordavam e pilhavam navios, praticavam violências contra tripulações, atacavam áreas costeiras saqueando e fazendo vítimas. Diferenciavam-se, porém, quanto à sua organização e mando. A pirataria era uma iniciativa autônoma, impulsionada por interesses materiais, sem qualquer consideração ética ou religiosa. O corsário, por sua vez, atuava dentro de uma certa “legalidade” munido de uma “carta de corso” concedida por reis e príncipes autorizando o ataque a áreas inimigas.
As descobertas marítimas impulsionaram a pirataria do Mediterrâneo para o Atlântico. As costas do Brasil estavam muito mais próximas dos portos europeus do que a Índia ou Sumatra. Os franceses foram os primeiros a investirem conta o litoral do Brasil.

O painel “L’Isle du Brésil”, entalhado em madeira de pau-brasil, no século XVI, mostra índios brasileiros derrubando as árvores e levando as toras nos ombros. O painel decorava a parede de uma estalagem em Rouen, na Normandia, França. Tem 2 m de comprimento, 50 cm de largura e 6 cm de espessura. Museu Marítimo de Rouen, França.
Em junho de 1503, Paulmier de Gonneville armou um navio de 120 toneladas, o L’Espoir, para saquear especiarias no mercado indiano. Impossibilitado de manter o rumo, arribou às costas do Brasil. Foi a primeira visita francesa ao Brasil, seguida de muitas outras.
O L’Espoir aportou no litoral norte de Santa Catarina onde permaneceu seis meses ancorado. Foi, contudo, na baía de Todos os Santos que ele abasteceu o navio com uma preciosa carga de pau-brasil. Ao retornar à Europa, o navio foi atacado primeiro por um pirata inglês e depois por um pirata bretão. Em maio de 1505, os poucos sobreviventes do L’Espoir chegaram a pé em Honfleur sem navio e sem carga.
Embora a viagem de Paulmier de Gonneville tenha sido um fracasso comercial, ela alertou definitivamente os franceses para a existência do Brasil. O rei francês Francisco I, contestando o Tratado de Tordesilhas que dividia a mundo entre Portugal e a Espanha, autorizou corsários a atacarem as terras lusas no Oriente e na América.
Em maio de 1527, corsários franceses chegaram a Pernambuco dispostos a carregar os navios com pau-brasil. Foram interceptados pela expedição guarda-costa de Cristóvão Jacques. O combate que se travou foi violento com dezenas de mortos e tamanha a crueldade com os prisioneiros que o rei de português destituiu Cristóvão Jacques e exigiu seu regresso imediato.

Outro painel da série “L’Isle du Brésil”. Originalmente, ele decorava uma estalagem em Rouen. Madeira de pau-brasil entalhada, século XVI. Museu Marítimo de Rouen, França.
Mas os ataques de piratas e corsários continuaram. Em setembro de 1531, os portugueses capturaram próximo ao estreito de Gibraltar, no Mediterrâneo, a nau La Pelèrine que retornava do Brasil com o porão cheio de pau-brasil: 15 mil toras (300 toneladas), 3 mil peles de onça, 600 papagaios, 1,8 toneladas de algodão, além de óleos medicinais, pimenta, semente de algodão.
5. Alianças, reciprocidade e protagonismo indígena nas trocas
O papel dos índios foi fundamental no processo de exploração do pau-brasil, pois eram eles que detinham o conhecimento da floresta, derrubavam as árvores, cortavam os troncos e os transportavam até as feitorias e navios. Tratava-se de um trabalho estafante: os troncos eram duríssimos, mediam de 10 a 15 metros de altura e, depois de fragmentados em toras de aproximadamente 1,5 metro, podiam pesar até 30 quilos cada um. O cronista Jean de Léry descreveu o esforço dos nativos, que carregavam esse peso sobre os ombros nus por longas léguas mata adentro.

