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Porque não gosto de Power Point e ainda prefiro a lousa e o giz (E o que a Neurociência diz sobre atenção)

25 de março de 2026

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Em primeiro lugar, gosto e uso (muito) tecnologia, mas isso não ofuscou a minha percepção sobre o impacto real da tecnologia na educação: o slide entrega o destino, enquanto a lousa ensina o caminho. No Power Point, o aluno é um passageiro contemplando uma paisagem estática; na lousa, ele se torna o copiloto de uma construção viva. Ao projetar uma tela pronta, muitas vezes interrompemos o fluxo natural do raciocínio em troca de uma estética impecável, mas fria.

Já o ato de riscar o giz, ver um mapa ou diagrama surgir do vazio e acompanhar o ritmo da mão que escreve, cria uma sincronia biológica entre o tempo do professor e o tempo da mente do estudante. Em uma era de estímulos digitais acelerados, fragmentados e viciantes, escolho o giz não por saudosismo, mas por entender que a lousa é, na verdade, uma tecnologia de alta definição cognitiva, capaz de resgatar a atenção que o brilho das telas nos roubou.

Relendo um artigo escrito em 2015

Em 2015 escrevi um artigo neste site sobre o uso da lousa e giz. Meu foco era o manejo técnico dessa ferramenta pedagógica: não dar costas à turma, conhecer a hierarquia das cores, organizar o espaço e o conteúdo no quadro de forma legível e lógica. A lousa era uma alternativa viável e barata ao projetor.

Mais de dez anos depois, o cenário mudou drasticamente. A tecnologia avançou nas escolas e há cada vez mais professores usando Power Point, gravando vídeos, produzindo imagens e animações em IA. Aulas se transformaram em shows de recursos e efeitos digitais. Mas eu continuo acreditando na lousa e giz. Conservadorismo ou idealização do passado?

A tecnologia digital nos dá a velocidade da luz para exibir informações, mas ela não transforma informação em conhecimento e nem produz aprendizado permanente. É no rastro lento do giz que o aprendizado parece criar raízes mais profundas.  Seria essa constatação mera nostalgia de um hábito antigo (ultrapassado?), ou existe em nosso cérebro uma preferência ancestral pelo gesto, pelo traço e pelo tempo humano da escrita manual?

O giz como antídoto: a neurociência da atenção sustentada

A resposta para essa pergunta não reside no saudosismo, mas na biologia. Estudos de neurocientistas como Anne Mangen nos revelam que o aprendizado não é meramente visual, mas háptico (através do sentido do tato). Quando o professor desenha setas e círculos na lousa esboçando um mapa mental, o cérebro do aluno não processa apenas informações abstratas, mas sim um gesto motor carregado de sentido.

Diferente da passividade de um slide digital, que fornece o destino final de forma instantânea, o movimento do giz na lousa impõe um ritmo que respeita a biologia da atenção e ativa no aluno o que a neurociência chama de circuito grafomotor: o cérebro não apenas “vê” a informação, ele a processa através da simulação do gesto.

O gesto do professor na lousa é lento e pausado com intervalos de explicação. O aluno é forçado a esperar o professor completar a frase ou o desenho para ter a informação completa. Essa “lentidão” pedagógica é essencial para o Deep Work (trabalho profundo), a capacidade de se concentrar sem distrações em uma tarefa cognitiva. Enquanto a tela digital traz o prazer imediato (dopamina), a lousa exige o esforço de construção (serotonina e satisfação pelo entendimento).

Nicholas Carr lembra que “o estado natural da mente humana é de desatenção” e que “a divisão da atenção exigida pela multimídia estressa ainda mais nossas capacidades cognitivas, diminuindo nossa aprendizagem e enfraquecendo a nossa compreensão” (CARR: 2011, p.93-94 e 180).

No momento que o aluno copia o que o professor escreve/desenha na lousa, a escrita manual exige um esforço cognitivo e motor muito mais complexo do que o simples ato de digitar ou visualizar um slide, criando uma ‘ancoragem física’ da informação como analisou Stanislas Dehaene. Na aula de História, por exemplo, isso significa que o aluno não apenas ‘vê’ o passado, mas acompanha a sua reconstrução física e lógica em tempo real, transformando o que seria um consumo efêmero de dados em uma memória consolidada pelo tempo do traço.

Essa ancoragem física cria uma “memória muscular” do raciocínio, algo que a passividade do brilho digital não consegue replicar. Enquanto a tela oferece uma gratificação instantânea que se dissolve no próximo scroll, o rastro do giz impõe uma desaceleração necessária, permitindo que os neurônios realizem as conexões profundas essenciais para a retenção a longo prazo.

A associação do gesto do professor na lousa com o do aluno no caderno convida à cópia seletiva. O ato de olhar para a lousa, processar a informação e traduzi-la para o caderno ativa o córtex motor e áreas de associação visual. Esse movimento físico “quebra” a paralisia do uso do celular – nas telas, o aluno tende a tirar foto ou esperar o material impresso, o que anula a memorização. A interdependência lousa-caderno transforma o aluno de um espectador de pixels em um agente ativo da sua própria anotação.

A lousa é um ponto focal único. É um ambiente livre de distrações digitais. Quando o professor escreve, ele domina o campo visual do aluno de forma analógica. Isso ajuda a restaurar a atenção sustentada, reeducando o aluno a manter o foco em um único objeto de estudo por 15, 20 ou 30 minutos — algo que o algoritmo das redes sociais tenta destruir. O design das redes sociais é feito para a distração.

