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“Desmundo”, o filme que mostra o Brasil do século XVI

14 de agosto de 2021

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Baseado no livro homônimo de Ana Miranda, o filme “Desmundo” narra a história das órfãs portuguesas que, em 1570, foram enviadas ao Brasil para se casarem  com os colonizadores. Sob o apoio da Igreja, o Estado português pretendia que os colonos tivessem casamentos  “brancos e cristãos”  reduzindo, assim, o nascimento de crianças mestiças oriundas das relações com índias e negras.

O filme inicia com um fragmento da carta enviada pelo padre Manoel da Nóbrega ao rei D. João, em 1552. Nela vemos o excerto na íntegra:

“Já que escrevi a Vossa Alteza a falta que nesta terra há de mulheres, com quem os homens casem e vivam em serviço de Nosso Senhor, apartados dos pecados, em que agora vivem, mande Vossa Alteza muitas órfãs. E se não houver muitas, venham de mistura delas e quaisquer, porque são desejadas as mulheres brancas cá, que quaisquer farão cá muito bem à terra, e elas se ganharão, e os homens de cá apartar-se-ão do pecado”.  (NÓBREGA, 1988, p. 133)

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Simone Spoladore em Desmundo, de Alain Fresnot, 2003.

A personagem Oribela (Simone Spoladore), de 16 anos, é uma das órfãs portuguesa enviadas ao Brasil para o casamento forçado. Obrigada a casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), é levada para seu engenho de açúcar onde é violentada pelo marido. Tenta fugir, embarcar para um navio e voltar a Portugal, mas é recapturada por Francisco que a acorrenta em um pequeno galpão. Ali ela só conta com a ajuda de uma índia que lhe leva comida e aplica plantas medicinais em seus ferimentos.

Quando ela sai de seu cativeiro, continua determinada em fugir, até que numa noite, ela se disfarça de homem e segue para a vila, pedindo ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um cristão-novo que morava na região. Mantêm-se escondida  no estabelecimento do cristão-novo até ser descoberta pelo marido.

Novamente capturada, Oribela retorna à casa de Francisco. Passado algum tempo, Oribela dá à luz a uma criança, deixando-se em dúvida quem seria seu pai.

O drama vivido pela personagem faz compreender o título do filme: a colônia, longe de ser o paraíso imaginado pelos primeiros colonizadores e nem mesmo uma reprodução do Reino, transformou-se num “desmundo”, isto é, um “não-mundo”, termo aportuguesado do latim.

A mulher no Brasil colonial

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Oribela (Simone Spoladore) pede ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um cristão-novo que morava na região. O relacionamento entre eles forma um triângulo de trágicas consequências.

No filme “Desmundo”, além de Oribela, dona Branca (Berta Zemel), dona Brites (Beatriz Segall) e outras personagens femininas  traduzem a condição da mulher no Brasil colonial..

Segundo os costumes da época, quando uma jovem perdia o pai, ficava sob a tutela do Estado português que se tornava responsável pelo seu futuro. Enviar órfãs para desposar colonos era uma prática comum e foi adotada em outras colônias, como, por exemplo, em Goa, na Índia, como forma de preservar a “pureza” da elite branca de origem portuguesa.

A mulher vivia, então, submetida às leis do Estado e da Igreja sob o fundamento de que o homem era superior e, portanto, cabia a ele exercer a autoridade. A mulher devia submissão total ao homem seja ele o pai, o marido, o irmão ou um tio. Sua educação era voltada exclusivamente para os afazeres domésticos. Aprendia a cozinhar, fiar, tecer, bordar. O aprendizado da leitura e da escrita, quando ocorria, limitava-se ao mínimo restringindo-se ao funcionamento do futuro lar: ler, escrever, contar para redigir uma receita, um bilhete, uma lista de produtos etc.

Casava-se menina ainda, com 12 anos completos ou até mais cedo. O matrimônio era decidido pelo pai e este ficava muito apreensivo quando a menina de 14 ou 15 anos ainda não se casara, ou pior, se sequer conseguira marido para ela. O noivo era, em geral, um homem bem mais velho, de trinta, sessenta até setenta anos. O ato sexual não se destinava ao prazer (especialmente para a mulher), mas à procriação de filhos. A relação sexual era marcada pela violência, quase um estupro, como bem mostra o filme.

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Personagem não identificada no filme, a menina com síndrome de Down mora na propriedade de Francisco de Albuquerque junto com sua mãe.

O filme insinua uma relação incestuosa entre mãe e filho, pelos diálogos entre dona Branca e Francisco de Albuquerque e pela presença da menina excepcional sem que haja referência ao seu pai. Pode-se supor que a criança fosse filha de Francisco de Albuquerque, gerada de uma relação com a própria mãe.

 Sociedade colonial

Chamados de “brasis”, os índios são escravizados pelos colonos. Os jesuítas reclamam da falta de batismo dos nativos. Em suas visitas frequentes à casa de Francisco, o padre acusa que, na fazenda dele, existem mais de dez brasis sem receber catequese. Ao final, o padre leva alguns meninos índios  para torná-los cristãos, deixando-se no ar a suspeita de que, na verdade, pretendia usá-los como mãos de obra escrava.