Índios cortam as toras de pau-brasil. Detalhe do mapa “Terra Brasilis”, Atlas Miller, 1519, Biblioteca Nacional da França.
Durante muito tempo, os livros didáticos chamaram essa relação de “escambo”, frequentemente sugerindo que os portugueses “enganavam” os nativos ao oferecerem “bugigangas” sem valor (como espelhos, miçangas e tesouras) em troca de um trabalho hercúleo. A historiografia e a antropologia contemporâneas rejeitam essa visão eurocêntrica, que retira o protagonismo dos povos originários e os reduz a vítimas ingênuas.
A realidade do contato era muito mais complexa e estratégica. Para sociedades que dominavam a tecnologia da pedra polida e lascada, a introdução de facas, foices e machados de ferro representou uma revolução tecnológica monumental. O uso de ferramentas de metal aumentou drasticamente a produtividade do trabalho nativo, reduzindo em até dez vezes o tempo necessário para derrubar árvores ou abrir clareiras para as roças de subsistência. Para o indígena, o metal europeu tinha um valor de utilidade prático imensurável.
Além do aspecto utilitário, essas transações não funcionavam sob a lógica do comércio ocidental, mas sim sob a lógica da reciprocidade e da aliança, amparada pelo que os antropólogos chamam de Teoria da Dádiva. Para os nativos, a circulação de bens selava pactos políticos e de parentesco por consideração. Aceitar os presentes (dons) dos europeus e retribuir com a madeira e o trabalho (contradons) significava inserir aqueles estrangeiros em suas próprias redes de sociabilidade e geopolítica interétnica.
Os líderes indígenas demonstraram enorme agência política: eles participavam das trocas de forma consciente, barganhando mercadorias e utilizando os novos aliados e as ferramentas de ferro para fortalecer suas próprias tribos contra etnias inimigas locais. Longe de serem trabalhadores explorados nos moldes capitalistas, os indígenas da costa controlavam o ritmo da extração com base em suas necessidades e visões de mundo, estabelecendo uma dinâmica de mútua dependência com os europeus nos primeiros anos da colonização.
6. A descoberta do maior pau-brasil do país
Em novembro de 2020, uma expedição botânica realizada pelo botânico Ricardo Cardim e pelo ambientalista Alex Vicintin localizou, em uma mata nativa dentro de um assentamento rural no município de Itamaraju (sul da Bahia), o maior e mais antigo exemplar de pau-brasil de que se tem registro no país.
A árvore anciã possui proporções inéditas para a espécie: tem cerca de 40 metros de altura e impressionantes 7,13 metros de circunferência de tronco (quase três vezes maior do que a média dos maiores exemplares conhecidos).
Especialistas estimam que o espécime tenha entre 500 e 600 anos de idade. Isso significa que ela já estava de pé, imponente na Mata Atlântica, muito antes da chegada da frota de Pedro Álvares Cabral em 1500, tendo resistido milagrosamente a séculos de desmatamento e exploração predatória.