As redes sociais trazem conteúdos desconexos, fragmentados, individualizados, sem sequência, sem tema principal. O neurocientista francês Michel Desmurget destaca que o bombardeio de estímulos digitais atrofia a capacidade de concentração profunda. Nesse cenário, a lousa e o giz atuam como um campo de força analógico: interrompem o fluxo caótico do algoritmo e restabelece a ‘atenção sustentada’. E atenção que é um dos quatro pilares da aprendizagem como lembra Stanislas Dehaene (2022).

Ao ver o professor organizar, giz a giz, a complexa teia de causas e consequências da Revolução Francesa, o cérebro do estudante é reeducado a seguir uma linha de raciocínio linear e hierárquica. Assim o aluno compreende que fatos históricos não são posts isolados, mas parte de um processo.

A lousa, portanto, deixa de ser um suporte antigo para se tornar uma ferramenta de resistência cognitiva, devolvendo ao aluno o tempo necessário para que a informação se transforme, de fato, em conhecimento.

O professor como designer do saber

A tecnologia muitas vezes “esconde” o professor atrás de uma tela. Na lousa, o professor é um performer. A caligrafia, o desenho desajeitado, o erro e a correção ao vivo humanizam o ensino, gerando uma conexão empática e curiosidade real.

Ver o professor escrever mostra que o conhecimento é uma construção humana, sujeita a correções e ajustes em tempo real. O slide, por ser “perfeito” e estático, pode parecer algo distante e inquestionável, reduzindo a sensação de participação do aluno na construção do saber.

Na aula sobre a ocupação territorial do Brasil Colônia, o professor esboça na lousa o contorno do Brasil e o limite de Tordesilhas. Quando desenha o movimento de bandeirantes rompendo a linha de Tordesilhas e risca flechas indicando os ataques às missões jesuítas, o aluno testemunha a expansão do território brasileiro acontecendo diante de seus olhos. O giz permite que o estudante saia da passividade do pixel e entre na profundidade do processo. Ele não apenas ‘viu’ o Brasil Colônia; ele acompanhou a sua arquitetura lógica sendo riscada, apagada e reconstruída, transformando o que seria um conteúdo efêmero em uma estrutura mental sólida e duradoura.

Ao final da aula, a lousa não é apenas um quadro preenchido; é o registro visual do raciocínio conduzido pelo professor. É a assinatura de seu saber pedagógico.

Conclusão: o ritmo do giz no resgate da atenção

Em um mundo que treina nossos alunos para o scroll (rolagem) infinito e a superficialidade do clique, a lousa e o giz resgatam o ritmo humano do pensamento. O professor não está apenas transmitindo um conteúdo escolar — ele está devolvendo ao aluno a capacidade de focar, de esperar a construção de uma ideia e de perceber que o conhecimento é um processo, não um produto instantâneo.

Se em 2015 eu defendia a lousa pela sua versatilidade e economia, hoje a defendo por uma necessidade quase terapêutica: a lousa tornou-se um campo de resistência cognitiva. Hoje, o desafio dos professores é a disputa pela atenção de alunos capturados pelas telas. Se a tecnologia avançou, o cérebro humano continua analógico, operando no ritmo do gesto e do traço. O que eu chamava de ‘tecnologia acessível’ há uma década, hoje chamo de ‘tecnologia de alta definição humana’, a única capaz de desacelerar o caos digital e devolver ao aluno a arquitetura do raciocínio em tempo real.

Terminada a aula, a lousa desenhada, escrita, rabiscada é o retrato de um raciocínio construído em tempo real. Enquanto o PowerPoint nos oferece a ilusão de uma perfeição estática e acabada, a lousa nos devolve a humanidade do processo.

Quando desenho a pirâmide social do Brasil Império ou traço as setas das invasões germânicas, não estou apenas entregando dados; estou ensinando o aluno a ver o movimento da História.

Escolho o giz porque ele impõe o silêncio necessário para a concentração e o ritmo orgânico que a biologia da atenção exige. Em um mundo saturado por telas viciantes e informações fragmentadas, a lousa permanece como o último reduto do pensamento profundo — a tecnologia de ‘alta definição’ que o cérebro realmente precisa para aprender a pensar.

Prefiro o giz porque, no rastro do seu traço, o aluno deixa de ser um espectador de pixels para ser participante do seu próprio conhecimento. Essa escolha não é virar as costas para o futuro, mas garantir que o futuro tenha a profundidade necessária para que o pensamento humano continue a florescer no seu ritmo. Um traço de cada vez.

Fonte

  • CARR, Nicholas. A Geração Superficial: O que a Internet está fazendo com os nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
  • CHARTIER, Anne-Marie. Fazeres ordinários da classe: uma questão para a pesquisa e para a formação. Educação e Pesquisa, 26 (2), dezembro 2000.
  • DEHAENE, Stanislas. É assim que aprendemos. São Paulo: Contexto, 2022.
  • DEHAENE, Stanislas. Os Neurônios da Leitura. Como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.
  • DESMURGET, Michel. A Fábrica de Cretinos Digitais: os perigos das telas para as nossas crianças. São Paulo: Vestígio, 2023.
  • MANGEN, Anne; VELAY, Jean-Luc. Digitizing literacy: reflections on the haptics of writing. Researh Gate, abril 2010.
  • MEER, Audrey van. A escrita à mão apresenta benefícios inesperados em comparação com a digitação. Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU). Psychiatrist.com.
  • VIDAL, Diana Gonçalves. No interior da sala de aula: ensaio sobre cultura e práticas escolares. Currículo sem Fronteira, v.9, n.1, jan/jun 2009.

 

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