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Dona Branca (Berta Zemel) em Desmundo.

O cristão-novo, judeu convertido ao catolicismo, é um elemento dúbio no filme. Apesar de sua presença necessária, é visto com desconfiança pelos demais colonos e, as vezes, até com repulsa.

O filme “Desmundo” faz uma reconstituição rigorosa do Brasil do século  XVI no vestuário, mobiliário, costumes e inclusive na língua. Alain Fresnot manteve o plurilinguismo do romance de Ana Miranda. Inteiramente falado em  galego-português, a forma arcaica da língua portuguesa, que todo elenco teve que aprender. O filme traz legendas em português contemporâneo para facilitar a compreensão do público. Para essa tarefa, o diretor contou com o auxílio e a supervisão de Helder Ferreira e Heitor Megale, renomados escritores e professores de Linguística da USP.

Interessante observar que as falas em tupi, dos indígenas, e em nagô, dos escravos não tem tradução. Talvez Fresnot desejou manter a plateia com a mesma sensação de estupefação de Oribela diante do desconhecido universo linguístico do Brasil da época. Isso permite ao espectador imaginar a pluralidade de linguagens existente na colônia e a dificuldade de comunicação entre os diversos grupos sociais.

Explorando os temas abordados pelo filme Desmundo

O filme “Desmundo” é um rico recurso pedagógico que permite trabalhar temas específicos e polêmicos da História Colonial brasileira, bem como em uma abordagem interdisciplinar, já que envolve outros temas que poderão ser trabalhados em outras disciplinas.

Entre os temas que podem ser extraídos do filme “Desmundo” estão:

  • A religiosidade no Brasil colonial.
  • A situação da mulher na sociedade portuguesa do séc. XV.
  • O conceito de matrimônio.
  • O cotidiano no Brasil colonial: costumes, habitações, condições de higiene.
  • Conflitos entre a Igreja e os colonos na questão indígena.
  • Relações comerciais na colônia.
  • Relações sociais na colônia: colonos, índios, padres, cristãos-novos.
  • A família patriarcal.

Sugestão de questões

  1.  Situe a época e o local em que se passa a história narrada no filme.
  2. Descreva os principais cenários do filme: a vila, o engenho de Francisco de Albuquerque e a Mata Atlântica.
  3. Quais são as línguas faladas no filme?
  4. Como os indígenas eram chamados pelos colonizadores?
  5. Como o padre caracteriza o índio em seu discurso durante o casamento?
  6. Como ocorria a catequização dos indígenas?
  7. Por que Ximeno Dias é visto com desconfiança e inferioridade por Francisco Albuquerque? Por que ele tem que esconder suas crenças?
  8. Que elementos do filme expressam o patriarcalismo da sociedade colonial brasileira?
  9. Como a mulher é retratada no filme?
  10. O filme mostra uma sociedade marcada pela subordinação e violência em todas as relações sociais. Cite três exemplos de subordinação e violência. [Entre maridos/homens e esposas/mulheres; entre senhores e escravos; entre católicos e cristãos-novos.]
  11. A palavra “desmundo” não existe na língua portuguesa. No entanto, ela faz sentido do ponto de vista da personagem Oribela. Por que?

Fonte

  • Desmundo. Direção de Alain Fresnot. Brasil, 2003, 100 min. Filme completo aqui.
  • NÓBREGA, Manoel da. (1517-1570). Cartas do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1988.
  • “Desmundo”, de Alain Fresnot, entrevista com a profª. Drª. Márcia Eckert Miranda, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, edição 216, 23 abr 2007.
  • FONTES, Mariana Cunha; FEITOZA, Tatiana Aparecida. “Desmundo” uma análise da América por trás do filme. Revista IHGP, v. 7, n.2, 2020.
  • ZORZO, Solange Salete Toccolini. A voz ex-cêntrica da personagem Oribela em “Desmundo”. Revista Policromias, dez 2017, p. 111-122.
  • _________. “Desmundo”: as relações dialógicas entre o romance de Ana Miranda e o filme de Alain Fresnot.
  • NEVES, Fátima Maria. O filme “Desmundo”, a História e a Educação, a História e a Educação. ANPUH, XXIV Simpósio Nacional de História, 2007.
  • GREGIO, Gustavo Batista. Igreja e família: a submissão da mulher no filme “Desmundo” a submissão da mulher no filme “Desmundo” (Universidade Estadual de Maringá). VI SIES, Simpósio Internacional em Educação Sexual.
  • _________; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. A construção histórica do gênero feminino na narrativa fílmica de ‘Desmundo”. História Debates e Tendências. Passo Fundo, v. 21, n.2, mai/jun 2021, p. 67-86.
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JRBelardo
6 anos atrás

O que mais deixa perplexidade e, que, a ´´mulher´´ o que é mais importante para um homem, naquela época e, em alguns casos nos dias de hoje, é vista como objeto de procriação, servidão.

Simone de Sousa Bastos
Simone de Sousa Bastos
6 anos atrás

Amei o filme.

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[…] na sociedade colonial, existiram mulheres submetidas ao domínio masculino, possivelmente a maioria, houve também muitas […]

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