O pau-brasil de mais de 500 anos descoberto no sul da Bahia. À direita, seus “descobridores” Ricardo Cardim e Alex Vicintin. Foto: Cássio Vasconcelos
7. Infográfico “A exploração do pau-brasil ao longo dos séculos”
O infográfico abaixo traz mais informações sobre a exploração do pau-brasill de 1500 até a atualidade. Para imprimi-lo em tamanho A-4, clique aqui.
Transcrição do infográfico
1500: Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil e envia embarcação para Portugal com a carta de Pero Vaz de Caminha e amostras de produtos da terra, como o pau-brasil.
1501: A Coroa portuguesa impõe o monopólio sobre o pau-brasil e arrenda o direito de extração a particulares. Fernando de Noronha foi o primeiro arrendatário. Em 1504, ele se torna capitão-donatário da ilha que hoje leva seu nome (primeira capitania do Brasil).
1511: A Nau Bretoa transporta carga de pau-brasil (300 troncos) e os primeiros indígenas negociados ou capturados como prisioneiros de “resgate”, em um contexto de alta extração anual da madeira.
1516: Expedição de Cristóvão Jacques, a primeira guarda-costeira, persegue traficantes de pau-brasil, principalmente franceses. Em 1526, aprisiona na Bahia 300 franceses que são executados.
1530: Traficantes franceses destroem feitoria de Pernambuco e extraem pau-brasil na costa usando mão de obra indígena.
1531: Expedição de Martim Afonso de Souza marca o início da colonização por meio da exploração agrícola da terra. A atividade extrativista de pau-brasil continua monopólio real. A madeira representa, então, 30% dos produtos brasileiros exportados para Portugal.
1578: O corsário inglês Francis Drake extrai pau-brasil no Maranhão. Calcula-se que os traficantes franceses, ingleses e espanhóis tenham provocado a extração de 12 mil toneladas de pau-brasil por ano.
1605 – 1607: Ao iniciar o século XVII, cerca de 2 milhões de árvores de pau-brasil já tinham sido derrubadas, afetando 6 mil km2 da Mata Atlântica. A Coroa cria a função de guarda florestal para controlar o desmatamento; a penalidade para a extração ilegal era pena de morte.
1824 – 1829: A Constituição imperial preserva o monopólio do pau-brasil. A vigilância das reservas florestais é responsabilidade do conselho fazendário do Rio de Janeiro. Em 1826, passou para os juízes de paz, autoridades eleitas e subservientes aos proprietários locais.
1859: Abolido o monopólio real do pau-brasil. Poucos anos antes, a exportação da madeira corante havia se reduzido muito com a invenção de corantes de alcatrão mineral.
1875: Entra no mercado a anilina, corante sintético para tecidos que substitui o pau-brasil como matéria prima para a indústria têxtil. O pau-brasil passa a ser usado na fabricação de violino, arcos de violino e violoncelos.
1924: O poeta Oswald de Andrade usa o nome pau-brasil para chamar seu Manifesto da Poesia que lançou as bases da poesia modernista de caráter primitivista, sem arcaísmos e erudição, e de valorização da cultura brasileira.
1978: A Lei 6.607, de 7 de dezembro de 1978, declara o Pau-Brasil Caesalpinia echinata a árvore nacional do Brasil.
1998 – 2000: A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) mapeia, no sul da Bahia, as últimas 277 árvores de pau-brasil nascidas naturalmente em solo brasileiro. Executa-se um projeto para o repovoamento de áreas da Mata Atlântida.
Curiosidades
- Os europeus conheciam o pau-brasil desde o século XI. Havia uma espécie de árvore semelhante em Sumatra, no Sudeste Asiático. De seu tronco extraía-se um corante para tecidos.
- Antes da chegada dos europeus, o pau-brasil crescia em abundância em meio à Mata Atlântica brasileira, que se estendia na faixa litorânea, de norte a sul do Brasil.
- A árvore do pau-brasil alcança entre 10 e 15 metros de altura e possui tronco reto, com casca cor cinza-escuro. As flores possuem quatro pétalas amarelas e uma menor vermelha, muito aromáticas.
- O pau-brasil era encontrado também nas florestas da Venezuela e do Caribe.
Fonte
- VAINFAS, Ronaldo (direção). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
- DEAN, Warre. A ferro e fogo. A história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1986
- HOLANDA, Sérgio B. de & PANTALEÃO, Olga. “Franceses, holandeses e ingleses no Brasil quinhentista”. In: HGCB. São Paulo: Difel, v. 1.
- MAESTRI, Mário. “No tempo do pau-brasil”. D.O. Leitura. São Paulo, 9 (105): 2-3, 1991.
Recursos didáticos relacionados
- Brasil colônia: períodos pré-colonial e açucareiro. 16 Atividades.
- Povos indigenas na época da colonização. Mapa mental para preencher.





Muito bom! Parabéns pelo material!
Gostaria parabenizar a toda equipe do site. Nunca encontrei um material tão rico em conteúdo e didático. Estou muito feliz!! parabéns
Muito obrigado pelo Material , sou aluno de direito da faculdade internacional Signorelli e em determinado assunto sobre economia me veio a dúvida como seria possível os portugueses conhecerem o “Pau Brasil” se a princípio ele só existiria no Brasil ?
Fui pesquisar no Google acadêmico em livros de herbologia sobre o nome científico e comecei a achar indícios de variantes regionais da Caesalpinia echinata e deste modo vim parar em seu site .
Muito obrigado por este serviço prestado.
Compartilhei no grupo da faculdade e indiquei às fontes e o autor.
Novamente , muito obrigado .
Obrigada Felipe. Fiquei muito feliz em saber que o artigo contribuiu para seu trabalho. Um abraço.