Os contos de fadas, em sua essência polissêmica, transcendem a narrativa infantil para se tornarem espelhos das tensões e anseios de sua época. Em “Os Músicos de Bremen”, as metáforas de exclusão e união não apenas dialogam com a crise social da Alemanha do século XIX, como continuam a inspirar novas leituras sobre resiliência e coletividade em contextos futuros.
Este artigo propõe uma análise histórica centrada na obra dos Irmãos Grimm, em especial o conto Os Músicos de Bremen, demonstrando como uma história de animais errantes pode ser lida como um rascunho simbólico da identidade nacional. Dada sua riqueza conceitual, o texto oferece um campo fértil para o trabalho interdisciplinar, conectando os domínios da História, da Literatura e da Sociologia em uma reflexão crítica sobre a construção de um povo.
O Conto de Fadas como projeto político
Os irmãos Grimm – Jacob (1785) e Wilheim (1786-1859) – recolheram narrativas e lendas populares da Alemanha, além de traduções de As mil e uma noite e obras de outros autores. Em 1812, publicaram Contos para crianças e famílias incluindo contos de fadas clássicos entre eles Branca de Neve, Hansel e Gretel (João e Maria), Rapunzel, O Flautista de Hamelin e Os Músicos de Bremen.
Eles não foram, porém, apenas coletores de folclore; seus trabalhos filológicos e estudos sobre a Antiguidade e o Medievalismo visavam à construção de uma unidade cultural do povo alemão por meio das tradições e da língua comum. Sua coleção de contos de fadas não era apenas um projeto de livro infantil, mas uma busca de reconstruir cientificamente o “espírito alemão”.
No contexto da ocupação napoleônica e da fragmentação alemã (ainda não havia uma Alemanha politicamente unificada), eles viram na língua e nas histórias orais a verdadeira “alma do povo” (Volksgeist). Criaram um vínculo cultural através do Dicionário Alemão e da Gramática Alemã, e tornaram os contos mais “germânicos” fazendo adaptações como:
- Eliminação de termos estrangeiros (muitas histórias tinham raízes francesas como as de Perrault).
- Adaptação da linguagem para dar um tom popular alemão (estilo volkston).
- Reforço de valores morais como obediência, diligência e respeito à autoridade – vistos como pilares do caráter nacional.
- Substituição de mães cruéis por madrastas para preservar a imagem sagrada da “mãe alemã”.
Esses “ajustes” transformaram contos orais brutos em um monumento cultural que ajudou a promover a união dos alemães em torno de uma identidade moral e literária comum. Forjava-se, assim, uma unidade cultural alemã milenar que precedia e justificava a existência de um Estado-Nação unificado.
Os Músicos de Bremen: resumo
A história começa com um homem pensando em se livrar de um burro velho incapaz de trabalhar. O burro pressentiu seu triste destino e decidiu fugir para Bremen onde poderia se tornar um músico da cidade. No caminho, encontrou um cachorro velho cujo dono queria matá-lo pois não servia mais para caçar. Convidou o cachorro para acompanhá-lo para que também se tornasse músico.
Pouco depois, encontraram um gato que seria afogado porque não caçava mais ratos. Ele também se juntou a eles, pois era bom em tocar música à noite. Logo encontraram um galo que havia fugido para não ser abatido e cozido. Ele também se juntou aos músicos, pois tinha uma bela voz.
Os quatro chegaram a uma floresta ao anoitecer e se prepararam para dormir sob uma grande árvore. O galo voou até o galho mais alto e avistou uma luz faiscando à distância. Avisou seus companheiros que devia ser uma casa. Os quatro decidiram ir até lá.
Chegando à casa, o burro olhou pela janela e viu ladrões desfrutando de boa comida e bebida. Então, eles discutiram como poderiam expulsar os ladrões. Logo chegaram a um acordo: iriam afugentar o grupo com sua música.
O burro colocou as patas dianteiras no parapeito da janela, o cachorro subiu nas costas do burro, o gato, nas costas do cachorro e o galo voou para a cabeça do gato. E de repente os quatro quebraram os vidros da janela e colocando as cabeças para dentro gritaram a todo pulmão: o burro zurrou, o cachorro latiu, o gato miou e o galo cantou.
Apavorados com o barulho, os ladrões fugiram para a floresta. Os quatro companheiros então sentaram-se à mesa e se fartaram de comer. Quando terminaram, apagaram a luz e se acomodaram para dormir.
Com a casa silenciosa, um ladrão se aproximou para ver quem estava ali dentro. Acendeu um fósforo e imediatamente o gato pulou em seu rosto, o cachorro mordeu sua perna, o galo voou para cima dele e o arranhou com sua espora e o burro deu um coice que jogou o ladrão para longe.
Aterrorizado, o ladrão saiu correndo e gritou para os outros que uma bruxa terrível havia tomado a casa. Nunca mais os ladrões voltaram. Os músicos se divertiram na casa dos ladrões e gostaram tanto de lá que não quiseram ir embora. Ninguém sabe se eles chegaram a Bremen.
Simbolismo moral dos quatro animais
A simbologia dos animais tem raízes profundas na história humana que remontam ao totemismo e se mantém fincadas em camadas profundas do inconsciente. O simbolismo nem sempre é claro, pois muda conforme a cultura e os valores de um povo. O burro, o asno e o jumento, por exemplo, podem significar humildade e pobreza e também estupidez e teimosia. A raposa pode indicar astúcia e esperteza, mas também trapaça e falsidade.
Nas fábulas e nos contos de fada, os animais falantes funcionam como espelhos dos comportamentos humanos, são portadores de lições morais, sátiras sociais ou conflitos internos. Servem, assim, de ferramentas educacionais dos povos.
Em Os Músicos de Bremen, os personagens — um burro, um cachorro, um gato e um galo — não têm nomes próprios, mas são reconhecidos por suas funções e representam arquétipos morais.
O burro, o iniciador da jornada, é o trabalhador incansável que, após uma vida de servidão, recusa-se a aceitar o abate. Ele personifica a resiliência e a liderança, é a mente estratégica que propõe a união.
O simbolismo do cão em muitas mitologias é o de guia, companheiro, protetor, fiel e leal. No conto, ele está velho e exausto e lamenta não conseguir caçar para o seu dono. Sua presença no grupo reforça que, mesmo quando “fraco”, o senso de proteção e o companheirismo são vitais para a sobrevivência do grupo.
O gato simboliza a agilidade, não apenas física, mas mental, a inteligência astuta, a sabedoria acumulada pela experiência. É dele que parte o segundo e definitivo ataque aos ladrões.
O galo é quem enxerga, do alto da árvore, a luz da casa dos ladrões. Ele simboliza a prontidão e a capacidade de anunciar novos tempos (o amanhecer), sendo o vigilante do grupo.
Simbolismo político dos quatro animais
O simbolismo moral dos animais do conto enquadra-se nos valores que, segundo o imaginário romântico alemão do século XIX, deviam compor a nação. Assim, trabalho, resiliência, lealdade, agilidade são as virtudes esperadas dos cidadãos de uma Alemanha unida. Valores que transformam animais velhos e fracos em símbolos de uma “velha Alemanha” que, unida, se fortalece.
No nacionalismo romântico dos Grimm, a característica moral mais importante não está em um animal, mas na hierarquia funcional:
- O Burro carrega o peso.
- O Cão oferece defesa.
- O Gato traz agilidade.
- O Galo oferece a visão.
O conto ressalta, ainda, que o valor do indivíduo no Estado-Nação não deve ser medido apenas pela produtividade imediata (os cidadãos “descartados” são parte do coletivo), mas pela sua contribuição histórica e moral à comunidade. A solidariedade mantém os vínculos fortalecidos
Os animais não brigam entre si; eles formam uma “comunidade unida pelo destino” (Schicksalsgemeinschaft), um conceito muito forte no nacionalismo alemão.
Os animais são de espécie diferentes e de donos diferentes, mas unidos por uma condição ou destino comum e um perigo compartilhado – uma alusão direta à fragmentação da Alemanha em dezenas de estados independentes, reinos, ducados e cidades-livres em boa parte ocupados pelas tropas napoleônicas na época dos Grimm.
Simbolismo da pirâmide animal
O maior símbolo da união é a icônica pirâmide animal: os animais empilhados são a metáfora visual perfeita do Federalismo e da cooperação nacional. Sozinho, cada animal é vulnerável, fraco e incapaz; unidos, eles formam uma figura assustadora que expulsa o inimigo de “sua” casa.
Politicamente, isso simbolizava a unificação dos pequenos Estados alemães: a soma das forças regionais criava uma potência capaz de enfrentar ameaças externas (os ladrões, muitas vezes entendidos como os invasores franceses).
A metáfora serve também para a ideia de soberania. Ao subirem uns sobre os outros, eles criam uma entidade única, maior e aterrorizante capaz de vencer o inimigo. E aqui, outro elemento fundante da nação: a construção de um inimigo comum (os ladrões), o invasor que ocupa o território (a casa) e ameaça a soberania. Isso fortalece a coesão interna do grupo.
A apropriação e defesa do território é conquistada pela expulsão dos invasores através do som (a voz do povo) e a força coletiva marca o nascimento do Estado: o estabelecimento de fronteiras e o monopólio da violência dentro de um lar reconquistado.
O destino final: Bremen e o conceito de Heimat
A escolha de Bremen como destino é simbólica. Era uma cidade da Liga Hanseática, orgulhosa de sua liberdade e independência, uma “cidade livre”, status conquistado desde o século XIII. Representava o ideal de um refúgio de direitos e cidadania para o povo alemão.
Bremen não é, portanto, apenas um destino geográfico, mas a metáfora do Estado-Nação idealizado. No imaginário oitocentista, a “Nação” era vendida como o lugar da liberdade, da música (harmonia social) e da segurança. A decisão de “ir para Bremen” espelha o movimento de unificação alemã: indivíduos isolados e vulneráveis percebem que a sobrevivência depende da união por um propósito comum.
No entanto, o fato de os animais não chegarem ao destino e preferirem ocupar a casa na floresta é um ponto crucial do conservadorismo romântico. Eles encontram o Heimat — o lar, a pátria segura. A mensagem política é que a unificação objetiva a conquista de um espaço territorial estável onde o povo alemão possa exercer suas tradições sem interferência. A prioridade nacional não era a expansão imperialista, mas a segurança do lar (Heimat). A unificação alemã era vista por muitos como uma forma de finalmente “ter uma casa” onde os alemães pudessem viver em paz, longe das guerras constantes que assolavam a Europa Central.
Conclusão
Embora publicado em 1819, décadas antes da unificação de 1871, o conto “Os Músicos de Bremen” ofereceu o repertório simbólico necessário para o nacionalismo preparando o terreno para o Estado-Nação.
Ao consolidar o conceito de Heimat e a eficácia política da “pirâmide de cooperação”, os Grimm ofereceram uma gramática moral comum para uma Alemanha fragmentada. O conto argumentou que a união de forças distintas em torno de um território seguro era o único caminho para a soberania inabalável.
Assim, a obra não apenas narrou a fuga de velhas estruturas sociais (o Antigo Regime), mas projetou o alicerce moral e identitário que permitiria ao povo alemão imaginar-se como uma nação antes mesmo de possuir um Estado. Provou que a literatura pode antecipar a geopolítica, transformando arquétipos de lealdade e solidariedade nos pilares invisíveis que, anos depois, sustentariam a estrutura do Império Alemão.
Fonte
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Coletânea de contos
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